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Entrevista

Guerreiras do K-Pop | Tigre da animação é tema de exposição em SP; saiba tudo

Omelete fala com especialistas sobre a arte sul-coreana tradicional que inspirou o personagem

Omelete
5 min de leitura
12.03.2026, às 13H44.
Obras da exposição Rota da Minhwa e, no centro, o tigre Derpy, de Guerreiras do K-Pop (Reprodução)

Créditos da imagem: Obras da exposição Rota da Minhwa e, no centro, o tigre Derpy, de Guerreiras do K-Pop (Reprodução)

O Derpy, tigre mensageiro de Guerreiras do K-Pop, se tornou inesperadamente um dos destaques do fenômeno da Netflix. Pudera: simpático, colorido e completamente abraçável, a criatura é perfeita para virar bicho de pelúcia – mas você sabia que o Derpy foi inspirado na minhwa, uma das modalidades de arte mais tradicionais da Coreia do Sul?

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Agora, uma exposição em São Paulo (SP) mergulha nessa técnica para desvendar as origens do Derpy, e muito mais. Intitulada Rota da Minhwa: dois espaços, uma experiência, a exibição organizada pelo Centro Cultural Coreano no Brasil e o Shopping Center 3, com correalização da revista especializada Monthly Minhwa, reúne mais de 100 trabalhos que destrincham a influência do estilo na cultura sul-coreana.

Entre as obras, muitas retratam o tigre como figura central – representando, frequentemente, um mensageiro de boas notícias. Rota da Minhwa acontece em dois endereços: Avenida Paulista, 460 (Centro Cultural Coreano no Brasil) e Avenida Paulista, 2064 (Shopping Center 3), entre 8 de março e 26 de abril, com entrada gratuita em ambos os espaços.

A seguir, confira a entrevista do Omelete com dois especialistas no assunto: Yoo Jung-seo, editor e publisher da revista Monthly Minhwa, Doutor em História da Arte, e Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Kyung Hee; e Cheul Hong-kim, diretor do Centro Cultural Coreano no Brasil.

Pega-Rabuda e Tigre, do artista Oh Jin-sil (Divulgação)
Pega-Rabuda e Tigre, do artista Oh Jin-sil (Divulgação)

OMELETE: Derpy, o tigre de Guerreiras do K-Pop, traz fofura e alívio cômico para o filme - mas também carrega uma representatividade importante para a arte e cultura sul-coreana. Você pode explicar como isso acontece, e quais referências visuais formam o personagem?

YOO JONG-SEO: Embora o tigre seja geralmente conhecido como um animal feroz e ameaçador, nas narrativas populares coreanas, como lendas e contos tradicionais, ele aparece muitas vezes com um caráter completamente diferente. Em vez de assustador, surge como uma figura ingênua, um pouco tola ou até mesmo próxima e amigável aos seres humanos.

Um exemplo visual representativo dessa imagem é a pintura popular minhwa chamada Pega-Rabuda e Tigre (까치 호랑이) [veja acima]. O personagem Derpy, de Guerreiras do K-Pop, tem sua origem justamente nessa tradição visual.

Derpy não é feroz nem assustador; pelo contrário, é um tigre amigável que ajuda as pessoas e mantém uma relação próxima com elas. Além disso, seu papel fundamental é o de mensageiro, que traz boas notícias. Essa função corresponde à composição pictórica da minhwa Pega-Rabuda e Tigre, que serviu de modelo para o personagem.

Nessa pintura, três elementos principais aparecem: a pega-rabuda, o tigre e o pinheiro. A pega simboliza “boas notícias”, o tigre representa o “mensageiro” que transmite essas boas notícias, e o pinheiro simboliza o Ano Novo. O tigre Derpy e o pássaro pega-presentes, em Guerreiras do K-Pop, têm origem nessa iconografia. Visualmente, esse tipo de personagem naturalmente assume uma aparência gentil, dócil e levemente ingênua. Derpy expressa com fidelidade a essência do tigre presente nesta minhwa.

