Armin Only Embrace, um grande show para uma audiência desconectada em São Paulo
Repertório mais comercial acaba com a hipnose de Armin
Armin van Buuren ainda continua o DJ sorridente e simpático que abre os braços no meio do set e olha para a plateia como se algo incrível estivesse em sua frente. Armin parece o mesmo, mas o seu som, não. Ao contrário do que era possível ver em suas apresentações mais antigas, uma legião de fãs chegando a um evento como o Skol Beats, depois das cinco da manhã, só para vê-lo tocar ou ainda um tipo de hipnose que ele parecia ter sobre as pessoas e que pôde ser visto na apresentação do Armin Only Intense, seu disco anterior, parece ter desaparecido em seu novo projeto.
O DJ holandês trouxe para o Anhembi, na sexta-feira (9), seu mais recente show solo, Armin Only Embrace - que deve ser a última turnê com esse conceito - e deixou evidente que a guinada em sua carreira para músicas mais comerciais está praticamente completa. Assim, à medida em que suas produções se aproximam do movimento eletrônico mais vendàvel e automaticamente passam a ser ouvidas por um público maior, a hipnose e a devoção que suas apresentações exerciam sobre a sua audiência parecem se diluir.
Com uma estimativa de 13 mil pessoas presentes no espaço, o produtor holandês trouxe para o Brasil o que ele chama de o "maior show" que ele já produziu. O conceito do Armin Only é a apresentação de suas músicas, com os vocalistas de cada uma delas ao vivo no palco, mais banda e tudo que fizer parte do álbum. No show desse ano, a mostra principal ficou por conta de Embrace, lançado em 2015.
O show tem alguns grandes momentos, principalmente quando Eric Vloeimans, trumpetista, se integra ao som apresentado por Armin e cria camadas que garantem uma música muito mais interessante e climática, como o caso da versão de "Adagio for Strings". É interessante ver um DJ sobre o palco com um show tão grande em mãos, sendo parte de algo além da música que toca nas pick-ups, mas apenas isso.
No entanto, fora alguns momentos arrebatadores, no resto do tempo, suas faixas mais comerciais e rápidas, entretêm o público, mas não geram conexão, uma das características mais bacanas dos seus tempos no trance. Durante o show, isso pôde ser visto claramente nos momentos em que Armin estimulava a plateia a fazer seus gestos, a fazer barulho, a participar da apresentação com ele, mas somente os fãs mais próximos ao palco respondiam. Algo impensável para o holandês de cinco ou seis anos atrás.
Uma das coisas interessantes nos shows de Armin é a mistura de público, várias idades e estilos. Esse é um ponto positivo de sua música ter se tornado mais comercial; chegar a mais pessoas. Porém, a mágica que havia em suas apresentações, a imponência dos seus gestos, com os braços abertos ou ainda com um braço apontando para o céu com o dedo em riste, já não contagia grande parte da plateia.
Era possível perceber que a audiência se divertia, mas estava em seu próprio mundo, criando seu próprio show, sem a necessidade de um maestro. Mas mesmo com essa desconexão do público e com a aposta de Armin em ampliar sua sonoridade, vê-lo no comando de um show com essa magnitude impressiona. A participação dos vocalistas ao vivo e da banda, agrega muito à experiência de estar ali. Em todo caso, como prova dessa nova fase, um dos momentos em que foi possível ver a melhor resposta do público aconteceu quando o DJ apresentou suas produções do EP Old Skool, o qual é composto por músicas antigas retrabalhadas por ele e que, possivelmente, compõe o momento com a sonoridade mais pesada da noite.
No final de tudo, mesmo com um grande show, com fogos, explosões, luzes e a concretização da guinada de Armin para um estilo mais amplo, fica faltando um pouco da mágica que a música exerce. Apesar de ter conseguido ampliar seu público e se manter entre os grandes nomes do segmento, graças ao seu talento para mudar, o que se vê é que aos 39 anos, com 20 de carreira, o seu "feitiço" no palco se diluiu, sobrando poucas fagulhas do que o holandês costumava ser. Resta saber se o evento planejado para os dias 12 e 13 de maio, em um estádio em Amsterdã, será capaz de gerar a conexão do público com o artista, já que ele deve apresentar as principais criações que permearam todo o trajeto de sua carreira. Como alguns fãs comentaram, esse será, possivelmente, o último ato de Armin como um produtor de trance. Resta esperar para ver.
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