Te Vejo no Trabalho! se sustenta em visão realista da vivência corporativa
K-drama do Prime Video não tenta pintar a rotina trabalhista pelo que não é
Créditos da imagem: Park Ji-hyun e Seo In-guk em Te Vejo no Trabalho! (Reprodução)
Cha Ji-yoon (Park Ji-hyun) é ótima no seu trabalho. Cha Ji-yoon também odeia o seu trabalho. E a melhor virtude do k-drama que ela protagoniza, lançado no Brasil como Te Vejo no Trabalho! pelo Prime Video, é entender que essas duas coisas não estão em contradição uma com a outra.
A cena de abertura da série mostra a moça indo para o escritório e enfrentando todo um leque de aborrecimentos tipicamente CLT: chuva, inconstância de horários do transporte público e um esquisitão no metrô. É quando uma figura misteriosa de guarda-chuva aparece em suas fantasias para pegar sua mão e ajudá-la a voar por cima dos arranha-céus gelados do centro empresarial de Seul. Uma alusão à sinopse de Te Vejo no Trabalho!, que já indicava que a entrada de Kang Si-woo (Seo In-guk) na empresa da protagonista ia operar uma transformação para ela.
A melhor surpresa do roteiro, assinado por Kim Gyeong-min (Nascidos de Novo), é que essa relação entre os dois personagens não se traduz em um antídoto mágico para os males do capitalismo tardio. A desilusão de Cha com o dia-a-dia da empresa – onde é fardada com mais demandas do que consegue cumprir, tem suas ideias roubadas pelos chefes e seu tempo muito pouco valorizado – não some quando Kang entra em cena. De fato, a conexão entre ambos parece se basear, em parte, nas barreiras que criaram para conseguir sobreviver dentro dessa rotina.
Cha é conhecida como a “Fada do Ponto” pelos colegas, graças à sua dedicação irrestrita ao horário, deixando sua mesa assim que o expediente acaba ao invés de se dobrar à cultura corporativa de ficar mais tarde para terminar suas demandas. É uma atitude que reflete a realidade, e por isso torna muito mais fácil torcer pela personagem: só quem tem trabalho demais entende que, em certo ponto, a coisa mais saudável a fazer é deixar para amanhã o que não se consegue fazer hoje.
Já Kang assume uma persona carrancuda e impessoal sempre que está no escritório. Tanto que, nos primeiro minutos de Seo In-guk em tela, o fã do ator pode se perguntar se o rapaz emagreceu demais ou – pior! – está começando a “enfeiar” perto dos 40 anos, tamanha é a cara-de-quem-comeu-e-não-gostou que ele assume para viver o personagem. Corta para a primeira vez que Cha encontra o seu superior fora do escritório, e pronto: Te Vejo no Trabalho! revela que Kang é só um cara normal, que lida com os outros de maneira normal… ele até tem amigos, poxa vida.
Ao mesmo tempo em que apresenta essas estratégias de sobrevivência, o k-drama vai revelando do que cada um de seus personagens abre mão para executá-las. Como Cha Ji-yoon, Park Ji-hyun entra em tela como um raio de Sol sufocado, uma presença carismática que não se permite conexões dentro do escritório porque sabe que elas vão inflar em estresse, e entrar em conflito com a cultura de “cada um por si” da empresa. Como Kang Si-woo, Seo In-guk deixa escapar sorrisinhos mínimos e olhares interessados para indicar que existe algo de humano por baixo da barreira impenetrável do personagem.
São, enfim, duas pessoas que se podam e se limitam porque o ambiente corporativo as condicionou a se podar e se limitar. Te Vejo no Trabalho! ganha muitos pontos, como romance de escritório, porque nos apresenta a parte romântica da história sem precisar… bom, romantizar o escritório. Quando esses dois se encontram, o espectador intui que a compreensão entre eles é imediata, e baseada em uma realidade muito fácil de aceitar, o que é sempre um bom sinal quando se trata de romance – qualquer coisa que vier depois disso é lucro.
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