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Séries e TV

Lista

10 Novelas disponíveis na Globoplay que são tão boas quanto séries

Porque o mundo da ficção não se faz só de Netflix

Henrique Haddefinir
25.03.2020
11h13
Atualizada em
25.03.2020
12h54
Atualizada em 25.03.2020 às 12h54

É comum que parte do público de séries torça o nariz para as novelas. Ao ler o título desta lista, por exemplo, parte do público provavelmente fez uma ligeira careta. De fato, a linguagem da novela é mais direta, apressada, sem uma valorização maior ao entorno da história, sobretudo porque o hábito de assisti-las foi construído em cima da ideia de que o espectador busca uma narrativa fácil e relaxante depois de um dia longo de trabalho e estresse. Indo ao ar quase todos os dias, a novela tem uma demanda de produção ostensiva e também, por causa disso, a atenção ao artístico fica comprometida.

Isso, é claro, é o que se pensava há 30 anos. Com o crescimento do mercado de séries, as novelas precisaram encontrar um jeito de vencer esse rótulo, que, honestamente, sempre foi injusto. Todos aqueles que se dispuseram a vencer a correnteza pretensiosa que determinou a novela como um subproduto que inferiorizava automaticamente o espectador, descobriu um mundo fantástico que consegue, mesmo com todas as limitações, falar de assuntos relevantes como política, religião, sexo e diversidade, de modo digno e compensador.

O que acontece é que no final dos anos 90 as transformações teledramatúrgicas começaram e as séries de TV foram se tornando mais acessíveis. E o mais importante: começaram a influenciar os autores. Filtros de imagem, técnicas de direção, fragmentação narrativa, tudo sendo usado para dar ao folhetim uma cara cada vez mais moderna, sem nunca perder de vista que novelas e séries tem linguagens diferentes. As principais melhorias, contudo, vieram com o texto. Pouco a pouco, quebras culturais foram positivamente promovidas, barreiras e tabus buscaram a naturalização e o público passou a ser desafiado. É claro que ainda há coisas como A Dona do Pedaço e Salve-se Quem Puder dando passos para trás, mas também há exemplos de como a TV amadureceu e entrou em sintonia com o respeito a sua plateia.

Reunimos abaixo 10 títulos que são tão bons quanto uma série de TV. Para ocupar um lugar na lista o crítério foi não usar novelas que estão no ar. Além disso, todas elas estão disponíveis no catálogo da Globoplay, que permite acesso mais fácil. Há novelas ótimas que não entraram (alô, A Favorita) porque não integram o catálogo do streaming. Há títulos das 18h, 19h, 21h e 23h, ou seja, para todos os gostos.

A novela é uma conquista da nossa cultura. É nosso canal mais acessível com a arte. É pura diversão, alegra vidas, salva vidas, reconhece e promove mudanças. Se você está disposto a vencer preconceitos ou simplesmente rever uma dessas lindas obras, esse é nosso convite.

A Regra do Jogo (2015)

João Emanuel Carneiro tinha uma grande responsabilidade depois do sucesso de Avenida Brasil e resolveu contar uma história que talvez seja a que mais parece uma série em toda essa lista. Toda a história se baseia na dúvida em torno de Romero (Alexandre Nero), um homem amplamente conhecido como um altruísta, um herói social, mas que tem desafetos que contam uma história diferente.

Além de ter um vilão oculto, brincar com as expectativas de quem pudesse ser o líder de uma facção e toda a qualidade do texto, a novela entitulava os capítulos (algo nunca feito antes) e conduzia sua trama na correlação com esse título, tornando tudo ainda mais inteligente e elegante (a novela, inclusive, foi indicada ao Emmy internacional). É bem verdade que ela talvez tenha os piores núcleos cômicos da história, mas isso não muda o fato de que a competência narrativa foi impressionante em muitos níveis. Até hoje, inclusive, a abertura com as peças de xadrez burlando as regras e se atacando é insuperável.

A Força do Querer (2017)

Quando olhamos para a história que A Força do Querer (de Glória Perez) contou, parece inacreditável que uma novela das 21h tenha conseguido tanto espaço para falar de tolerância e diversidade.

