5 Seconds of Summer subverte a cartilha pop em passagem eletrizante pelo Brasil
Em SP e BH, 5 Seconds of Summer desconstrói a própria trajetória e entrega espetáculo que foge da nostalgia óbvia
O que define a longevidade de uma banda — ou boyband? Dinheiro, números estratosféricos em paradas globais, fãs caindo aos seus pés? Para a 5 Seconds of Summer, que está se reintroduzindo com a era Everyone’s a Star!, a resposta não é tão óbvia. Indo na contramão de expectativas ditadas pela indústria na qual se inseriram, a banda australiana formada por Luke Hemmings, Michael Clifford, Calum Hood e Ashton Irwin abraçou o cinismo, o exagero da fama e as críticas que se fizeram presentes ao longo dos seus 15 anos de carreira para transformar a própria trajetória em uma sátira teatral, fazendo uma megaprodução que difere de todas as turnês anteriores do grupo.
Após cerca de três anos se dedicando a projetos solo, os integrantes voltaram aos palcos respeitando cada uma de suas versões em uma turnê elétrica e bem produzida aos mínimos detalhes, com pausas interativas que tanto agradecem aos fãs pela persistência quanto complementam a narrativa teatral — do auge ao retorno triunfal. A turnê leva o nome do álbum Everyone’s a Star!, mas serve mais como uma lembrança de tudo o que os quatro australianos viveram até alcançar o título de "maior boyband que você nunca ouviu falar".
O grupo, que se apresentou duas vezes no Brasil neste final de semana (19 de setembro em São Paulo e 20 de setembro em Belo Horizonte) voltou renovado com um pop rock enérgico que brinca com toques de eletrônica e sintetizadores pesados que dão vida para faixas com "NOT OK", a escolhida para dar início às quase duas horas de show com deixas para o público pular o mais alto que conseguir. Os australianos, que retornaram da pausa em novembro de 2025 com o lançamento do álbum cuja sigla é EAS, juntaram mais de 12 mil pessoas somando ambas as noites. É uma quantidade decente de pés pulando ao som de "Evolve" e foi o suficiente para fazer o chão do Arena Hall tremer em "Bad Omens".
Para quem passou mais de uma década tentando se distanciar do rótulo de boyband, a 5SOS encontrou um meio-termo com a experiência completa do show. Os fãs brasileiros mais assíduos puderam adquirir o pacote VIP, que inclui uma coletiva de imprensa com perguntas previamente aprovadas e respostas pouco sérias que vão de acordo com a linha narrativa da turnê. Há, também, uma rápida passagem de som na qual a banda escolhe uma música de sua preferência e joga a segunda opção para a plateia decidir. Em Belo Horizonte, as pouco mais de "Caramel" e "Wherever You Are", cantando em uníssono com os membros.
Estreantes no Suhai Music Hall, em São Paulo, e na Arena Hall, em Belo Horizonte, a banda se provou capaz de cativar uma nova geração de fãs que não presenciaram o sucesso implacável de "She Looks So Perfect", mas aceitaram o convite para uma viagem temporal a partir da conexão à primeira vista com "No. 1 Obsession", levando ao pé da letra o pedido 'make me your number one obsession'. Embora tenha sido comum ver os mesmos rostos próximos ao palco em ambas as noites, ficou nítido que a banda ainda tem apelo para filas que começam no auge da madrugada e terminam a tarde virando quarteirões.
Mas mais do que apelar à nostalgia barata como estratégia, o show criativamente encaixa os sucessos do passado da banda em uma história sobre fama, tropeços, espaço e recomeço, com curtas em formato de jornal e cortes de documentários que destacam as personas extravagantes que cada um dos membros trabalha para a imersão na experiência.
No segundo ato do show, intitulado The Fall, cada uma das faixas meticulosamente selecionadas entre os álbuns Sounds Good, Feels Good, CALM, Youngblood e Everyone’s a Star se une em prol de dar uma nova vida para as letras já muito conhecidas dos fãs, cativados do início ao fim pelos vocais potentes e agudos clássicos do vocalista principal. As pausas para interação com o público vão além de um simples "Hi, Brasil": logo após "No Shame", se tornou tradição um slide mostrando o que os membros fizeram nos momentos anteriores ao show para experienciarem a vida de um local.
