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Blur: Discografia comentada

Blur: Discografia comentada

Matheus "Daigoro" Pacheco
13.05.2003
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h14
Atualizada em 21.09.2014 às 13h14

Leisure (1991)

Modern Life Is Rubbish (1993)

Parklife (1994)

The Great Escape (1995)


Blur (1997)


13 (1999)

Best of (2000)

De tempos em tempos a música vislumbra uma luz ao longe no escuro túnel do mercantilismo. Algumas vezes é uma breve saída do túnel e, em outras, um trem vindo em direção contrária.

O Blur, banda de modos camaleônicos capitaneada pelo "moody" Damon Albarn e - por muito tempo - calcada na guitarra do "nerd" Graham Coxon, foi uma destas luzes que chegou a dar a esperança de um dia ensolarado. Pena que o nosso trenzinho pop desviou desta saída e acabou correndo atrás da barca quase furada dos irmãos Gallagher e seu Oasis, que têm o seu brilho, mas este vem acompanhado de uma brevidade espantosa na qualidade. Mesmo assim, os rapazes de Manchester viraram mania mundial, enquanto a galera do Blur só tem a fama que merece na Inglaterra. Lá na terra da Rainha, os dois se revezavam nas capas das revistas especializadas. Era uma briga divertida de acompanhar e que todo mundo só saía ganhando, principalmente os fãs.

O resultado disso tudo é que hoje o Blur é uma daquelas quase super-bandas, que muita gente tem como referência - boa ou má - obrigatória, mas que quase ninguém realmente conhece a fundo.

O grupo, que inicialmente atendia pelo nome de Seymour, foi criado em 1989 por Albarn, Coxon, Alex James (baixo) e Dave Rowntree (bateria). Sua imagem foi inicialmente associada ao recém-falecido rock de Manchester, mas logo recebeu o título de locomotiva do Britpop - movimento que surgira no início dos anos 90 com os Stone Roses. O que sobrou desde então foi um Blur buscando firmar sua aceitação, variando sua corrida entre os indies lo-fi e os art-rockers - e, às vezes, juntando ambos.

De lá pra cá a banda teve momentos de suprema inspiração e de desabalada preguiça. Eis um resumo da obra dos sujeitos:

Leisure (1991)
Rock baseado em guitarras e baladeiro, sem grandes inovações - talvez por isso mesmo o disco tenha sido tão desprezado pela banda. As influências aqui ainda são muito notadas, de Beatles a Smiths. Os destaques ficam por conta de "Sing" - parte da trilha sonora de Romeu+Julieta e que antecipa em 10 anos o rock tristonho e pianado do Coldplay - e "Theres no other way" - uma agradável mistura de rock e dance music.

Modern Life is Rubbish (1993)
O álbum, que tem muita história pra contar - singles jogados fora, produtores de sucesso jogados fora, guitarrista jogando a vida fora. É o início do processo que levaria o Blur à perfeição do álbum seguinte. Aqui já se nota o uso de texturas musicais diferentes, por hora sofisticadíssimas e por hora quase infantis, e o deslumbramento de Albarn com a vida cotidiana. Os destaques ficam para "For tomorrow" e "Chemical world" (músicas compostas/gravadas de última hora
seguindo a orientação da gravadora - que pedia mais "hits") e "When the cows come home" - divertidíssima faixa incluída na versão americana do álbum, que mostra claramente que Albarn não está nem aí com a coisa.

Parklife (1994)
A perfeição em que Albarn consegue usar a música pop como crítica social tão forte quanto um texto de Veríssimo ou um filme de Soderbergh. Todas as letras vão direto ao ponto e é difícil escolher pontos fortes entre tantas verdadeiras peças de literatura. Fica então a dica de se ouvir as duas únicas faixas que fogem à crítica social, "Far out" - clara homenagem ao Pink Floyd - e "Debt collector" - marchinha alemã histérica que lembrará qualquer uma da Oktoberfest.

The Great Escape (1995)
Continua o legado iniciado com Modern Life is Rubbish e que chegou ao auge com Parklife. Letras cínicas e musicalmente tão variado quanto aditivo. Os destaques ficam, sem sombra de dúvida, para os singles "Country house" e "Charmless man" - que caberiam facilmente no álbum anterior tamanha a quantidade de boas referências sociais e culturais a se dar porrada.

Blur (1997)
Álbum mais esteroidado, que tende abertamente à mania. Toda a base sonora (tanto melodia quanto ritmo) calca-se no amor declarado dos dois frontmen pelo rock independente norte-americano da época, "pero sin perder la ternura jamás". Foi deste álbum que saiu "Song 2", aquela música rápida (de 2 minutos e pouco), em que Albarn fica gritando "uhuuuuuuuu" e que acabou virando o grande hit mundial da banda, fazendo até parte da trilha-sonora do videogame FIFA Soccer. Destaque absoluto para "On your own" - talvez a mais perfeita mistura da porção nerd-psicodélica de Coxon com as melódicas e insanas letras de Albarn - e "Death of a party", um Gorillaz antes do tempo.

13 (1999)
Disco esquizofrênico, composto em períodos de tempestade sentimental para Albarn, que é recheado de citações depressivas e auto-depreciativas, além de ser melodicamente massacrante - notadamente em seus momentos mais tristes. Destaque para "No Distance Left To Run" - hino supremo à dor de cotovelo - e "Tender" - um desesperado pedido de Albarn por uma nova chance de amar. Vale citar como pontos baixos de um álbum quase magnânimo as preguiçosas "Bugman", "Swamp song" e "B.L.U.R.E.M.I."

Em 2000 a banda lançou seu Best Of, com a preguiçosíssima "Music is my radar" como single inédito.

Agora, em 2003, a banda volta a se reunir após breve hiato símio e já sem o guitarrista Graham Coxon para lançar o esperado e conturbado Think Tank.

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