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Korea
Crítica

Boy manipula sensações brilhantemente para falar de masculinidade e controle

Com Seo In-guk em raro papel vilanesco, filme coreano merece ser descoberto

Omelete
4 min de leitura
06.10.2026, às 06H00.
Seo In-guk em Boy (Reprodução)

Créditos da imagem: Seo In-guk em Boy (Reprodução)

“Pessoas são poder”. Esse é o refrão que os personagens centrais de Boy, dois irmãos (Jo Byeong-gyu e Yoo In-soo) que administram uma espécie de abrigo/campo de trabalho forçado em uma Coreia do Sul distópica, repetem um para o outro a fim de lembrar quais são suas prioridades no trato dos “inquilinos”. A frase foi aprendida com o homem que eles chamam de Chapeleiro (Seo In-guk), figura excêntrica a quem prestam contas sempre que um novo morador chega ou vai embora do local – e que os aplica punições físicas extremas quando algo dá errado por lá.

Esse triângulo de poder que existe entre eles é abalado com a chegada de Jae-in (Jini, ex-integrante do grupo de k-pop NMIXX), uma jovem em situação vulnerável que se aproxima do irmão mais novo, expondo aos poucos as premissas falsas em cima das quais aquela relação familiar se baseia. E pronto: Boy não precisa de mais do que isso para criar um retrato brilhante, tão intoxicante em suas sensações quanto preciso em seus significados, do entrelaçar infernal entre masculinidade e controle.

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Projeto passional do diretor e roteirista Lee Sang-deok, já conhecido no circuito independente sul-coreano por Write or Dance (2017) e Film Adventure (2019), Boy vibra com uma especificidade excitante por todas as suas 1h30 de duração. A sequência inicial, que nos apresenta ao cenário principal da história, dá a deixa para o resto do filme: por cima da trilha de batidas eletrônicas propulsivas assinada por B.I (ele mesmo, do grupo de k-pop iKon), o montador estreante Kim Zoon-hyoung picota vários momentos do dia-a-dia dos irmãos, se preocupando menos com a cronologia dos acontecimentos e mais com a sensação que eles despertam.

E o jogo de Boy é esse mesmo, de nos fazer sentir tanto o desalento que dá à luz os homens violentos que vemos em tela, quanto o sufocante ciclo de reafirmação do qual eles parecem ser incapazes de se libertar. O que ele entende melhor do que muitos outros dramas independentes, no entanto, é que no cinema sentir e ver são quase a mesma coisa. Não basta dizer que nossos personagens são produtos escorregadios de um tempo em desarranjo, de uma cultura em decadência – é preciso que a fotografia em cores estouradas aspect ratio acadêmico, assinada Cho Young-chan, os mostre transpirando e cambaleando e dançando sem rumo pelos restos de um mundo que já esteve lá, mas não está mais.

Também é crucial que os dançarinos em questão entendam a música, é claro, e o trio de artistas no centro de Boy cria dinâmicas à flor da pele sem nunca esbarrar no novelão. Do alto de seus 30 anos de idade, Jo Byeong-gu (Caçadores de Demônios) convence inteiramente como Ro-han, o irmão mais jovem e inseguro da dupla de protagonistas, subserviente ao forçoso Kyo-han de Yoo In-soo (All of Us Are Dead) mesmo além do momento em que se torna impossível continuar sendo. Há uma admissão de fragilidade em ambas essas performances, escondida por baixo de camadas e mais camadas de “estilo”, que não é fácil para nenhum ator.

Na ponta mais penetrante desse triângulo, enquanto isso, está Seo In-guk. Conhecido por papéis de galã na TV (Desgraça ao Seu Dispor, Namorado por Assinatura, etc), ele encara aqui um antagonista que expõe o lado grotesco da pose confiante que faz diante das câmeras sempre que lhe pedem para encarnar mais um protagonista romântico estoico. Se nos k-dramas seus personagens milimetricamente controlados precisam aprender a abrir mão desse controle para se entregar à paixão, aqui ele nos mostra o que acontece com um homem que nunca aprende a fazer isso. É uma escolha audaciosa, e uma com a qual ele se compromete sem hesitação.

Boy, enfim, é um daqueles filmes em que tudo parece afinado – a visão está aqui, e todo mundo está trabalhando exatamente na direção dela. E até por serem excessivamente raros, esses filmes precisam ser vistos como as pérolas que são.

*Boy foi exibido no Korean Film Festival (KOFF), em São Paulo (SP) - confira a programação completa. Ainda não há previsão para a estreia do longa no circuito comercial brasileiro.

Nota do Crítico

Boy (2025)

보이

Duração: 90 min
Direção: Lee Sang-deok
Roteiro: Lee Sang-deok
Elenco: Jo Byeong-gyu, Yoo In-soo, Jini, Seo In-guk
Onde assistir:

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