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Mangás e Animes
Crítica

O Ghost in the Shell original é ainda melhor do que você se lembra

Obra-prima de Mamoru Oshii continua sendo um dos filmes mais fascinantes já feitos

Omelete
3 min de leitura
05.07.2026, às 07H00.
Cena de Ghost in the Shell (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de Ghost in the Shell (Reprodução)

A única vez na minha vida de cinéfilo que um filme me fez apertar play novamente assim que os créditos subiram foi quando vi Ghost in the Shell pela primeira vez. O longa japonês de 1995, dirigido por Mamoru Oshii e baseado no mangá de Masamune Shirow, é um espanto – na sua primeira sessão, você simplesmente não espera que ele seja tão denso, tão enigmático, tão preenchido por ideias subversivas de futuro e profundas subjetividades humanas, quanto ele se mostra. A segunda é, ou pelo menos para mim foi, essencial.

Há, é claro, uma dimensão puramente estética na qual Ghost in the Shell já demonstra a integridade de sua expressão artística, e que se provou imensamente influente nos últimos 30 anos de cinematografia de ficção científica global. O diretor Oshii, que em 1995 já era nome consagrado da indústria anime (o seu outro grande clássico, Angel’s Egg, saiu dez anos antes), cria para a história da Major Kusanagi um mundo cruelmente cinza, que traduz a estética noir de luz e sombras para a ambientação futurística através do caminho oposto de Blade Runner, então a maior referência do subgênero.

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Onde o longa de Ridley Scott era uma overdose de informação – luzes neon e edifícios gigantes realizados em detalhes barrocos, o cheiro de podridão, decadência e abandono levantando pelas fumaças industriais no meio da rua – Ghost in the Shell economiza. Seu universo é esvaziado, governado pela frieza dos fatos físicos das pessoas-robôs que por ele andam. O bege pastel do concreto, a água parada do porto refletindo os embates calculados que se desenrolam sobre ela em um ritmo fantasmagórico. 

É claro que este ainda é um futuro superpopulado, mas Ghost in the Shell muito propositalmente mantém os arranha-céus amontoados no horizonte, os blocos residenciais colossais se estendendo ad infinitum ao longe enquanto os personagens passeiam pela aridez dos ambientes onde o seu mistério se desenrola. Sozinhos, no frame e na narrativa.

E é justamente por conta desse isolamento que o filme adquire um aspecto meio moroso, indutivo a um diálogo de vocação quase teatral que mergulha em temas de identidade muito pouco explorados em narrativas tão populares quanto essa. Ghost in the Shell é sobre indivíduos entendendo seus corpos e suas almas como parte do mundo, sobre como o mundo interfere e transforma esses indivíduos em ambas as dimensões, sobre a desconexão que existe entre um ser vivo ansioso por se entregar a todas as emoções que podem vir em sua direção, e um mundo ansioso por neutralizar todas elas.

É um filme, enfim, que reflete o que há de mais urgente e mais angustiante no caminho da humanidade na direção do futuro. Mesmo sem incluir subtramas explicitamente políticas, ou personagens explicitamente desta ou daquela denominação, Ghost in the Shell ainda se posiciona no coração da questão que define a contemporaneidade, e que provoca divisões partidário-filosóficas ao redor do mundo: quem somos nós agora, pelo que sofremos, e o que está nos fazendo sofrer? 

O filme, é claro, luta com essa pergunta sem saber exatamente de que forma respondê-la – mas sabe também que não precisa de respostas. O que Oshii entendeu de fundamental, ao adaptar o mangá original, é que seu poder de fascinação está nas convulsões que ele retrata, especialmente por acontecerem por cima de um cenário tão incomodamente plácido. Como as nossas, as angústias da Major não movem o mundo, que segue implacavelmente, serenamente na direção do progresso, sem ao menos se perguntar se realmente o queremos.

Nota do Crítico

Excelente!

Ghost in the Shell

Duração: 83 min
Direção: Mamoru Oshii
Roteiro: Kazunori Itô
Elenco: Kôichi Yamadera, Iemasa Kayumi, Atsuko Tanaka, Akio Ôtsuka
Onde assistir:

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