Música

Entrevista

As Bahias e a Cozinha Mineira fala sobre sonoridade e papel na luta trans

Banda prepara seu terceiro álbum de estúdio para 2019

Julia Sabbaga
28.01.2019
13h26

“É impossível disassociar nossa música das próprias dores que a gente passa no nosso cotidiano”. A frase de Assucena Assucena, do As Bahias e a Cozinha Mineira, ajuda a entender as motivações por trás do recém-revelado single da banda, "Das Estrelas", lançado na última sexta-feira, dia 25. A faixa e o clipe, dirigido por Rafael Carvalho, trata da violência contra pessoas pessoas LGBTTT- Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros - abordando de forma explícita algo que sempre esteve presente nos trabalhos do trio, e ainda veio em tempo para o Dia da Visibilidade Trans.

Formada em 2011 por estudantes da USP, As Bahias e a Cozinha Mineira uniu suas duas frontwomen, Assucena Assucena, Raquel Virginia e o guitarrista Rafael Acerbi, por um amor mútuo por Amy Winehouse. Apesar de ter nascido como uma banda tributo à cantora, os três membros permaneceram juntos muito por um amor em comum, e citam uma outra influência tão grande quanto Amy, Gal Costa“O impressionante é que são duas artistas da maior envergadura possível na música. Ela tem uma postura revolucionaria, vanguardista. Tanto no sentido musical, estético, quanto comportamental”, disse Assucena.

Desde então, foram dois discos, Mulher (2015) e Bixa (2017), trabalhos que passam por sonoridades diversas e demonstram uma evolução de composição clara no grupo, ao que Assucena associa com o aprendizado de estúdio do grupo. Entendendo mais sobre o processo fonográfico, a banda soube tirar proveito do laboratório criativo e hoje constrói sonoridades diferentes: “Mulher se encaminha de um disco de uma realidade rural, de um brasil pré 50, para um brasil pós 50. Ele tem uma mistura de sonoridades do campo com o da cidade. E Bixa já é completamente urbano, com uma fauna urbana se apresentando. Mulher era mais aberto, generalista, abarcava um vínculo com grandes expressões de gêneros musicais brasileiros”. Um dos elementos que mais salta aos ouvidos em Bixa é uma transição ao pop, que Assucena não nega, mas explica: “A gente quer ser pop também, mas não apenas pop. Ser pop é lindo. A gente naturalmente flerta com o que se chama de alternativo, e o que se chama de pop, mas estamos no cerne da sonoridade brasileira, que tem a ver com ciranda, baião, rock, samba. Somos uma banda eclética nesse sentido”.

Enquanto no começo da carreira As Bahias e a Cozinha Mineira era mais referida por suas duas vocalistas trans, à medida que a carreira deslanchou, as associações mais óbvias foram cada vez mais raras. Mas para a dupla de vocalistas, a questão nunca deixou de fazer parte de suas composições: “Muitas das nossas canções são marcadas por isso. Apesar da construção de personagens e eu líricos, essa associação acaba acontecendo sim”. Em parte, para Assucena, isso vem por um sentimento de responsabilidade: "A responsabilidade social acaba aumentando sobre as costas de quem tem um parlatório, para subir, e um microfone para falar. Nesse sentido eu me sinto responsável. Não necessariamente atribuo essa responsabilidade a todas as pessoas trans, acho que é algo muito mais individual e particular”. Mas no fim das contas, Assucena enfatiza a luta individual de cada um: "Nós não somos as representantes únicas, e não queremos ser. Que cada pessoa trans seja porta voz da sua própria luta".

As Bahias e a Cozinha Mineira preparam o seu terceiro disco de estúdio, que deve ser lançado ainda no primeiro semestre de 2019.