Obra da exposição Rota da Minhwa (Divulgação)
Obra da exposição Rota da Minhwa (Divulgação)

OMELETE: O tigre foi, e é, um elemento recorrente na minhwa e em outras artes coreanas. Qual é o papel desse animal no dia a dia e na simbologia da Coreia do Sul, tanto na época de Joseon quanto atualmente?

YOO JONG-SEO: Na cultura coreana, o tigre aparece como um personagem de uma profunda dualidade. Por um lado, é visto como um ser feroz, corajoso e extremamente poderoso. Justamente por essa força e bravura, ele ultrapassa a dimensão de simples animal e é elevado a uma entidade quase divina, capaz de expulsar ou devorar espíritos malignos. Esse tipo de tigre costuma aparecer em contextos de caráter ritualístico ou simbólico, como em túmulos antigos, entradas de residências ou em pinturas de espíritos da montanha.

Por outro lado, existe uma representação oposta: a do tigre amigável, que ajuda as pessoas e, por vezes, assume até uma imagem um tanto ingênua. Essa é a versão predominante nas pinturas minhwa. Nesse caso, o tigre não é retratado mostrando presas ou com uma atitude agressiva; ao contrário, apresenta uma expressão dócil e até um pouco desajeitada.

Assim, na cultura coreana, o tigre construiu ao longo do tempo uma imagem ambivalente, coexistindo como figura poderosa e protetora, mas também como personagem próximo e humano, mantendo uma relação simbólica muito estreita com o povo coreano. 

OMELETE:  A minhwa é um tipo de arte popular, frequentemente realizada por artistas anônimos ou pessoas comuns. De que maneira essa acessibilidade molda e transforma a cultura e a arte sul-coreana? E que tipos de personagens/expressões nascem desse coletivo popular?  

YOO JONG-SEO: A minhwa foi uma forma de arte amplamente apreciada por todas as camadas sociais, especialmente entre o povo comum, desde o final da dinastia Joseon até o início da modernidade [séculos XIX e início do XX]. Mais do que simples obras para contemplação estética, essas pinturas eram também elementos decorativos do espaço de vida dos coreanos e possuíam finalidades práticas e simbólicas.

Sua característica mais importante era expressar desejos e aspirações por acontecimentos positivos na vida real. Temas como longevidade, prosperidade, ascensão social e fertilidade eram frequentemente representados, refletindo os anseios da sociedade tradicional.

Como o significado simbólico era mais importante do que a técnica formal, a habilidade artística não era o principal critério de valorização desta arte. Por isso, muitos autores de minhwa eram artistas anônimos ou amadores. Essa acessibilidade constitui uma das maiores forças da minhwa, uma característica que poucas formas de arte coreana possuem.

Obra da exposição Rota da Minhwa (Divulgação)
Obra da exposição Rota da Minhwa (Divulgação)

OMELETE: Você sente que o sucesso absoluto de Guerreiras do K-Pop, do ano passado para cá, ampliou o interesse na arte e cultura sul-coreana no Brasil? De que maneiras isso aconteceu, e como é possível incentivar um envolvimento ainda maior do público?

CHEUL HONG-KIM: Acredito que o sucesso de Guerreiras do K-Pop contribuiu positivamente para ampliar ainda mais o interesse pela cultura coreana no Brasil. Especialmente por ter como eixo o k-pop, a obra apresentou simultaneamente diversos elementos culturais coreanos, despertando interesse não apenas pela música, mas também por áreas como arte tradicional e gastronomia.

No Brasil, o interesse pela cultura coreana já é elevado por meio do k-pop e dos k-dramas. Com a expansão para o formato de animação, foi possível alcançar públicos de faixas etárias ainda mais diversas.

Para que esse interesse continue crescendo, considero fundamental criar oportunidades para que o público vivencie diretamente diferentes aspectos da cultura coreana por meio de programas culturais acessíveis. Exposições, workshops, apresentações e atividades interativas são exemplos eficazes para aproximar os cidadãos brasileiros da cultura coreana.

O Centro Cultural Coreano no Brasil, alinhado a esse propósito, segue planejando e realizando diversos programas culturais, buscando ampliar as oportunidades para que o público brasileiro possa vivenciar a cultura coreana de forma direta e significativa.

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