2Hype: vanguarda, elitismo e concretices
2Hype: vanguarda, elitismo e concretices
![]() Laub |
![]() Ellen Allien |
![]() Fred Landier |
![]() Françoise Cactus |
![]() Brezel Goring |
![]() LCD |
![]() Zé do Caixão |
O 2Hype é daqueles festivais que surgem no meio do caminho para dar um abençoado fôlego no marasmo musical das atrações internacionais que pintam por aqui. Dedicando-se exclusivamente à música eletrônica e experimental, o festival captou convidados praticamente desconhecidos de fora do gueto, que estavam em turnê pelo país. Elitismo, sim, mas e daí?
O palco, a famosa choperia do Sesc Pompéia, provou mais uma vez sua versatilidade, transformando-se em uma improvisada pista de dança. Antes dos shows, os VJs do Estúdio Bijari comandavam: dominavam os telões com seus conceitos visuais, enquanto os DJs convidados se revezavam nas picapes. Daí surgiram os primeiros poréms do evento. O som dos DJs nem sempre condizia com o dos nomes que tocariam logo a seguir, truncando o ambiente. Na outra mão, as imagens dos VJs continuavam sendo aplicadas nos telões que ficavam atrás do palco, durante os shows, gerando um pequeno conflito de conceitos. Mas, como sabemos que nem tudo pode mesmo ser perfeito, a gente releva e tudo bem.
A primeira noite, dedicada à produção alemã, foi aberta pela dupla Laub. Com sintetizadores e um computador Macintosh, os dois apresentaram seu inspiradíssimo trabalho experimental. Barulhinhos estranhos e melodias desconexas, com o vocal afinado de Antye, metade feminina do duo, fechando o pacote. Porém, o som causou estranheza na platéia. Depois da terceira música, praticamente todo mundo estava sentado no chão, como num grande luau eletrônico em volta da fogueira.
Logo em seguida, a atração esperada da noite: Ellen Allien, cultuada DJ alemã. Apesar dos álbuns próprios, ela veio apresentar seu set nas picapes mesmo, pesando a mão no techno e outras bigornas eletrônicas. Enquanto isso a platéia, como já é de costume do povo paulista, não se mexia. Na maior parte do tempo, todos ficaram parados em pé, prestando atenção em Ellen, como se a apresentaçõa da DJ no canto do palco fosse um balé intricadíssimo. Nem mesmo quando ela tocou um remix de "Hyper ballad" (da Björk), a frustrante platéia se animou.
A noite seguinte pertenceu aos franceses, mas com um desfalque: o produtor Doctor L não deu as caras no Brasil. Tanto melhor, deu mais tempo ao surpreendente show da trupe Rubin Steiner. Steiner, pseudônimo de Fred Landier, produz um som electro-jazzy excelente e seu último CD, Wunderbar drei, tem até edição brasileira. Num show de quase duas horas, Landier e seus três amigos (que formam o Rubin Steiner Quartet Live), só fizeram provar o pecado de serem pouco conhecidos por aqui.
Com contra-baixo, trombone distorcido por pedais e um eventual theremin (além da parafernália eletrônica eventual), o grupo reconstrói as músicas do álbum ao vivo, injetando energia até o talo. Seguiram a linha animadinhos, com caras, bocas e coreografias. Fizeram a platéia se acabar, dando direito a até mesmo um "momento Madonna", com Landier cantando o refrão de "Music". De brinde o quarto integrante, o VJ François Pirault, aplicava no telão imagens de filmes velhos e bizarrices, inclusive intervindo na música.
O ápice do festival foi dedicado à atração mais popular do evento: a dupla franco-alemã Stereo Total. Os 800 ingressos esgotados confirmaram o "hype" do grupo entre indies e descoladinhos em geral. Os dois personificam o imaginário low-profile kitsch. De um lado, Françoise Cactus, com seus óculos pesados, tímida e forçando a leitura de um português enrolado, dominava a bateria tosca. À mão, um providencial caderninho com as letras das músicas. Do outro lado, Brezel Goring é o mais animado, gritando, pulando e atacando com seu teclado, sintetizadores e uma guitarra feita a mão. Precisa de mais que isso?
O repertório, assim como todo o trabalho da dupla, foi um caldeirão de estilos, variando da disco music fofinha ao punk com pitadas de electro. Conversaram e se divertiram com a platéia que demonstrou um exagero de carinho - pra vergonha da massa. Num momento, um louquinho sobe ao palco para beijar os integrantes. Depois, outro. Mais tarde, o palco já estava lotado, com dezenas de anônimos descarados. Todos aproveitaram a deixa de Françoise, que puxou uma garota da platéia para uma participação já combinada na versão em português de "Lamour a 3". Acabou virado "Amor a 40". Dava pra ver na cara dos dois o estranhamento com tanta "interação".
De quebra, a dupla emendou três ou quatro bis, além de uma cover de Iron Maiden. Merece destaque a cover do hit francês "Joe le taxi", com a platéia cantando em coro a versão brasileira gravada por Angélica, "Vou de táxi". E viva a geração anos 80.
À meia-noite revolverei tua alma
A série de homenagens, já clássicas do Hype, ocupou as duas últimas noites do Festival. O primeiro "alvo" foi o clássico cineasta Zé do Caixão, que ganhou um tributo excelente do trio de música experimental LCD. O grupo apresentou uma competente colagem de efeitos e trilhas sonoras dos filmes de Zé, com trechos das obras no telão. O próprio homeageado marcou presença no show, para deleite da platéia. Fino, lutou contra um falso discípulo, apresentou suas musas e contou uma história de terror, como só ele sabe.
O encerramento ficou por conta do clássico e frequentemente esquecido Walter Franco. Diretamente dos anos 70, Franco foi convidado a reconstruir ao vivo seu segundo álbum, o antológico Revolver. Com mestria, juntou velhos companheiros e alguns amigos para dar consistência ao show. Destaque também para seu filho, Diogo Franco, que segurou a barra como segunda voz do pai. Apresentaram todas as faixas do CD, encerrando com uma improvisação de "Revolver", a faixa-título. Vale falar também da palhinha que Anvil FX, ou Paulo Beto, também integrante do LCD, deu antes do show, tocando algumas faixas de Franco, munido de teclado e laptop.
Com cinco dias dedicados à celebração da música eletrônica inteligente e de qualidade, o saldo do Festival foi mais positivo do que muitos esperavam. A única coisa que não ajuda é o nome, um bocado pretensioso. Mas quem se importa?
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