É bom deixar claro que nem todas as atividades do guia de fato aconteceram — algo que a banda fez questão de deixar claro em São Paulo após as vaias pela imagem que brincava com uma amizade fictícia com Neymar Jr. "Fuck Neymar", disse o guitarrista Michael Clifford para se redimir. Na capital mineira, o grupo jogou no seguro e mencionou cachaça, pão de queijo, sertanejo e o plano de dançar com o público. O momento é seguido por uma memória consagrada pelos fãs e Clifford sempre deixa claro que a lembrança é um presente adicional para os fãs, que "acham graça" das situações relembradas.
Ainda no meio do segundo ato, há uma pausa na nostalgia após "She's Kinda Hot", com o público presenciando a entrega do prêmio fictício de Melhor Boyband do Ano antes da banda embalar em "Boyband", uma das músicas mais populares do novo álbum. A pessoa responsável pela entrega do prêmio aos membros é escolhida a partir de um kit premiado do pacote VIP; o mesmo processo ocorre ao final do show, para a abertura da maleta prateada que revela a música surpresa mais votada da noite.
O terceiro e o quarto ato são um pouco mais contidos em energia, com os membros dando espaço para faixas melancólicas da banda, como "Ghost of You" e a novata "I'm Scared I'll Never Sleep Again". Com a voz potente de Hemmings sendo uma das estrelas da noite, as plateias reagiram com um jogo de luzes nas cores laranja, rosa, verde e amarelo a partir de flashes de celulares; a ideia era representar tanto as cores da era atual da banda australiana como o Brasil.
Em seguida, vem o que pode ser considerado um medley das faixas mais famosas dos álbuns solo de cada membro: "Starting Line" (de Hemmings), "Have You Found What You’re Looking For" (de Irwin), "Don’t Forget You Love Me" (de Hood) e "Enough" (de Clifford). Apesar da recepção morna em São Paulo para as apresentações que vieram após o solo de Hemmings, a capital mineira recebeu as canções individuais sem favoritismo e ecoando as quatro músicas que contribuíram para o processo da era atual.
Ao caminhar para o final da noite, a banda embala os atos cinco e seis, The Rise e The Beginning, com o sucesso de 2014 "Amnesia" e diversos clássicos dos dois primeiros álbuns. É aqui que a música surpresa é revelada: se em São Paulo a maleta revelou "You Don't Go to Parties", de 2022, o público mineiro optou por uma renovada na setlist ao escolher "Start Over" ao invés de "Try Hard". Em seguida, a seção que precede o fim com grandes — e pesadas — bolas cor-de-rosa que passeiam pela plateia é encerrada ao som de "She Looks So Perfect" e o clássico punk jump, que remete ao começo do grupo.
Para o sétimo e último ato, chamado The Return, um breve vídeo com Clifford se dirigindo diretamente para a plateia com a frase que se tornou marca registrada da 5SOS: "Bandas de verdade salvam fãs de verdade", a mesma que estampou as plataformas móveis nas quais os artistas subiram no Lollapalooza Chicago deste ano, é a deixa para que a audiência saiba que está prestes a ouvir "Everyone's A Star" e "Youngblood" antes do encerramento da noite.
Diferentemente das três passagens anteriores da banda no país, a quarta foi marcada por apresentações mais maduras e intimistas, deixando o público fazer parte do espetáculo que abre espaço para cada um dos quatro deixar sua marca enquanto artista. Embora a caminhada das estrelas, oficialmente star walk, tenha ficado de fora dos shows do Brasil, o público pareceu não se incomodar com as supostas limitações das casas de shows para a ausência de passarela. A banda soube contornar os imprevistos, como a limousine inflável para a América Latina, e transformar o que começou em São Paulo, com a versão funk para a introdução de "NOT OK", terminasse em Belo Horizonte, com a adaptação de "Everyone's A Star" para samba, como a melhor passagem do grupo pelo Brasil até então.
Longe de se apoiar em fórmulas fáceis ou na mera indulgência da plateia, a turnê sintetiza a evolução de quatro músicos que souberam absorver a bagagem de seus projetos solo para reinventar a dinâmica coletiva no palco. O saldo das noites em São Paulo e Belo Horizonte vai além da energia evidente das quase duas horas de apresentação: é o retrato de um grupo que encontrou na autorreflexão e na ousadia estrutural a chave para retomar a força em um mercado que precisa abrir os olhos novamente para a banda.
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