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Mudança nos poderes de Ms. Marvel desconsidera jornada crucial da personagem

Habilidades de mudar de forma de Kamala Khan está diretamente ligada ao seu crescimento pessoal

Omelete
4 min de leitura
Nico Garófalo
15.03.2022, às 14H02
ATUALIZADA EM 16.03.2022, ÀS 12H54
ATUALIZADA EM 16.03.2022, ÀS 12H54

Kamala Khan é, ao lado de Miles Morales, uma das personagens mais importantes que a Marvel Comics lançou nos últimos 20 anos. Criada por G. Willow Wilson (As Horas de Vigília), Adrian Alphona (Fugitivos) e pela editora Sana Amanat, a garota nasceu com o propósito de trazer histórias fora da bolha do super-herói branco padrão visto na maior parte dos gibis. Assumindo a identidade de Ms. Marvel depois de se descobrir uma inumana com capacidade de mudar as proporções e aparência do seu corpo, ela rapidamente se transformou em uma das personagens mais queridas da Casa das Ideias, integrando os Vingadores e, eventualmente, fundando os Campeões. Embora já tenha enfrentado cientistas malucos, alienígenas, super-vilões genocidas e até o governo norte-americano, a jornada mais importante da vida de Kamala se deu logo em suas primeiras páginas, quando ela aprendeu a se aceitar do jeito que é. Justamente por isso, o primeiro trailer completo da série que protagonizará no Disney+ me deixou com a pulga atrás da orelha.

Diferente do que acontece nas HQs, em que a Ms. Marvel usa seus poderes para aumentar e diminuir membros do corpo (e até seu corpo inteiro) de acordo com a necessidade, a nova série dará à personagem a habilidade de projeção energética, vinda não de seu DNA inumano, mas de um bracelete (pelo menos é o que indica a prévia). Essa mudança nas capacidades de Kamala desconsideram conceitos trazidos por Wilson, Amanat e Alphona, que idealizaram seus poderes “feios” como um paralelo ao processo de aceitação e autodescoberta pelo qual ela passa em seus primeiros arcos. Nessas edições, a jovem vai de subconscientemente alterar o corpo para se encaixar em um padrão de beleza - idealizado na forma de Carol Danvers, a Capitã Marvel - a aceitar seu próprio corpo, cor de pele e herança cultural como parte de sua persona heróica.

Quando começa a salvar os cidadãos de Jersey City, Kamala o faz emulando Carol, imitando a aparência que a personagem tinha em seus anos como Ms. Marvel, incluindo o hoje infame “super-maiô” que a heroína usou por anos. Em meio às suas primeiras aventuras, a nova Ms. Marvel percebe que tem se concentrado tanto em ser outra pessoa, que tem deixado criminosos escaparem e colocado pessoas inocentes em perigo. Essa descoberta a leva a aceitar que precisa ser uma heroína por si só e não tentar se encaixar no que o público vê como uma “heroína ideal”.

Substituir essas habilidades originais por poderes esteticamente mais palatáveis para o público geral tira de Kamala a decisão de, podendo ser qualquer pessoa no mundo, optar por ser ela mesma, assim diminuindo o impacto que o trio de criadores deu à sua origem. A escolha da Ms. Marvel de se mostrar como realmente é para o mundo é parte crucial de sua construção e essa mudança arrisca transformar uma personagem única em uma heroína genérica, cujo significado de seus poderes - e como eles são usados - é preterido por uma trama clichê centrada em aparatos alienígenas superpoderosos.

Mudar os poderes da Ms. Marvel é equivalente a permitir que o Batman mate seus oponentes em uma adaptação: mesmo que acertem em outras características do personagem, há uma mudança crucial na base de quem ele é e o símbolo que representa. Por mais empolgante que seja ver Kamala finalmente chegar ao MCU (e por mais que eu torça sem vergonha alguma pelo sucesso da série), essa alteração deixa meu lado fã em alerta, com uma desconfiança que só será aplacada lá em junho.

A luz no fim do túnel

Apesar de todo esse pé atrás em relação aos poderes da Ms. Marvel, a prévia da nova série me deu um pequeno fio de esperança em relação à caracterização da personagem e do mundo que a cerca. A atmosfera de comédia adolescente e conto de amadurecimento que permeia os quadrinhos desde o comando de Wilson está mais do que presente no trailer e, se tudo der certo, na série, que deve utilizar a relação de Kamala com seus amigos e familiares como base para sua tão importante trama de autoaceitação.

Além disso, o carisma tão apaixonante da personagem está vivíssimo na atuação de Iman Vellani, que, em menos de dois minutos de vídeo, deu vida a Kamala de forma muito animadora. Senti na jovem atriz toda a energia e empolgação que transformaram a Ms. Marvel em uma das minhas personagens favoritas dos quadrinhos, e a prévia também soube apresentar o mundo da personagem. Esse tom irreverente beirando a sitcom foi um dos fatores que me conquistou lá em 2014, quando as primeiras edições de Ms. Marvel foram publicadas, e o que me mantém firme na espera pela chegada do programa ao Disney+.

Embora nunca tenha me considerado um purista quando o assunto é levar um gibi que adoro para as telas, admito que não consigo, por enquanto, relevar a decisão do Marvel Studios de mudar as habilidades de Kamala em Ms. Marvel. Mesmo assim, o trailer da série traz elementos positivos o suficiente para ver o copo meio cheio, pelo menos, até sua estreia, em 8 de junho.

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