A história acompanha um grupo de personagens que precisa enfrentar tudo em nome desse “querer” do título. A dondoca Joyce (Maria Fernanda Cândido) se debatia para aceitar as diferenças de Ritinha (Isis Valverde). Ivana (Carol Duarte) lutava pelo direito de fazer a transição de adequação de gênero; e mesmo a luta errada de Bibi (Juliana Paes) ao transformar-se numa bandida acompanhando o marido no crime, compunha um quadro sensacional do que A Força do Querer oferece enquanto dramaturgia.

A novela também surpreendeu com um número bem reduzido de personagens e uma calma na direção que proporcionou cenas bem cuidadas, condizentes com o texto sensível e estudado de Perez. Sem dúvida nenhuma, ver o público torcer pelo personagem trans foi uma das vivências mais comoventes da história da nossa TV.

Onde Nascem os Fortes (2018)

Em meio à muita poeira e aridez, Onde Nascem os Fortes (de George Moura e Sérgio Goldenberg) foi exibida no horário das 23h e chamada de “supersérie” devido ao seu número de capítulos (mais de 50). Ainda assim, essas produções ficaram conhecidas como “as novelas das 23”.

A história de Maria (Alice Wegmann), que procurava o irmão desaparecido e possivelmente morto, foi criada para mostrar o que a Globo tinha de mais sofisticado em termos de composição artística.

 Com um ritmo bem mais lento que o de uma novela regular, a direção conceitual de José Luiz Villamarim ocupava com muito drama e apelo visual cada segundo da narrativa. O resultado acabou sendo mais poético que factual e muita gente gostou muito disso.

Verdades Secretas (2015)

Um dos maiores sucessos do horário das 23h, Verdades Secretas é o trabalho contemporâneo mais elogiado da carreira de Walcyr Carrasco. Conhecido por superficializar ao extremo suas novelas das 21h, aqui Carrasco segurou a mão e contou uma história enxuta, que mesmo com alguns problemas conseguiu um bom resultado.

Seu maior apelo está na sua narrativa sexualizada e pessimista, que trouxe à tona o mundo da prostituição de luxo como nenhuma novela tinha feito antes. A direção de Mauro Mendonça Filho também era extremamente estilizada, que em muitos momentos lembrava realmente uma série. O maior destaque ficou por conta da trajetória da modelo Larissa (Grazi Massafera, que foi indicada ao Emmy Internacional), que vai fundo no mundo das drogas e chega a ser residente da cracolândia, em cenas que são realmente muito chocantes.

Sangue Bom (2013)

A primeira novela das 19h desta lista é também a primeira que foge desse estilismo visual sempre presente no horário das 21h. Aqui a sensação de estar vendo uma novela aumenta e isso não é negativo.

O enredo de Sangue Bom não é exatamente original, mas o cuidado com o texto foi tão forte que aquela premissa simples ganhou uma profundidade que ninguém esperava. A novela conta a história de seis jovens, entre adotados e filhos de sangue, que tem suas vidas convergidas depois que Amora (Sophie Charlotte) e Bento (Marco Pigossi) reacendem sua paixão de infância.

Além dos shows de Giulia Gam, Marisa Orth e Ingrid Guimarães, a novela conseguiu traçar paralelos incríveis sobre até que ponto é mais importante ter do que ser. Fernanda Vasconcellos, inclusive, foi a catalisadora da maioria dos ponderamentos inteligentíssimos que o texto fazia. E a trilha era sensacional.

Rock Story (2017)

A novela de Maria Helena Nascimento foi um frescor para o horário. Tendo a música como pano de fundo, a autora contou uma história segura e bem planejada sobre um ex-ídolo do rock vivido por Vladimir Brichta, que enfrentava a sombra da decadência depois que um cantor de sofrência, vivido por Rafael Vitti, rouba uma de suas músicas e passa a fazer sucesso com ela.

A novela era tão bem escrita e fazia sua parte musical com tanta dignidade, que poderia ser facilmente uma das séries da CW. Era uma novela solar, divertida, mas que tratava assuntos como fama, relacionamentos entre maduros e jovens e radicalismo musical com muita seriedade. Apesar dos clichês do gênero, todos foram trabalhados com outro viés. Se parecia tanto com uma série que incluiu até mesmo um “previously” antes de apresentar os eventos do capítulo anterior.

