Hope é um épico de ação e monstros audacioso e imperfeito
Blockbuster sul-coreano é o tipo de filme que precisa ser admirado
Créditos da imagem: Cena de Hope (Reprodução)
Hope é inacreditável de uma forma que um filme, em pleno 2026, só pode ser caso seja visto em festivais de cinema ou caso o marketing seja muito cuidadoso com o que revela. Dirigido pelo sul-coreano Na Hong-jin (O Lamento), o longa pode ser descrito como um épico de ação com monstros. Ir muito além disso seria entregar mais do que devemos sobre sua natureza, que se aproveita do fator surpresa para praticamente atacar o espectador com total adrenalina. É uma abordagem que, claro, traz seus problemas, mas a audácia de Na Hong-jin é tão impressionante que é possível admirar até mesmo a forma como Hope sai dos trilhos.
Ok, eu preciso respirar.
É nesse estado que ficamos poucos minutos depois que Hope começa. Seu início, por mais que não mostre muito da vida local, sugere que o maior problema dos cidadãos de Hope Harbor (a pequena cidade litorânea de onde Na Hong-jin tira seu título) é a ameaça de infiltrados da Coreia do Norte, já que a fronteira entre os países fica a alguns quilômetros dali. Mesmo assim, com uma força de policial de menos de 10 pessoas e uma comunidade daquele estilo “todo mundo conhece todo mundo", Hope Harbor jamais poderia imaginar o que aconteceria no fatídico dia que o diretor encena com a frequência cardíaca de uma pessoa que acabou de levar o maior choque de sua vida.
Tudo começa devagar. O chefe de polícia local, Bum-seok (Hwang Jung-min), é alertado por seu primo Sung-ki (Zo In-sung) de uma descoberta perturbadora: o cadáver de um boi, arranhado por algo que faz as garras de um urso parecerem pequenas, largado na estrada. A princípio acreditando que trata-se de um animal – há rumores de um tigre na área –, eles se dividem. Sung-ki leva um grupo de caçadores à floresta entre as montanhas e Bum-seok encomenda a ajuda da colega Sung-ae (uma genuinamente incrível Hoyeon, de Round 6) para patrulhar a cidade. Não demora muito para que a gravidade da situação se faça clara.
A primeira das duas horas e quarenta de Hope não é gravada em plano-sequência, mas engloba uma longa cena de perseguição – primeiro com os protagonistas correndo atrás de um caos que parece estar sempre logo à sua frente, e depois com eles fugindo do monstro que descobrem – que culmina com um momento de tanta empolgação que sentimos o cineasta pausando para deixar o público se recuperar e, se sua sessão for como a estreia de Hope no Festival de Cannes 2026, começar um merecido aplauso.
Seria criminoso entrar em detalhes sobre essa criatura, mas podemos dizer que ela aponta para uma ameaça ainda maior para os cidadãos de Hope Harbor, e apesar de Na Hong-jin não fugir da violência e desespero que são inerentes ao tipo de ataque eles sofrem, suas reações também permitem que o diretor recupere seu fôlego através de piadas que são, francamente, surpreendentemente bestas. Não falo isso como uma crítica, necessariamente. O tipo de humor de Hope é muito bem-vindo, e mesmo quando um tiro cômico sai pela culatra, a disposição do filme de se divertir é admirável.
Estamos falando de um blockbuster. Um que, inclusive, pode ser facilmente transformado em franquia se for bem-recebido. Sua seleção para a competição pela Palma de Ouro em Cannes é em si só impressionante, porque Na Hong-jin, desde sempre um artista interessado em cinema de gênero, faz aqui algo digno das telas IMAX pelas quais Hollywood está apaixonada (e, não à toa, o elenco conta com astros do cinema estadunidense como Michael Fassbender, Alicia Vikander, Taylor Russell e Cameron Britton*). Estamos falando, também, de um filme que se compromete de corpo e alma com sua proposta, por mais que ela às vezes pareça além das capacidades dramáticas do roteiro, também autorado por Na Hong-jin.
*Eu imploro: não procure nem os nomes de seus personagens.
Hope, fica claro na sua reta final, tem muito mais em mente do que inicialmente sugerido. A questão é que, até Na Hong-jin levantar essas ideias mais ousadas – que incluem, podemos dizer, o bom e velho dilema “nós somos os verdadeiros monstros?” –, se torna evidente que ele não conseguirá, e talvez nem queira, explorar a fundo as bolas que levanta. Esses problemas de execução incluem o desenvolvimento temático das revelações do terceiro ato, mas também uma série de questões técnicas, em particular quando se trata das misteriosas criaturas que assolam Hope Harbor.
Muito CGI é preciso para trazer à vida os elementos mais importantes de Hope, e apesar do filme ser um grande sucesso de design e idealização, especialmente em questões como animação e movimento, é difícil não ser removido do longa aqui e ali quando algo se comporta de forma bizarra visualmente. Novamente fica clara a ideia de um universo maior: talvez, com o sucesso deste filme, Na Hong-jin ganhe o espaço para trabalhar melhor suas propostas e, claro, o orçamento para igualar sua ambição.
Mesmo diante disso tudo, é difícil não ser levado pela ambição de Hope. Este é o tipo de filme que merece admiração até mesmo por suas imperfeições. E, através de sequências de ação dignas de serem mencionadas ao lado de Mad Max: Estrada da Fúria e John Wick no Hall da Fama deste século, Na Hong-jin garante que sentiremos nosso queixo cair múltiplas vezes ao longo desta montanha-russa. Às vezes, isso é mais do que o suficiente.
Hope (2026)
호프
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