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Créditos da imagem: Marvel Studios/Divulgação

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Os Vingadores - 10 anos | Como o filme mudou o cinema (para melhor e para pior)

Ápice da popularização de produções inspiradas em gibis, longa marcou também o reinício da busca por universos cinematográficos interligados

Omelete
7 min de leitura
Nico Garófalo
26.04.2022, às 08H00

Lançado no Brasil em 26 de abril de 2012, Os Vingadores completa 10 anos em 2022. O longa, que reuniu pela primeira vez Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner e Mark Ruffalo, bateu US$1,5 bilhão na bilheteria mundial e transformou a forma como grandes franquias cinematográficas são tocadas em Hollywood. Um marco na indústria, o filme solidificou o MCU como uma potência cinematográfica e abriu as portas para que estúdios procurassem investir ainda mais em adaptações inspiradas em super-heróis dos quadrinhos.

É importante lembrar que, quando o MCU começou, em 2008, os principais personagens da Marvel não estavam sob o controle do Marvel Studios. Na época, os X-Men e o Quarteto Fantástico, as duas maiores equipes da Casa das Ideias, tinham seus direitos atrelados à Fox, enquanto o Homem-Aranha, historicamente o personagem que mais vendia gibis pelo selo, estava com a Sony. O sucesso do Homem de Ferro - bem como o de Downey Jr. como Tony Stark - incentivou a indústria a explorar personagens considerados secundários. Na Marvel, os exemplos são óbvios: além de filmes estrelados por Guardiões da Galáxia, Pantera Negra e Doutor Estranho, considerados personagens mais nichados dentro da editora, vimos também o surgimento de séries de Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro, que completaram o elenco de heróis adaptados pela Netflix ao lado do Demolidor e do Justiceiro.

A rival DC também se aproveitou dessa maior abertura do mercado e começou a planejar seu próprio universo compartilhado. Hoje, a Warner já lançou filmes do Esquadrão Suicida, das Aves de Rapina e do Shazam!, construindo um DCEU que, apesar de trazer um único universo compartilhado, permite que cineastas e atores brinquem com vários tons, histórias e públicos diferentes. Na TV, a Distinta Concorrência ainda disparou na frente da Marvel com a criação do Arrowverse na CW, com Arrow, The Flash, Supergirl, Legends of Tomorrow e mais formando um universo compartilhado cheio de crossovers anos antes de Kevin Feige sonhar em levar o MCU para o Disney+.

E se Marvel e DC tiveram suas bibliotecas exploradas por Disney e Warner, outras histórias igualmente ricas passaram a receber atenção de outros estúdios. De 2012 para cá vimos filmes como The Old Guard, Bloodshot, Dredd, Snowpiercer, Resgate e Kingsman, além de séries como Riverdale, I’m Not Okay With This, The Umbrella Academy, Happy!, Deadly Class e O Mundo Sombrio de Sabrina. Por mais populares que sejam alguns desses títulos e seus personagens - Riverdale e Mundo Sombrio de Sabrina contam com nomes extremamente famosos da Archie Comics -, dificilmente essas produções seriam aprovadas se a Disney não tivesse provado que os gibis têm mais a oferecer aos cinemas do que apenas o Batman e o Homem-Aranha.

A fome do público por histórias cada vez maiores de heróis diferentes também permitiu que os estúdios procurassem trazer personagens além do homem heterossxual branco às telonas. O primeiro grande passo nesse quesito, no entanto, não foi dado pela Marvel, mas pela DC, que tomou a decisão certeira de usar a Mulher-Maravilha e a Arlequina como dois de seus principais destaques nos cinemas,deixando claro de uma vez por todas o apelo comercial que a representatividade traz para produções cinematográficas. Se hoje esperamos por adaptações de Adão Negro, Ms. Marvel, Besouro Azul e Batgirl, é porque Os Vingadores sacramentaram o interesse da indústria nas histórias em quadrinhos, que então foi elevado a novos patamares com Mulher-Maravilha e, em certos aspectos, Esquadrão Suicida.

Nem tudo são flores

Mesmo com os inúmeros impactos positivos que Os Vingadores teve para os filmes de quadrinhos, é preciso lembrar que o longa também causou alguns problemas até o momento irreparáveis à forma como blockbusters têm sido planejados. O primeiro, por incrível que pareça, é econômico. A marca impressionante de US$1 bilhão ultrapassada pela produção se tornou, por alguma razão, o padrão esperado por fãs e estúdios, que veem na cifra um equivalente de sucesso e qualidade, com produtores mais preocupados em atingir o mesmo número nas bilheterias do que em entregar um filme coeso.