Bom Sucesso (2019)

Essa acabou faz pouquíssimo tempo, mas quem não assistiu deveria dar uma chance. Bom Sucesso, assim como outros títulos do horário das 19h que aparecem na lista, não tem nada de inovador, usa todos os recursos clássicos de uma novela, mas faz isso com graciosidade e inteligência.

Rosane Svartman e Paulo Halm criaram uma trama leve e sagaz sobre uma costureira do subúrbio que tem um exame trocado com o dono de uma editora e por isso, pensa que vai morrer em breve. A experiência a transforma imensamente.

Quando Paloma (Grazi Massafera) e Alberto (Antonio Fagundes) se encontram e desfazem o engano, uma amizade comovente nasce entre eles. E o melhor: uma amizade pautada nos livros. A novela utilizava clássicos da literatura como base filosófica da história e o fazia com extrema delicadeza. A novela foi muito bem sucedida e obteve muito reconhecimento da crítica. Destaque para o vilão de Armando Babaioff e para a interpretação especial de Fabíula Nascimento na pele da complexa Nana.

Espelho da Vida (2019)

Elizabeth Jhin é conhecida por suas histórias que falam sobre vidas passadas e reencarnações, mas em Espelho da Vida ela levou os fãs para um universo familiar para os fãs de Outlander.

Na história, Cris (Vitória Strada) é uma atriz famosa que vai até uma pequena cidade para gravar um novo filme. Sua chegada é marcada pela sensação constante de que já esteve ali. Após lidar com esse sentimento por algum tempo, Cris vai parar num casarão abandonado e, após contemplar um dos espelhos da casa, o atraessa e vai parar na década de 30, na pele de Júlia, a mulher que ela foi em sua vida passada.

Assim, a novela se passa mostrando a dinâmica de Cris voltando ao passado para tentar desvendar seu destino e também o crime que resultou na morte de Júlia. Vitória Strada (que foi a sexta opção para o papel) segurou muito bem as duas facetas da personagem e vários outros nomes do elenco puderam viver mais de uma versão de si mesmos. Assim que chegou na sua metade, a novela encontrou um ritmo que a tornou quase hipnótica e confirmou o talento da autora em preparar e explorar suas tensões.

Sete Vidas (2015)

Apesar de não ser uma novela popular como várias que estão nessa lista, Sete Vidas é um trabalho especial da autora Lícia Manzo, que será, inclusive, a autora da próxima das 21h.

A história já é peculiar por si só: Lígia (Débora Bloch) e Miguel (Domingos Montagner) se apaixonam, mas a insegurança dele sobre se envolver com alguém o faz abandoná-la e seguir para a Antártica. Lá ele sofre um acidente e é dado como morto.

A partir daí, a novela revela, pouco a pouco, várias vidas que estão ligadas a Miguel por um mesmo ponto em comum. São sete, como no título; e a cada nova conexão, a novela ganha mais força e amplitude. O texto de extrema qualidade e a volta de Jayme Monjardim à uma priorização da trama e não do estilismo visual, fazem de Sete Vidas uma opção de maratona compensadora. E curtinha, viu. Só 106 capítulos.

Malhação: Viva a Diferença (2017-2018)

Apesar de ter dito que essa lista não teria títulos que estão no ar, Malhação: Viva a Diferença vai entrar não só porque sua volta como alternativa de reprise diante das mudanças promovidas pelo combate ao coronavírus será apenas em abril, como também porque essa reprise, em si, é mais uma chance de acompanhar aquela que talvez seja a mais aclamada temporada da eterna novela da tarde.

Lica (Manoela Aliperti), Ellen (Heslaine Vieira), Tina (Ana Hikari), Benê (Daphne Bozaski) e Keyla (Gabi Medvedovski) se conhecem em uma circunstância inusitada: uma pane no metrô as aprisiona num vagão no meio do trabalho de parto de uma delas. A partir daí, a história se desenvolve alternando a força delas em tramas quase episódicas.

Os temas clássicos da Malhação estão presentes, como abuso, assédio, racismo, homofobia e por aí vai; mas a perspectiva do autor Cao Hamburger (conhecido por obras voltadas para o público jovem) deu ao texto uma chance de sair da superficialidade. A coisa toda deu tão certo que um derivado vai estrear ainda esse ano. As Five (como eram conhecidas as meninas) também terá o nome de Cao Hamburger na criação e se você quer ver entendendo tudo, a hora de começar Viva a Diferença é agora.