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Mad Men | Exposição em Nova York resgata a nostalgia dos anos 60 e da série

Visitamos a exposição dedicada a uma das maiores produções da história da TV

Elizeu Chaves Jr.
12.06.2015
00h07
Atualizada em
29.06.2018
02h42
Atualizada em 29.06.2018 às 02h42

Nova York, sinônimo de cosmopolitismo, está longe de ser a cidade decadente que começa a emergir nas últimas temporadas de Mad Men. A Big Apple é, ao mesmo tempo, pano de fundo, personagem da trama e representação da própria sociedade de consumo. Passados os anos nebulosos pós-Mad Men, a cidade se reergueu como um pólo de arte e cultura que vai muito além da opulência do Metropolitan (o maior museu do Ocidente de acordo com a National Geographic). 

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E é justamente em mais um dos tantos museus fora do “mainstream”, no Museum of the Moving Image que Mad Men é homenageada até o dia 14 de junho, por meio de uma exposição que coincide com o final da série.

Logo na entrada, os segredos de Don Draper (Jon Hamm) e de sua carismática e ao mesmo tempo reprovável persona que carrega parte das angústias e contradições do homem moderno são, em parte, desvendados nas anotações de Mathew Weiner, criador da série. Algumas delas evidenciam que Mad Men foi idealizada muitos anos antes de sua estreia. Aos poucos, se percebe nas várias notas originais e rascunhos como a elaboração dos protagonistas e da trama foram intrincadas, tanto a partir de insights do autor como de sistemático processo de roteirização. Uma remontagem da sala em que o grupo de co-roteiristas se encontrava para dar vida aos personagens chama a atenção por recriar com riqueza de detalhes a complexidade do trabalho de redação, o qual não deixava o menor espaço para amadorismo ou voluntarismo.

É possível e interessante assistir a vídeos de outros filmes e seriados de TV que inspiraram Mad Men, mas sãos as acertadas coletâneas de momentos-chave da própria série que mais atraem, pois resgatam a nostalgia e preparam o público para os itens que vêm a seguir.

O figurino, uma das tantas razões para a consagração da série, é apresentado por meio de cada um dos personagens centrais, acompanhados por vídeos com momentos simbólicos das sete temporadas. Parece óbvio, mas o modo de vestir não tem uma função meramente estética; tudo funciona como uma expressão da trajetória da psique dos personagens. Não é à toa que os ternos alinhadíssimos de Don Draper estão sempre impecáveis, iguais à série. Até os blazers usados para “ficar em casa” e que também expressam um modo de vida, permanecem praticamente inalterados nas sete temporadas, ao passo que a exposição mostra a progressiva transformação dos figurinos dos demais personagens, prenunciando modismos e as transformações dos anos 70 e, sobretudo, pautando mudanças de foro íntimo.

Estão expostos alguns dos vestidos não exatamente longos de Megan (Jessica Parré), inclusive aquele de uma das cenas mais famosas e constrangedoras da série, a qual o visitante também pode reviver na Exposição. O vestido e o vídeo ajudam a relembrar o momento na 5ª temporada em que entra em choque o mundo reservado e intimista de um personagem com a desinibição e até mesmo “emplumação” de sua contraparte, e que seria o prenúncio de uma lenta, mas irreversível degeneração. 

Também estão lá as roupas de Peggy (Elisabeth Moss), desde as mais simplórias da primeira temporada, que mais se assemelham a uniformes, até os elegantes e coloridos vestidos que passam a incorporar o guarda-roupa da personagem conforme ela começa a romper as barreiras impostas por um mundo machista e a despontar como uma profissional mais capaz que seus pares masculinos. Os figurinos sensuais, mas jamais vulgares de Joan (Christina Hendricks), servem para pontuar uma personagem que, a princípio, parece ter um objetivo tradicional, mas que, ao longo do caminho, descobre e busca sem facilidades as reais motivações de sua jornada.

Os figurinos de Pete (Vincent Kartheiser) talvez espelhem um dos mais evidentes casos de mudança de personagem durante a série, que começa como um “coxinha” pretensioso e irritante e galga espaços econômicos e sociais. Nos manequins da última temporada é irônico notar como o personagem acaba se assemelhando ao jeito de vestir de Roger Sterling (John Slattery), seu constante contraponto.

A exposição faz lembrar a precisão da série ao retratar o contexto social que permitia um impensável e amoral tratamento dado às mulheres em casa, o qual se estendia à empresa, uma ramificação da anacrônica estrutura familiar dos anos 60. Por mais que o machismo ainda exista e a inequidade de gênero seja um fator presente em quase todas as sociedades, hoje dificilmente um executivo passaria ileso por tratar uma empresária ou funcionária da mesma maneira que Roger Sterling e outros executivos fazem ao longo de Mad Men.