O reflexo dentro da própria Marvel é perceptível. Com cada vez mais poder criativo, Kevin Feige eternizou a agora famosa “Fórmula Marvel” e deu aos seus mais de 20 filmes histórias extremamente parecidas em tom, trama e personagens. Apesar de contar quase sempre com a certeza do sucesso, o presidente do Marvel Studios já podou criativamente alguns dos diretores que contratou, batendo de frente com cineastas e levando a demissões de nomes como Patty Jenkins, Edgar Wright e Scott Derrickson. Aliás, uma crítica recente que tem dominado as redes sociais é de que o MCU parou de produzir filmes isolados e tem se preocupado mais em preparar o terreno para histórias futuras do que em contar uma no presente, alienando muitos espectadores.

Na DC, a influência foi ainda pior: a pressa da Warner em montar um universo cinematográfico interligado levou à produção apressada de Liga da Justiça, que precisaria apresentar Flash (Ezra Miller), Ciborgue (Ray Fisher) e Aquaman (Jason Momoa) antes mesmo de eles terem filmes solo. Além disso, Zack Snyder, que comandou Homem de Aço e Batman v Superman e estava encarregado de dirigir o filme da Liga, viu seus planos de narrar um arco fechado e finito para o Clark Kent de Henry Cavill irem por água abaixo em uma das trocas de diretor mais polêmicas da história do cinema. Usando uma tragédia pessoal do cineasta como razão para seu afastamento, a Warner o substituiu por Joss Whedon - justamente o diretor de Os Vingadores -, que reescreveu Liga da Justiça e entregou um produto final feio, bagunçado e sem vida. A mesma coisa aconteceu um ano antes, com Esquadrão Suicida, cujo corte final em nada lembrava o filme que Margot Robbie, Will Smith, Jared Leto e David Ayer vinham vendendo na turnê de divulgação.

A obsessão por universos cinematográficos “vazou” para além dos filmes de quadrinhos, e outros estúdios ensaiaram formar franquias interligadas cada vez mais apressadas. A Sony tentou repetidamente emplacar filme baseados em personagens secundários do Homem-Aranha para expandir a franquia então estrelada por Andrew Garfield, a Paramount arriscou contar histórias de Transformers longe da série tocada por Michael Bay e até a Lucasfilm buscou levar Star Wars para um lugar diferente da Saga Skywalker. Quem saiu por baixo de verdade nesse feirão de universos compartilhados, no entanto, foi a Universal, cujo Dark Universe se esfarelou por completo após o fracasso de A Múmia.

Essa ganância dos estúdios, inclusive, “contaminou” os fãs, que passaram a acreditar que, a não ser que um filme quebre a marca do bilhão nas bilheterias, ele é um fracasso. Por causa de sua recepção divisiva na época que estreou, Batman v Superman é muitas vezes citado como uma decepção financeira, algo que não tem qualquer base na realidade, já que o longa de Snyder arrecadou US$872,7 milhões - valor maior que todos os filmes da Fase 1 do MCU. Da mesma forma, os US$708 milhões conquistados por O Espetacular Homem-Aranha: A Ameaça de Electro foram considerados baixos pela Sony, que decidiu recomeçar a história do Teioso com o apoio do Marvel Studios.

Olhando para o futuro

Para o bem e para o mal, o impacto que Os Vingadores teve na forma como vemos adaptações de quadrinhos veio para ficar. A sede por mais histórias vindas da nona arte possibilitou que títulos como Nimona, Paper Girls, Y: O Último Homem, Sandman, Lady Killer e até Chico Bento tivessem adaptações aprovadas por estúdios, que têm cada vez menos medo de levar histórias de personagens “desconhecidos” para o grande público.

Ao mesmo tempo, salas de cinema deixam de dar espaço a filmes com vozes diferentes, reservando suas cadeiras para grandes franquias aparentemente inacabáveis, que produzem sequências a toque de caixa em busca de um novo Vingadores.

Em 2012, Os Vingadores mudava o cinema de super-heróis e deixava um legado que ainda é sentido com muita força 10 anos depois. Agora, esperamos por um novo evento da mesma proporção que tire o público da zona de conforto em que estamos há uma década e traga uma novidade para uma indústria dominada pela Fórmula Marvel.

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