Doutor à Beira do Amor oferece deleites limitados em meio a crise de identidade
K-drama com Lee Jae-wook se enrola ao tentar abraçar gêneros demais
Créditos da imagem: Lee Jae-wook em Doutor à Beira do Amor (Reprodução)
Os fãs de Endurance Doctor, o webtoon no qual Doutor à Beira do Amor é baseado, juram que a produção distribuída no Brasil pelo Disney+ é uma adaptação bem fiel da obra – e de fato essa fidelidade tem sido um ponto de venda do k-drama, que chegou a recriar painéis específicos do webtoon para fisgar os leitores. Se não se trata de propaganda enganosa, talvez o grande calcanhar de Aquiles da série também seja herdado dos quadrinhos originais, assinados por Kim Tae-poong: a sua terminal incapacidade de se comprometer com um único gênero ou estrutura narrativa.
Doutor à Beira do Amor começa, veja só, como mais um drama romântico de cura, o subgênero favorito da TV sul-coreana nos últimos anos. Do Ji-ui (Lee Jae-wook, de Alquimia das Almas, em seu último k-drama antes do alistamento militar) é um médico que, à revelia de servir ao exército, é obrigado a passar um ano em uma ilhota afastada dos grandes centros metropolitanos sul-coreanos, atendendo à população carente do local. Ele encontra problemas, no entanto, desde o momento de entrar na balsa, recorrendo a remédios pesados quando a proximidade ao mar gera flashbacks de algum trauma de seu passado.
A sua contraparte romântica é Yook Ha-ri (Shin Ye-eun, de A Lição), que retorna à ilha para ficar mais perto da avó, e cuja personalidade efervescente se choca imediatamente com o soturno Do Ji-ui. Que os dois vão se ajudar, trabalhando traumas e balanceando seus temperamentos opostos, nós já sabemos – acontece que o roteiro de Doutor à Beira do Amor, assinado por Kim Ji-soo (Fitness na Academia e no Amor), não parece tão interessado nessa narrativa quando deveria estar, caso quisesse firmar os seus pés mais solidamente no gênero. Aqui, a história de amor divide espaço, e atenção, com pelo menos outras duas que pouco têm de românticas.
A primeira é uma comédia de local de trabalho, com sabor de historinha de peixe fora d’água, na qual Ji-ui precisa se adaptar à rotina do hospital da ilha. O local é menos fundado do que deveria, atende moradores com aquela típica atitude “tudo pode ser resolvido com uma aspirina” de cidadezinha pequena, e conta com uma equipe já entrosada, na qual o protagonista se encaixa muito pouco. Esses personagens, inclusive, são os destaques incontestáveis dos primeiros episódios – Kim Yon-woo está uma fofura como o jovem médico tradicional da clínica, Joo In-young e Lee Soo-kyung são uma dupla dinâmica como as enfermeiras do local, e por aí vai.
Essa é a dimensão melhor desenvolvida da série, e fica a impressão de que é também a favorita dos talentos por trás das câmeras. O texto parece mais engajado nesses personagens, os atores precisam carregar menos o peso de torná-los carismáticos com material morno, e o diretor Lee Myungwoo (The Fiery Priest) constrói um universo visualmente coeso para esta sitcom de escritório médico. As cores mudas, os materiais envelhecidos do cenário, o único restaurante familiar da ilha, os espaços comunais que a população usa… é um terreno vívido, verdadeiro, e fértil para a comédia.
Mas, é claro, Doutor à Beira do Amor também quer ser um drama hospitalar “sério”, com casos semanais no qual o seu doutor pode se apoiar para demonstrar a própria genialidade. Daí que a segunda metade do episódio de estreia adquire um teor dramático e urgente que simula uma Dr. House ou The Pitt, toda diagnósticos surpreendentes e transferências de última hora. O resultado é que, no mesmo episódio, o Dr. Ji-ui pega o seu colega tomando banho nu no banheiro do hospital (cena cômica sublinhada com ângulos enviesados para esconder a nudez do ator Hong Min-gi) e sobe em um helicóptero para acompanhar um paciente em pleno processo de infarto até a internação.
Não que as vidas de muitos médicos não sejam assim, mas na tela o contraste é desorientador. Doutor à Beira do Amor podia ser bom em qualquer uma das coisas que escolhe fazer, mas não consegue ser bom em todas – o que lhe sobra é oferecer alguns deleites limitados onde poderia haver uma grande série.
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