Marvel está quebrando a indústria de efeitos visuais, diz sindicalista

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Marvel está quebrando a indústria de efeitos visuais, diz sindicalista

Em entrevista ao Omelete, o artista de efeitos visuais Joe Pavlo comenta a crise do estúdio com a classe, que se tornou uma das maiores controvérsias do entretenimento em 2022

Omelete
7 min de leitura
20.12.2022, às 10H00.
Atualizada em 26.12.2022, ÀS 12H50

Eu vou responder à sua pergunta, mas primeiro você deve se transformar de volta na Jennifer”, diz a câmera robótica para a Mulher-Hulk. “Por quê?”, questiona a heroína verde. “Você é muito cara”, responde o robô. “Mas espere a câmera tirar você do enquadramento. A equipe de efeitos visuais foi trabalhar em outro projeto.

Esta que foi uma das cenas mais comentadas da minissérie Mulher-Hulk: Defensora de Heróis (Disney+) é um bocado metalinguística — e foi interpretada por muitos espectadores como um comentário da série sobre o estúdio por trás dela própria.

O Marvel Studios chegou ao fim de 2022 com um grande problema nas mãos, e sabe bem disso. Quando Thor: Amor e Trovão chegou aos cinemas em julho deste ano, Taika Waititi fez comentários corrosivos a respeito do VFX – sigla em inglês para efeitos visuais – do longa-metragem que ele mesmo dirigiu. Em entrevista à Vanity Fair, ele e a atriz Tessa Thompson zombaram de algumas cenas. Os comentários parecem ecoar a crítica que muitos espectadores têm feito às produções da Marvel nos últimos tempos, mas, no frigir dos ovos, pegou mal para os dois.

O motivo: naquela ocasião, várias reportagens da imprensa em língua inglesa já traziam relatos anônimos de artistas de VFX que se queixavam da rotina excruciante na prestação de serviços ao estúdio que é um dos mais poderosos de Hollywood, senão o mais. Nas redes sociais, em especial no Twitter e no Reddit, esses profissionais denunciaram práticas abusivas por parte da empresa. No anonimato ou não, falaram sobre a exigência de entrega de trabalhos a toque de caixa, mas sem o tempo de produção e o orçamento adequados para tanto.

Embora tenham gerado impacto por se tratar de um estúdio adorado, esses relatos não trazem nada essencialmente inédito, diz Joe Pavlo, artista de VFX há 30 anos e sindicalista, em entrevista ao Omelete, de Londres. Ele trabalhou no departamento de efeitos visuais de Guardiões da Galáxia (2014).

Artistas de VFX têm que trabalhar excessivamente, são mal pagos e têm pouco tempo para cumprir prazos”, explica. “Não têm nenhuma seguridade e, em termos de benefícios, o mínimo legal. Também há problemas com bullying e machismo há muitos, muitos anos.

O artista de efeitos visuais Joe Pavlo

Arquivo Pessoal

Pavlo, que venceu o Emmy por duas produções da HBO, a série Roma e o filme A Vida e a Morte de Peter Sellers (2004), lidera a área de efeitos visuais e animação do Sindicato de Transmissão, Entretenimento, Comunicações e Teatro (Bectu, na sigla em inglês), em tradução livre, e tem acompanhado de perto os casos.

Ele atua na organização londrina desde os protestos dos artistas do ramo que trabalharam em A Vida de Pi (2012), de Ang Lee. Enquanto o filme fazia imenso sucesso de crítica e bilheteria e vencia o Oscar de efeitos visuais, os funcionários do Rhythm & Hues Studios, ateliê responsável pelos VFX do longa-metragem, se manifestavam, pois o R&S havia falido — 254 foram demitidos e vários não receberam a verba a que tinham direito. A falência foi causada por fluxo de caixa insuficiente para cobrir dívidas. Mais de 500 pessoas se reuniram no Oscar de 2013 para um protesto no tapete vermelho, o que foi objeto de intensa cobertura da imprensa.

A história da Marvel traz ecos da R&S porque o ateliê, diz Pavlo, foi prejudicado por uma lógica de concorrência agressiva em que executivos preferem ver o produto ter qualidade reduzida e as condições de trabalho sucateadas a perder oportunidades para empresas rivais.

Eles querem que as coisas sejam feitas o mais rápido e barato possível, o que faz o sistema colapsar, tamanha a pressão”, nota. “Os efeitos acabam não tendo a qualidade que deveriam. E a culpa não é dos artistas. Não há tempo e dinheiro o suficiente.

