The King’s Warden dilui momentos fortes em dramaturgia vacilante
Fenômeno de bilheteria da Coreia tem grande história para contar, mas erra nas prioridades
Créditos da imagem: Park Ji-hoon em The King's Warden (Reprodução)
É fácil entender porque The King’s Warden se tornou o filme mais visto da história da Coreia do Sul, com mais de 17 milhões de ingressos vendidos nos cinemas do país. Ele não esconde os seus instintos populistas, e mina desavergonhadamente a história real em que se baseia por todos os seus momentos mais fortes. Da comédia provinciana que faz o espectador se afeiçoar aos personagens à introdução de temas que apelam a certa universalidade (o poder transformador da educação, o valor da simplicidade, e por aí vai), este é um filme feito sob medida para o mínimo denominador comum – e isso não é tão ruim quanto pode soar.
O diretor Jang Hang-jun (Rastros de um Sequestro), que também assina o roteiro ao lado de Hwang Seong-gu (Bogotá: A Cidade dos Sonhos Perdidos), assina uma obra sólida no sentido de construção de mundo e arcos narrativos. Tanto o rei deposto Danjong (Park Ji-hoon) quanto o chefe da aldeia que o recebe em exílio após sua deposição, Um Heung-do (Yoo Hai-jin), passam por trajetórias de revelação cristalinas: começando como caricaturas de dejeção e ganância, respectivamente, eles se descobrem guardiões honrados das posições de liderança que se confia a eles.
Ainda melhor, os dois atores centrais The King’s Warden se mostram bases sólidas para esse desenho paralelo. Por natureza, Park Ji-hoon tem menos a fazer do que seu companheiro de cena, mas ainda encontra espaço para um tocante retrato de fragilidade que vai aos poucos revelando humor e determinação insuspeitos. É Yoo Hai-jin, no entanto, o grande condutor dos tons do filme – sua fisicalidade e seu timing preciso carregam as melhores piadas da primeira metade, e o cuidado de sua virada dramática garante que a segunda não caia nos subtextos mais traiçoeiros que a trama pode oferecer.
O grande problema de The King’s Warden, de fato, não é seu populismo: é sua miopia. Muito preocupado com a tramoia política de sua inspiração histórica (difícil conter o bocejo durante as cenas com o grão-príncipe de Lee Jun-hyuk, que planeja uma rebelião para restaurar Danjong ao poder), ou com figuras coadjuvantes que pouco acrescentam dramaticamente falando, ele perde de vista justamente a relação espelhada central que é sua âncora mais forte. Aí vem o terceiro ato, onde devemos acreditar que Danjong e Heung-do construíram um vínculo inquebrável de lealdade… mas o filme pouco nos mostrou como esse vínculo nasceu.
E, uma vez que o espectador não acredita nessa conexão, a força dos acontecimentos climáticos de The King’s Warden se dilui em confusão. Há um valor de choque inegável no último ato de Heung-do, e em como o longa utiliza o personagem para ilustrar os fardos muitas vezes terríveis (violentos, até) da liderança, mas a tese central do filme teria infinitamente mais impacto se ele tivesse se concentrado nela por mais do que cinco minutinhos aqui e ali. E aí também seria muito mais fácil perdoar uma ou outra inaptidão básica que ele demonstrasse, em sua busca pelo agrado universal.
Como está, The King’s Warden é muito mais bem-sucedido como produto do que como filme. Uma pena, porque era perfeitamente possível acertar em ambos os sentidos.
*The King's Warden foi exibido no Korean Film Festival (KOFF), em São Paulo (SP) - confira a programação completa. Ainda não há previsão para a estreia do longa no circuito comercial brasileiro.
The King's Warden
왕과 사는 남자
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