Poderosa Thor: Como a heroína ressignificou o título do Deus do Trovão

Créditos da imagem: Divulgação/Marvel Comics

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Poderosa Thor: Como a heroína ressignificou o título do Deus do Trovão

Quarto filme do Thor terá o retorno de Jane Foster, agora empunhando o Mjölnir nos cinemas

Gabriel Avila
24.07.2019
17h35

A Marvel Studios revelou novos detalhes a respeito do próximo filme do Thor durante a San Diego Comic-Con. O quarto longa se chamará Thor: Love and Thunder e terá o surpreendente retorno de Natalie Portman como Jane Foster, que assumirá o título do Deus do Trovão na produção. A transformação do antigo interesse amoroso em heroína já aconteceu nas HQs, em uma das mais celebradas fases do personagem na história do Universo Marvel.

Desde que assumiu os quadrinhos de Thor, um dos temas preferidos do roteirista Jason Aaron foi a discussão a respeito do que torna um deus digno. Essa reflexão evoluiu a ponto de finalmente tornar o Herdeiro de Asgard indigno na saga Pecado Original - também escrita por Aaron. Impedido de levantar Mjölnir, o Vingador Dourado deixa o martelo para trás, que por sua vez atrai a doutora Jane Foster. Considerada digna devido seu altruísmo e a dedicação em salvar vidas como médica, ela aceita o dever de empunhar o artefato acreditando que deve sempre haver um Deus do Trovão.

Essa história começou em 2014 e durou aproximadamente quatro anos. Nesse tempo, Aaron desenvolveu não só o lado heróico de Jane, que enfrentou vilões clássicos do núcleo Asgardiano, como como também o próprio Filho de Odin, que teve de aprender a lidar com as próprias motivações e crenças. Essa jornada já foi parcialmente percorrida no cinema no arco iniciado em Thor: Ragnarok, quando o herói perde o Mjölnir e é questionado pelo fantasma de Odin se é um “deus dos martelos ou dos trovões”. Tendo em vista os eventos de Vingadores: Ultimato, filme que também se inspira em uma história de Jason Aaron, é possível que o retorno de Jane ao MCU sirva também como mais uma etapa do amadurecimento dele, um dos últimos Vingadores originais restantes.

Entretanto, a apresentação de Foster como heroína foi mais que um recurso para auxiliar na evolução do Thor. No período em que empunhou o Mjölnir nas HQs, ela enfrentou gigantes de gelo, Malekith e até mesmo o próprio Loki em histórias cheias de ação que aprofundaram a mitologia asgardiana sob a ótica da Marvel. Desafiando as barreiras do status quo dos nove reinos, a fase foi sucesso de público e crítica a ponto do título Poderosa Thor passar a vender mais que Thor: Deus do Trovão.

Divulgação/Marvel Comics

A Thor de Jane tinha uma voz própria e devolveu ao título uma humanidade que o herói não abordava há tempos. Enquanto o Vingador Dourado era praticamente imbatível, a ponto de travar grandiosos combates sem muita consequência, ela tinha de lidar com os deveres divinos ao mesmo tempo em que sua contraparte humana tratava um câncer em metástase. Ao criar uma dinâmica que combinava tramas épicas com dificuldades terrenas, o enredo soube desenvolver sua protagonista, garantindo uma identidade que destoa de tudo o que foi feito com o personagem em quase 50 anos de existência.

… Mas uma Thor mulher?

A revelação de Jane como Thor causou certa estranheza por parte do público leitor mais “conservador” que insistia em negar a qualidade das histórias com o argumento de que preferia ler histórias sobre o “verdadeiro” Thor. Consciente dessas críticas, Jason Aaron por vezes abordou o assunto em suas histórias, criando momentos metalinguísticos em que deu voz à própria personagem para responder às críticas sofridas no mundo real. Em uma das primeiras edições, ela se vê em um embate com o Homem-Absorvente, vilão capaz de incorporar as propriedades físicas de qualquer material que toque, seja aço ou poderes de super-humanos. Na história, Aaron usou o personagem para canalizar os questionamentos do público, colocando-o para dizer frases como “vá buscar sua própria identidade” e até “que tipo de Thor você pensa que é?”. A resposta foi um imediato murro no queixo seguido por “do tipo que quebra seu maxilar”.

Divulgação/Marvel Comics

A discussão se repetiu de diversas formas - até mesmo Odin e seus seguidores a chamaram de “falsa Thor”. Todas as vezes, a heroína lidou com a situação como Jason Aaron lidou com haters: sem se justificar e apenas fazendo o seu melhor para honrar o legado que assumiu. Ao decidir trazer a personagem para o cinema, o diretor Taika Waititi certamente está consciente dessa polêmica, mas está ainda mais certo do potencial de uma personagem tão rica para um universo cinematográfico em plena reconstrução.