Cães de Caça volta com mesmo ímpeto, ainda que menos propósito
Três anos depois, k-drama de ação da Netflix pode ter perdido seu ponto - mas não seu carism
Créditos da imagem: Rain, Woo Do-hwan e Lee Sang-yi em Cães de Caça (Reprodução)
Em 2023, quando Cães de Caça estreou na Netflix, o k-drama criado e dirigido por Kim Joo-hwan (O Agente Faixa-Preta) conquistou o público com cenas de ação bem coreografadas, um duo de protagonistas carismáticos e uma história de suspense convincente – mas também com algo a mais.
A história criada por Kim, afinal, se passava não no ano em que foi lançada, mas em 2020 e 2021, no auge da pandemia de covid-19, o que servia como atenuante para o conflito central (a mãe de Gun-woo aceitava um empréstimo predatório para salvar seu negócio, mas o fazia durante um período economicamente difícil para todo o planeta), mas também base temático-filosófica.
O que quero dizer, de forma mais simples, é que conhecer Gun-woo (Woo Do-hwan) e Woo-jin (Lee Sang-yi) durante esse período histórico, em que a sua decência e sua humildade aliviavam a angústia de um mundo em sofrimento incomparável, tinha seu impacto. Eles formavam laços, se posicionavam como protetores dos vulneráveis, modelavam morais que convenciam até os podres de ricos como Min-beom (Choi Si-won) a se juntarem a eles.
Talvez até seja piegas dizer, mas Cães de Caça mostrava um período em que o mundo precisava mais do que nunca do tipo de heróis de ação que esses dois resgatavam.
A segunda temporada do k-drama, no entanto, já começa dizendo que cinco anos se passaram desde a última vez que vimos Gun-woo e Woo-jin – o que posiciona a cronologia da história exatamente nos tempos em que vivemos agora, em 2025 ou 2026. E não é que o planeta tenha melhorado muito nos tempos, mas com certeza revertemos ao estado de emergência paulatino ao qual já estamos acostumados. Cães de Caça simplesmente funciona melhor, como narrativa pop, quando Gun-woo e Woo-jin podem servir como a bem-vinda (ainda que temporária) cura para a angústia existencial palpável que todo o seu público compartilha.
Para o crédito do diretor e roteirista Kim, no entanto, é importante dizer que a segunda temporada faz o seu melhor para superar essa desvantagem temporal. Acima de tudo, Cães de Caça se esforça para fazer três coisas: reafirmar a essência de seus personagens, retomar as relações e linhas narrativas estabelecidas por eles nos capítulos anteriores, e replicar o ímpeto técnico do primeiro ano.
Nos primeiros dois quesitos, o episódio de estreia já é excelente, estabelecendo com eficiência o lugar onde os protagonistas se encontram – Gun-woo como campeão de boxe, Woo-jin como seu treinador, ambos provendo para todos ao seu redor e se provando companheiros fiéis um ao outro. Também é ali que somos introxuzidos ao conflito com o brutal promotor de lutas clandestinas vivido por Rain.
Por falar nele, o ícone do k-pop agarra com vontade a chance de viver o seu primeiro grande vilão. Im Baek-jeong é uma figura envolta em sombras no início da temporada, mas Rain já injeta suas primeiras cenas com uma raiva palpável. O ator entende talvez o mais importante do personagem: que ele é um chefe de operação criminosa, sim, mas não um homem de negócios. Dinheiro é recompensa por brutalidade, mas a brutalidade é o ponto – Baek-jeong, enfim, é uma força opositora perfeita para os atletas honrados e respeitosos que servem como heróis para esta história. Impulsivo, fisicamente impressionante e dono de presença escorregadia, Rain interpreta o papel de forma impecável.
O terceiro elemento da receita, portanto, são as cenas de ação – e três anos certamente não ofuscaram o brilhantismo de Kim Joo-hwan nesse sentido. Sem nunca perder de vista o background dos personagens no boxe, o diretor conduz as lutas com senso de ritmo e impacto: cada baque é sentido, amplificado por uma boa mixagem de som. Mesmo quando mistura formatos (como na primeira luta da temporada, onde câmeras de TV se misturam ao ponto de vista do protagonista), a rapidez dos movimentos dos atores/dublês nunca se transforma em uma linguagem visual incompreensível para o público.
Cães de Caça ainda é alucinante, enfim, e tem um confronto instigante de heróis vs. vilões para dar combustível à sua trama. Que ela tenha perdido um pouco da relevância é inegável, mas ainda lhe sobra carisma.
Cães de Caça
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