Spring Fever assume a bobeira e aposta tudo no carisma dos protagonistas
Mais comédia do que romance, k-drama é sustentado por Ahn Bo-hyun e Lee Joo-bin
Créditos da imagem: Cena de Spring Fever (Reprodução)
O primeiro episódio de Spring Fever é fascinado pela tatuagem extravagante que adorna os braços musculosos do seu protagonista, Jae-gyu (Ahn Bo-hyun): um dragão colorido cujos olhos, para representar a personalidade esquentadinha do personagem, por vez brilham para a câmera. Acontece que o cara, na verdade, não tem tatuagem nenhuma – em uma cena que divide com Yoon Bom (Lee Joo-bin), professora do seu sobrinho na escola e seu interesse romântico na série, Jae-gyu revela que o dragão é na verdade a “manga falsa” de uma camiseta que ganhou de brinde no seu ponto de gasolina favorito.
Esse é o tipo de bobeira à qual Spring Fever se mostra singularmente comprometida durante todo o capítulo. A ideia não é difícil de captar: Jae-gyu, apesar de ser por vezes (digamos) ousado demais para os costumes conservadores do interior da Coreia do Sul, é um cara de bom coração, prestativo, gentil, dedicado à família e largamente mal compreendido. A ideia é zombar dos sistemas burocráticos que equalizam todas essas qualidades a defeitos, e a comédia está nos extremos aos quais o roteiro de Kim Ah-jung (The Secret Life of My Secretary) recorre para construir esse contraste.
Durante o primeiro episódio, pelo menos, a brincadeira funciona – ainda que não por qualquer sofisticação do roteiro. A chave, ao invés disso, está na direção de Park Won-gook e no carisma da dupla de protagonistas... e, por sorte, todos os três profissionais se mostram bem afinados já de partida.
Atrás das câmeras, Park carrega uma atenção ao detalhe que também marcou sua passagem por A Esposa do Meu Marido. Diante do desafio de dirigir um novelão (desta vez, mais leve, mas ainda um novelão), ele escolhe voltar a câmera para os paralelos que pode construir entre os personagens – se Jae-gyu é filmado subindo as escadas da escola com passos pesados, seu tênis esportivo resistente em foco, logo cortamos para um close nos sapatos envernizados do advogado Yi-joon (Cha Seo-won), estabelecendo imediatamente a oposição entre os personagens. São escolhas que reforçam uma dramaturgia que, se formos ser inteiramente sinceros, precisa mesmo desse reforço.
Daí também que a leveza de Lee Joo-bin vem a calhar. Como aconteceu em Seguro Para Divorciados, ela é uma presença envolvente e elástica em Spring Fever – nunca sentimos que ela está se esforçando para alcançar certos tons, ou detectamos qualquer constrangimento que denuncie a artificialidade da comédia da série. Como em Seguro Para Divorciados, também, ela é colocada à sombra de um protagonista masculino maior-que-a-vida, encarnado por Ahn Bo-hyun com toda a fanfarrocine e confiança estética que lhe cabe como galã estabelecido do gênero.
A dinâmica não é nova, enfim, mas entretém. Se há mais carne nesse osso, só o passar dos episódios poderá nos dizer.