O(s) Assassino(s) explora como poucos os espaços claustrofóbicos do fascismo
Novo suspense histórico mostra o grande Hur Jin-ho em pleno domínio do seu ofício
Créditos da imagem: Cena de O(s) Assassino(s) (Reprodução)
O(s) Assassino(s) sabe como explorar um cenário, deixá-lo gravado na cabeça do espectador como se a planta de cada prédio onde a ação se passa tivesse sido baixada diretamente no HD das nossas memórias. Essa é, acima de qualquer outra, a virtude que faz dele um grande filme – o que, por sua vez, mostra exatamente que tipo de filme ele é.
Minar espaços dessa forma, para criar tensão e drama, afinal, é o que faz um bom filme de terror. Nesse sentido, O(s) Assassino(s) não é tão diferente de Invocação do Mal ou Hereditário, por exemplo, dois longas que nos familiarizam com uma casa para mostrar espectros escondidos ao redor dela. Enquanto James Wan e Ari Aster se limitam a uma residência, no entanto, Hur Jin-ho (Uma Família Normal) faz isso com todo um país.
O ano é 1974, e a Coreia do Sul sofre os últimos anos da sanguinária ditadura militar comandada por Park Chung-hee. Durante um evento no Dia da Liberação (feriado celebrando o fim da ocupação japonesa do país, em 1945), Park é alvo de um atentado a tiros do qual escapa ileso – mas sua esposa, a primeira-dama Yuk Yong-soo, é atingida e não resiste aos ferimentos.
O(s) Assassino(s) acompanha o que acontece depois, quando um grupo de jornalistas (incluindo o editor Park Hae-il e o repórter Lee Min-ho) se alia a um policial desiludido (Yoo Hae-jin) e um oficial do time forense do governo (Park Ji-hwan) para decifrar as motivações e forças políticas por trás do ataque. Acontece que, por todo o caminho, eles enfrentam a resistência de um governo cheio de segredos, que quer manter controle absoluto da narrativa, e não economiza brutalidade para isso.
Logo de cara, vale dizer que O(s) Assassino(s) tem tensão e ação impecavelmente sincronizadas. Com a ajuda providencial do montador Kim Woo-hyun (Alerta de Emergência, Brave Citizen), o diretor Hur mostra aqui que sabe transformar até os textos menos enxutos – com 2h11 de duração, não dá para chamar este filme de “econômico” – em experiências de puro entretenimento. Equilibrado na ponta dos dedos entre a superprodução envernizada e o “filme de prestígio” caloroso, este é absolutamente um daqueles suspenses de se ver grudado na tela.
Mas há algo além do afã, também. O diretor de fotografia Lee Mo-gae (Exhuma, Operação Hunt) dá a deixa, abusando dos zooms detalhistas e lançando mão de tomadas exploratórias, dedicadas ao background de praticamente cada cena, para criar aquela sensação de que conhecemos esses espaços e entendemos como as coisas devem funcionar neles. O(s) Assassino(s) claramente quer nos mostrar alguma coisa, nos fazer sentir alguma coisa – e, como em todo bom filme de terror, é aos poucos que essa alguma coisa vai se revelando.
Eis aqui um filme que revela como o fascismo se infiltra nos espaços mais inesperados da vida cotidiana, e suga o ar deles até que eles se tornam ou lugares de segredo e resistência, ou de sofrimento e silêncio. De uma forma ou de outra, quando ele termina o seu trabalho, o que deveria ser simples se torna complicado, o que deveria ser natural se torna sinistro, e o que deveria ser lógico se torna violento. É um mundo dominado pelo medo, este que O(s) Assassino(s) nos apresenta, e ele quer que sintamos medo dele.
Feito com a eloquência de quem conhece sua arte e quer usá-la para dizer algo, este é um filme que se mostra muito mais urgente do que pode parecer.
*O(s) Assassino(s) foi exibido no Festival do Rio. Ainda não há data de estreia confirmada no circuito comercial brasileiro.
O(s) Assassino(s)
암살자(들)
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