Apanhador Só no Auditório do Ibirapuera
Banda gaúcha esgota ingressos em uma dos locais mais requisitados de São Paulo e mostra nova vertente dentro do rock nacional
Em um excelente artigo publicado no Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, o crítico Guto Leite levantou a bola sobre a atual fase da banda gaúcha Apanhador Só. Em linhas gerais, Leite resenha o disco Antes que Tu Conte Outra, considerado Álbum do Ano de 2013 pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), ao mesmo tempo em que desenha paralelos das canções com as manifestações ocorridas em junho do ano passado.
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É incrível o sentido que seus pontuamentos geram, a partir do momento em que revelam uma certão previsão política da banda, que lançou o álbum meses antes do povo sair às ruas.
Foi dentro desse contexto político e com um folêgo visceral que o show da Apanhador Só começou no sábado, 10 de maio, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo. Com casa lotada, às 21h07, as cortinas se abriram e a banda formada por Alexandre Kumpinski (guitarra e vocal), Felipe Zancanaro (guitarra), André Zinelli (bateria) e Fernão Agra (baixo), iniciou a noite com "Mordido", enquanto trechos de angustiantes filmagens capturadas durante as manifestações eram exibidas no telão ao fundo. Diego Poloni, guitarrista conterrâneo da banda, também participou de algumas músicas ao longo da noite, incluindo a primeira.
Nisso, estavam todos em seus lugares, como manda o figurino do anfiteatro. Mas a entrada de um dos convidados especiais da noite fez com que boa parte do público quebrasse o protocolo e se dirigisse ao contorno do palco, ficando lá até o final. Eterno Os Mulheres Negras, o artista Maurício Pereira colaborou num dueto de "Vitta, Ian, Cassalis", faixa do Apanhador Só que observa a rapidez da vida no mundo atual. Em seguida, por meio de um arranjo garageiro, a banda resgatou um dos clássicos de Pereira, "Trovoa", que deixou uma plateia inteira em silêncio. Silêncio de admiração, que fique claro.
O último convidado especial, o músico Jair Naves, apareceu algumas múscias depois num encaixe inteligente do setlist. Sua voz obscura conferiu uma pegada mais pulsante a "Lá em Casa Tá Pegando Fogo", presente em Antes que Tu... . Na sequência, emendaram "Pronto Para Morrer ( O Poder de uma mentira dita mil vezes)", de Naves, que a interpretou com sua conhecida fúria dos tempos de Ludovic.
Mas a banda que fala de política, também fala de amor, de encontros e desencontros e, de certa maneira, tratam com uma proximidade real diversos dilemas vividos pelos mais jovens. Prova disso foi a interação da plateia durante músicas como "Prédio", de 2010; a melancólica "Paraquedas", do EP de 2012 e "Nado", do álbum mais recente. Esta, aliás, um dos pontos do alto do show, com direito a fãs em cima e de baixo do palco ajudando a, literalmente, fazer barulho, seja com molhos de chaves, palmas, gritos ou tapas na boca feito índio.
O potencial da Apanhador Só é notório. Não são pretenciosos ao ponto de se definirem como algo específico. A performance tímida no palco mostra que o estilo da banda ainda está tomando forma. Entretanto, dá para recorrer aos argumentos de Guto Leite e perceber que, assim como uma parte considerável dos brasileiros, a Apanhador Só também procura pela sua essência.
Não significa que eles vieram nos salvar, não é sobre isso que a banda se pauta e nem é o que queremos, afinal, cada um trabalha com sua verdade. Com tudo, é esperançoso e gratificante de ver o quão real e próximo o poder da arte pode ser na vida das pessoas. A Apanhador Só consegue provocar o "pessoal" dentro do "geral" e isso é uma das coisas mais preciosas que uma banda pode desejar em cima do palco.
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