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Por que Miracleman continua relevante até hoje | Artigo

As histórias escritas por Alan Moore - agora recolorizadas e relançadas - revolucionaram as HQs de super-heróis nos anos 1980

André Sollitto
27.01.2014
17h33
Atualizada em
29.06.2018
02h42
Atualizada em 29.06.2018 às 02h42

O relançamento de Miracleman pela Marvel Comics após uma longa batalha judicial (explicada em detalhes aqui) é o primeiro grande evento de quadrinhos nos EUA neste ano. Quem já ouviu falar das grandes histórias escritas por Alan Moore e, mais tarde, por Neil Gaiman, que revolucionaram entre os anos 1980 e 1990 o modo como as HQs de super-heróis eram feitas, sem dúvida está de olho na volta de Miracleman, agora em versão recolorizada.

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Antes, quem se aventurava pela Internet era capaz de encontrar, com dificuldade, páginas escaneadas das antigas edições. Com o relançamento, não só é possível ter Miracleman na prateleira como sua relevância volta a ser discutida: a HQ continua relevante ou é mais uma curiosidade histórica que ganhou fama por ter ficado tanto tempo fora de catálogo?

É possível ver a HQ das duas maneiras. A primeira leitura que se faz de Miracleman é a de curiosidade histórica. Quando começou a trabalhar com o personagem, Alan Moore era praticamente um desconhecido. Ele havia escrito diversas histórias para Future Shocks, a seção da famosa revista inglesa 2000 AD. Publicou algumas histórias de Doctor Who e trabalhava principalmente como freelancer, mas foi a partir de 1982, quando passou a colaborar com a revista Warrior, que Moore começou a ser visto como um grande autor de quadrinhos. Ele ficou responsável por três séries: a primeira era V de Vingança, criada ao lado do desenhista David Lloyd, que todo fã de quadrinhos conhece; a segunda série era The Bojeffries Saga, desenhada por Steve Parkhouse, que fazia uma sátira ao estilo de vida inglês, uma obra menos conhecida; a terceira era Miracleman, conhecida como Marvelman na época, desenhada por Garry Leach e Alan Davis.

Criado originalmente em 1954, o personagem era inspirado no Capitão Marvel, um jovem capaz de se transformar em super-herói dizendo uma palavra mágica. Quando Moore assumiu a série, ele tirou todos os elementos juvenis das aventuras e injetou uma dose de realidade. Os temas abordados nas revistas tinham a ver com o momento em que elas foram publicadas, como o medo de uma guerra nuclear, algo que seria levado às últimas consequências em Watchmen. Moore mostrou de que maneira poderes extraordinários poderiam afetar um ser humano psicologicamente e o impacto que um ser superpoderoso teria na vida cotidiana.

Além disso, a própria maneira como as histórias eram contadas sugeria uma sofisticação pouco comum nos quadrinhos de massa. Uso de flashbacks, diferentes pontos de vista e a própria linguagem empregada distanciaram Miracleman de todas as outras revistas de heróis da época. Essa abordagem acabou abrindo caminho para dezenas de outras obras que vieram depois e ajudou no movimento que começava a encarar os quadrinhos de heróis como um meio de arte.

Miracleman foi influente no começo dos anos 1980 e seu impacto pode ser percebido hoje, em todas as HQs consideradas adultas que as editoras americanas lançam semanalmente. Isso nos leva à segunda leitura que se faz das histórias de Alan Moore: Miracleman continua relevante até hoje, mesmo depois de 30 anos. O medo de uma guerra nuclear pode ter deixado de preocupar a humanidade, mas o impacto que a presença de um super-herói pode causar à humanidade nunca vai deixar de instigar.

Essa sensação de atualidade se deve também à maneira como Moore não hesitou em mostrar cenas bastante perturbadoras de violência. Hoje, HQs como The Boys e Kick-Ass abusam de cenas sangrentas quase como escapismo. A violência acabou banalizada. Em Miracleman, cenas de estupro, morte ou desmembramentos parecem horríveis, porque realmente são. Elas são retratadas como atos absurdos, capazes de chocar um ser humano, algo que se perdeu em muitas histórias de hoje.

A nova colorização das páginas, que causou revolta nos puristas quando foi anunciada, ajuda a dar essa sensação de novidade à obra. Ela é discreta e moderna. Originalmente, a HQ foi publicada em preto e branco, e apenas mais tarde foi colorida. Hoje, essas cores adicionadas na década de 1980 parecem datadas. Agora recoloridas, as páginas fazem jus à atualidade das HQs.

Por fim, Miracleman continua tão atual porque é uma excelente história. Uma boa trama não envelhece nunca, e é exatamente isso que Alan Moore apresenta. Com a publicação mensal das edições, isso fica ainda mais claro: com raras exceções, nenhuma outra revista de super-herói de hoje é tão interessante.

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