As produtoras de VFX, ele analisa, são administradas por pessoas que amam o que fazem em um ambiente de enorme pressão da concorrência e altos custos operacionais. “Não são más pessoas, só precisam dar continuidade ao trabalho. Há outras opções, é claro, como colocar os grandes estúdios para partilhar a grana, mas isso não vai acontecer”, ele ri.

No decorrer dos dez anos que separaram A Vida de Pi e as várias denúncias feitas este ano, o Marvel Studios e a Disney se tornaram ainda maiores e, portanto, clientes importantes, com poder o suficiente para pressionar os ateliês de quem encomendam trabalho.

A Netflix também abusa do poder que tem à mão, defende Pavlo, e não se trata de um problema restrito às produções imensas desses players. As exigências irrealistas também vêm dos responsáveis por séries de TV e filmes de menor escala.

Alguns programas têm cronogramas bem desenhados e os devidos recursos. São aqueles que não têm essas histórias horríveis de maus pagamentos e [síndrome de] burnout”, conta.

Desde que Pavlo começou a atuar no mercado, os efeitos visuais se tornaram importantíssimos no entretenimento. De lá para cá, graças à evolução tecnológica, os profissionais da área nunca tiveram softwares e equipamentos tão ágeis e eficientes — as ferramentas e os recursos modernos os tornaram excepcionalmente produtivos. Se no início da carreira de Pavlo um filme hollywoodiano podia ter entre 250 e 500 planos de câmera com efeitos, hoje são milhares.

Falamos de criaturas feitas só de CGI e ambientes criados no computador. Fazer essas coisas é como colocar o homem na lua. São necessárias muitas pessoas e trabalho árduo”, explica. “Mas ainda assim, [nossos clientes] não são realistas. Se somos tão produtivos, por que nunca precisamos trabalhar tão duro e por mais tempo quanto hoje? Trabalhamos seis dias, 80 ou 90 horas por semana, em filmes frequentemente medíocres. Poderíamos trabalhar só três vezes por semana pelo pagamento que recebemos, e tendo folgas remuneradas.

A rotina estressante de muitos desses profissionais, ele conta, tem lhes causado depressão, ansiedade e até mesmo derrames e ataques cardíacos. O desafio é convencer as pessoas a se sindicalizarem, pois atualmente não existe indústria do cinema e da TV sem efeitos visuais — os efeitos são grandes chamarizes de público e estão por toda parte. Pavlo diz ver esperança nos movimentos trabalhistas nos Estados Unidos, em que funcionários da Starbucks e de depósitos da Amazon, por exemplo, têm se unido em sindicatos para buscar melhores condições.

A Bectu dá o suporte caso a caso, dando conselhos legais e até mesmo representando os artistas, diz Pavlo, mas o que ele gostaria mesmo é de ver pelo menos 50% desses profissionais se filiando ao sindicato, o que tornaria possível usar “de verdade” os instrumentos legais necessários na defesa dos afiliados.

Nos EUA, enquanto os diretores têm o Sindicato dos Diretores da América (DGA), os roteiristas têm o Sindicato dos Roteiristas da América (WGA) e os atores dispõem do Sindicato dos Atores da América (SAG), a entidade equivalente para os artistas de VFX é, em tradução livre, a Aliança Internacional dos Empregados do Palco Teatral (IATSE).

Pavlo conta que a Bectu e a IATSE têm reuniões regulares para alinharem suas respectivas atuações, embora exista o desafio de os profissionais dos efeitos estarem espalhados por todo o globo — eles estão, por exemplo, no Canadá, na Índia e na Austrália, entre vários outros países, além dos EUA e do Reino Unido.

A causa disso são as constantes mudanças dos artistas para o lugar onde há trabalho disponível. Outro desafio é o fato de que cada país tem o seu conjunto autônomo de leis trabalhistas e de mercado, o que torna impossível a criação de uma entidade global que atenda a todos.

Muitos atores, diretores e produtores recebem participação nos lucros e propriedade intelectual, mas isso nunca acontece com os artistas de VFX, embora, frequentemente, o desenvolvimento de personagens adorados, ou um carro descolado, seja completamente criado por nós”, defende. “Se os negócios não fossem precários [para nós], haveria em troca melhores empregos, mais seguros, com salários e horas de trabalho melhores.

O produtor executivo do Marvel Studios, Kevin Feige, é conhecido por acompanhar de perto os efeitos dos filmes e séries da empresa. Em agosto deste ano, surgiram rumores de que o estúdio irá criar o próprio departamento de efeitos visuais, o que não foi confirmado oficialmente. A certeza é que suas demandas devem continuar crescentes ao logo dos próximos anos, com as chegadas das Fases 5 e 6, incluindo mais dois filmes dos Vingadores – Dinastia Kang e Guerras Secretas.  

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