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O problema da opinião de James Cameron sobre Mulher-Maravilha

Cineasta vê a heroína como um retrocesso

Natália Bridi
25.08.2017
13h20
Atualizada em
05.02.2020
11h37
Atualizada em 05.02.2020 às 11h37

Não há um tipo certo ou errado de mulher poderosa”, respondeu a diretora Patty Jenkins sobre a declaração de James Cameron sobre Mulher-Maravilha ser um retrocesso para personagens femininas fortes (leia aqui e aqui). Segundo o cineasta, Sarah Connor, a heroína da sua franquia O Exterminador do Futuro, é um exemplo melhor para as mulheres “por não ser um ícone de beleza e ser forte, problemática, uma péssima mãe”.

Assim como a sua versão para Ripley em Aliens - O Resgate (1986), Cameron tende a buscar a força das suas personagens em traços masculinos e na maternidade. Não há nada de errado nessa abordagem, desde que ela não seja limitadora. Ao assumir na sua crítica que a sua versão do que é uma mulher poderosa era a certa, o diretor determina que personagens representativas não podem fugir dessa classificação.

Acontece que, como Jenkins coloca na sua resposta ao diretor, progresso é quando as mulheres assumem todas as facetas humanas, assim como personagens masculinos já fazem - “Se as mulheres sempre precisam ser difíceis, duronas e perturbadas para serem fortes, e não estamos livres para sermos multidimensionais ou celebrar um ícone para mulheres do mundo todo por ela ser atraente e amável, não chegamos muito longe, não é mesmo?”. Essa é a grande questão.

Mulheres existem das mais variadas formas e cores, com as mais variadas índoles e personalidades. Podem ser boas ou más, bonitas ou feias, gordas ou magras, generosas ou egoístas, inteligentes ou estúpidas, vaidosas ou desleixadas, fortes ou fracas, com as axilas depiladas ou não. Não importa. O cinema enquanto expressão artística humana precisa integrar todas essas variações para criar personagens melhores e mais completas. E isso inclui, ao contrário da reclamação de Jessica Chastain no festival de Cannes (veja aqui), a inclusão de todas as visões sobre o feminino, sob diversas perspectivas, incluindo as perturbadoras.

Martin Scorsese, por exemplo, deixa claro ao rever sua filmografia que tinha problemas para se relacionar com o sexo oposto. A criação italiana e católica não permitia que visse as mulheres como iguais, dividindo-as entre santas e vagabundas (no momento em que se tornava sexualizada, a mulher perdia a sua santidade). Como artista que é, porém, o cineasta usou o cinema para lidar com essa questão - Quem Bate à Minha Porta?, de 1967, é sobre um jovem que não consegue lidar com o fato da sua namorada ter sido estuprada no passado. As mulheres não são os centros das suas história, mas sob a sua perspectiva masculina ele revela muito sobre a relação entre os gêneros. A personagem de Margot Robbie em O Lobo de Wall Street (2013), altamente sexualizada e ao mesmo tempo uma mãe amorosa, mostra como a sua relação com as personagens mudou ao longo dos anos.

É disso que o cinema como arte e como entretenimento precisa: de todos os olhares. Mesmo a discordância com uma visão acrescenta algo à discussão, a uma evolução de pensamento. Quando Cameron assume que a sua visão é a correta está apenas descartando outro olhar para se "autocongratular". Na mesma entrevista ao The Guardian, o cineasta diz que não entende o porquê de Hollywood não conseguir fazer personagens femininas fortes “de verdade”: “Há muitas mulheres no poder em Hollywood e elas guiam e moldam os filmes que são feitos. Não posso explicar isso. Por que quantas vezes preciso demonstrar a mesma coisa de novo? Sinto que estou gritando em um túnel de vento”.

Dizer que Mulher-Maravilha foi um retrocesso é, como Jenkins escreve, não entender o que a personagem é e representa. Isso independe do gênero do público, ainda que a diretora ressalte que ser uma mulher é definitivo para a compreensão absoluta da importância do filme. A representatividade gera sensações diferentes e tem consequências práticas, seja nas prateleiras das lojas de brinquedo, seja nas meninas que descobrem como é ser uma heroína. Ela é um ícone idealizado como muitos heróis e é nessa simplificação ideológica, nesse exemplo de bondade, que está o seu alcance com os mais variados tipos de pessoas, adultos ou crianças.

O filme de Jenkins é um marco não por ser perfeito, mas pela relevância. Um blockbuster no mundo dos super-heróis dirigido por uma mulher para coroar uma nova era do cinema e da TV. A representatividade feminina nas telas não é mais uma exceção como na época em que Leia, Uhura e, claro, Ripley e Sarah Connor eram exemplos contados nos dedos. Mad Max: Estrada da Fúria foi um marco com suas mulheres de todos os tipos, Rey despertou uma legião de fãs de Star Wars e Supergirl mostra para meninas como pode ser legal usar uma capa. Agents of SHIELD, Game of Thrones, The Handmaid's Tale, Jessica Jones, os exemplos são variados, todos com personagens diferentes, com públicos diferentes. Somos muitas, James Cameron.