Audacioso, Minha Filha é um Zumbi exemplifica o que o cinema coreano tem de melhor
Produção virou fenômeno de bilheteria justamente por não ter medo de correr riscos
Créditos da imagem: Cena de Minha Filha é um Zumbi (Reprodução)
É vertiginosa a velocidade com a qual Minha Filha é um Zumbi faz a virada entre a piadoca mais inconsequente e o niilismo mais devastador. Imagine se algum editor perturbado das idéias tivesse decidido, por sabe-se lá qual motivo, embaralhar algumas cenas de Extermínio (o clássico de Danny Boyle, com seus zumbis que se movem em modo turbo e seu retrato áspero de um mundo devastado pela epidemia) com outras de Anna e o Apocalipse (o musical natalino adolescente de zumbis lançado em 2012, um High School Musical com mortos vivos), e você está começando a se aproximar da sensação de assistir a esta produção sul-coreana.
Pode parecer, no papel, uma experiência discrepante demais. O trunfo de Minha Filha é um Zumbi, no entanto, é justamente a forma como o diretor Pil Gam-sung (Maldito Dia de Sorte) confia no espectador para embarcar sem restrições na jornada proposta pelo roteiro, assinado pela estreante Kim Hyun.
Quando é hora de ser um filme de zumbi, portanto, ele é um Filme De Zumbi, com hordas de atores/bailarinos/contorcionistas maquiados de maneira escatológica enchendo as ruas de Seul, e a mixagem de som subindo o volume dos chiados e ossos quebrados para nos colocar em estado de alerta – como em Extermínio ou em The Walking Dead, este é um mundo que não perdoa, onde tudo pode acontecer. Por outro lado, quando é hora de ser uma comédia familiar, ele não tem vergonha nenhuma de colocar velhinhos para dançar 2NE1, ou empurrar o seu elenco (composto inteiramente de atores gabaritados dentro da indústria) na direção da caricatura.
Às vezes, ainda, o filme decide que essas duas horas chegaram ao mesmo tempo. Uma sequência logo no início, em que pai (Jo Jung-suk) e filha (Choi Yu-ri) tentam escapar de zumbis utilizando suas habilidades de dança, é um ótimo exemplo disso. O resultado é um longa que pode mudar de tom plano a plano, expressão a expressão, e essa aposta só funciona porque ele se compromete inteiramente consigo mesmo – ou, talvez, seja melhor dizer que ele se compromete com todos os “si mesmos” que lhe dão na telha.
De qualquer forma, o encanto de Minha Filha é um Zumbi é que ele simplesmente não cede. Não há aqui qualquer concessão ao que as pesquisas e convenções de mercado dizem, ou ao que a tendência mais recente aponta. Não há suavização dos lados mais sombrios da premissa para direcionar o produto para um público mais amplo, nem tentativa de agradar aos fiscais de gênero eliminando a patetice que também está no seu DNA. O diretor Pil nunca negocia com o roteiro, nem debate com um público imaginário que ele acredita saber o que quer.
Ao contrário disso, ele conta sua história exatamente como ela é, e pede que a recebamos dessa mesma forma. E é alarmante o quanto essa atitude atinge o espectador como uma lufada de ar fresco - porque mostra que o cinema ocidental, especialmente aquele produzido nos grandes pólos da indústria, se esqueceu que apostar numa visão audaciosa como essa, infiltrada pelas expectativas atreladas a ela, pode dar certo.
Essa é a grande lição de Minha Filha é um Zumbi, no fim das contas: apostar na boa vontade do público dá certo. Visto por mais de 5.6 milhões de pessoas na Coreia natal, o filme se tornou o mais lucrativo do ano por lá, ganhou uma braçada de prêmios locais, e chega aos cinemas brasileiros já com essa história de sucesso na bagagem. Como diria Hollywood, que parece ter esquecido sua própria lição: construa, e eles virão – especialmente se você construir tão bem assim.
Aviso: O Omelete é parceiro de divulgação de Minha Filha é um Zumbi, junto à O2 Play. Não estamos envolvidos com a produção, mas forjamos uma parceria comercial para divulgar o filme.
Minha Filha é um Zumbi
좀비딸
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