Os trajes de Betty Draper (January Jones) e Sally (Kiernan Shipka) progressivamente se assemelham na medida em que a menina começa a crescer e emula, mesmo sem querer, o modo de vestir da mãe. O figurino aí também serve para exemplificar como a série trata temas complexos, como a trans-geracionalidade de inquietudes, amarguras e neuroses. Sem estragar surpresas, até por que não é essa a tônica da série, a fragilidade do homem moderno e sua relação com a filha é um dos pontos altos de Mad Men, que o visitante também tem a chance de relembrar na exposição.

A recriação dos ambientes é espetacular. Além da mobília minunciosamente recriada da cozinha da família Draper, que serve como ponto inevitável de encontro e também de desencontro e desilusão familiar, destacam-se os detalhes dos itens de consumo dos anos 60 como cereais, alimentos enlatados, ketchup, utensílios de cozinha e, principalmente, a mesa em que Betty encara suas frustrações e cristaliza, aos poucos, sua amargura.

O ponto alto e que valeria por si só o ingresso é a reconstrução do escritório de Don Draper (a partir da quarta temporada). A exposição apresenta com detalhes o locus de ação do maior produto da Sterling Cooper (e de suas posteriores encarnações) e onde se passam desventuras com mulheres, clientes e os momentos de camaradagem com seu provavelmente único amigo de verdade, Sterling (John Slattery).

Destaque para o carrinho de bebidas e o cinzeiro que lembram uma das emblemáticas idiossincrasias de um tempo, retratadas de maneira por vezes incômoda na tela. Aliás, involuntariamente ou não, na mesa do executivo se manifesta mais uma das tantas sacadas da série – a ausência do, nos dias de hoje indispensável, computador se contrapõe com o desregrado e livre de amarras (para o bem e para o mal) espírito de criação. Os dois não poderiam ocupar o mesmo espaço, a modernidade, suas máquinas e métodos quali-quantitativos suprimiriam a genialidade de Dons Draprers da vida. E essa disputa entre o genial e o controlado, entre o clássico e o moderno, estão no centro de Mad Men.

Os visitantes são ainda premiados com outra das tantas razões do sucesso da série, os elementos das campanhas publicitárias: cartazes, notas de produção e peças de design de propaganda, muitas inspiradas em campanhas reais. O mais interessante é que entre a observação do material promocional fictício e dos itens sobre o protagonista da série, é possível relembrar o grande paradoxo entre a trajetória de Don, suas várias camadas e imagem de homem idealizado e o que ele faz como meio de vida. Nada mais oportuno, que poder ver rascunhos das campanhas, itens que refletem Don e seus slogans acertados, principalmente o da Jaguar que representa um ponto de inflexão do núcleo central da produção.

A exposição finaliza de maneira análoga à própria série, com a sensação de que terminou quando tinha que terminar e, ao mesmo tempo, com um gosto amargo de que se queria ver mais. É difícil para o visitante (e para o fã de Mad Men) sair desse universo complexo e sedutor que apresenta, sem ter necessariamente a ambição de estabelecer uma teoria, um retrato tão articulado de como o mundo interior dos personagens está intrinsicamente relacionado com a teia social - que eles fortemente influenciam - e da qual também são produtos.

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Para quem não tiver a chance de ver a exposição, mas tiver vontade de seguir as pegadas de Don Draper e seus sócios, existem verdadeiros tours em NY, com visita a locais que recriam o universo da série, como o oferecido pelo www.madmentour.com. No entanto, o que mostra a força da série é a disponibilidade de um roteiro no site oficial da cidade para turistas - clique aqui para ver.

Ate o final do verão (Agosto), uma escultura de Don Draper no sofá e com seu inseparável cigarro está disponível em frente ao prédio da Time-Life (1271 Avenue of the Americas) onde a sede da SC (a partir da 4ª temporada) e suas encarnações “estiveram”.

Na cosmopolita NY pós-Mad Men, com mais 25 mil restaurantes, encontram-se vários lugares que Don poderia frequentar sozinho ou com Sterling e seus clientes. Segue abaixo uma breve seleção de restaurantes que já visitei com ambientação de Mad Men:

  • Club 21: Um clássico da cidade, presente em Midtown e com a mesma aura da série. Jackets required...
  • The Lion: Um tesouro escondido no Village, aconchegante, uma viagem no tempo e com comida e serviços impecáveis. Bela opção de drinks, inclusive, o preferido de Draper, “old fashioned”.
  • Tea Russian Tea Room: Um dos vários restaurantes mencionados na série que ainda existe. A decoração e a extravagância do lugar chegam a ser kitsch. Se precisar ir ao toalete, tome cuidado, pois a vendedora da loja que está no subsolo costuma cumprimentar os clientes antes que esses se deem conta de sua presença (o que garante alguns sustos!). 
  • Café Luxembourg: Localizado no Upper West Side, é o típico lugar que Don e Sterling poderiam levar clientes para um jantar decisivo. Bela opção de drinks, inclusive.
  • Palm: Um dos preferidos dos executivos e clientes da SC, o restaurante sobrevive há décadas em Midtown (e em outras áreas da cidade) com pratos que lembram a comida caseira brasileira.