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Korea
Crítica

Nada é supérfluo em Amor Possível, nova obra-prima de Lee Chang-dong

Mesmo com 2h40 de duração, filme da Netflix é preciso da primeira à última cena

Omelete
4 min de leitura
Atualizada em 06.11.2026, ÀS 11H31
Amor Possível (Reprodução)

Créditos da imagem: Amor Possível (Reprodução)

Nada escapa a Lee Chang-dong. O venerável mestre sul-coreano, que aos 72 anos lança apenas o seu sétimo longa-metragem, faz cinema como quem constrói (à mão, com muito suor) uma mansão onde o espectador pode se movimentar como se morasse por lá há muito tempo. Erguida em base narrativa sólida, mas também decorada com sofisticação incomparável, essa é uma morada em que os detalhes de um cômodo reverberam no outro, como se aquelas paredes aparentemente tão concretas fossem na verdade feitas de material poroso, vivo como a pele das pessoas que caminham entre elas.

Este é um cinema que demanda tempo, em todos os sentidos. Por isso, Lee tem se tornado um cineasta cada vez mais bissexto; e, por isso, seus filmes têm se tornado cada vez mais longos. Amor Possível, seu primeiro desde Em Chamas (2018), é o maior da carreira do diretor até agora, com 2h44 de duração. Mas ele impressiona justamente por não ter um frame descartável que seja.

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Essa sensação de integralidade vem principalmente de um instinto poético que se desenrola na encenação, mas também na própria estrutura do texto de Amor Possível, assinado por Lee em parceria com Oh Jung-mi (é a segunda colaboração dos dois, após Em Chamas). Tudo que está aqui rima com algo que estará mais adiante, seja de maneira óbvia ou num sentido mais profundo — e, embora uma ou outra dessas rimas sirva para fins puramente estéticos, a maioria delas sugere ou reforça uma dimensão da narrativa, do seu retrato complexo de diferenças de classe, relações trabalhistas, performance social, e por aí vai.

A protagonista de Amor Possível é Ahn Mi-ok (Jeon Do-yeon), trabalhadora de uma fábrica de máscaras cirúrgicas e esposa de Choi Ho-seok (Sul Kyung-gu), um soldador que foi demitido quando a empresa onde trabalhava foi comprada por investidores estrangeiros. Os dois participaram de uma greve que se estendeu por tempo o bastante para que o governo sul-coreano interviesse, e violentamente, um evento que deixou marcas profundas no casal. Dois anos depois, entra em cena Lee Ye-ji (Cho Yeo-jeong), documentarista bancada pelo marido investidor, Sang-woo (Zo In-sung), que se aproxima de Mi-ok com a intenção de registrar sua vida em um filme.

Um dos escopos mais fascinantes dessa trama, de certa forma, descansa inteiramente nos ombros dos atores. Amor Possível interroga o que acontece com conflitos reais, diferenças óbvias, angústias impossíveis de domar, quando as câmeras estão ligadas – e pede a cada membro do seu elenco que se relacione com esse aspecto de performance de forma diferente. Como Ahn Mi-ok, por exemplo, Jeon Do-yeon (retomando parceria com Lee Chang-dong quase 20 anos depois de Sol Secreto) afeta uma doçura artificial no trato que esconde muito mal não só uma inveja intensa dos seus pares, mas também uma ânsia de libertação reprimida que encontra paralelos fascinantes no restante do elenco.

A Lee Ye-ji de Cho Yeo-jeong (Parasita) encara essa doçura da protagonista como oportunidade, mas também se mostra quebradiça em cena, insegura da legitimidade de suas próprias intenções e da vontade de se mostrar vs. o impulso de ser a artista altruísta que abraça seus sujeitos. O Sang-woo de Zo In-sung (Está Tudo Bem, Isso é Amor) ecoa um pouco o personagem de Steven Yeun em Em Chamas, em sua sede irrefreável de controle e sucesso, sua confiança absoluta na solidez de sua posição. Por interpretar tipos mais convencionais, e talvez mais frios, os dois atores podem empalidecer diante dos protagonistas intensos de Amor Possível, mas o filme não funcionaria sem eles.

É difícil negar, no entanto, a potência absoluta de Sul Kyung-gu (que volta a trabalhar com o diretor Lee após colaborações em Doce de Menta e Oásis, na virada do século) dentro da construção do filme. Enquanto ao seu redor se multiplicam personagens entregues à performance, ele interpreta alguém que repetidamente a recusa – não por não entender o seu valor como ferramenta de negociação com a realidade, mas por se segurar a emoções tão intensas que são capazes de quebrar até a casca dura que uma performance seria capaz de construir ao seu redor. Reservado ao silêncio por boa parte do filme, seu Choi Ho-seok ainda é o núcleo vibrante de Amor Possível.

Há como tratar o novo filme de Lee Chang-dong como “mais um” na tradição de filmes recentes (inclusive, mas não só, sul-coreanos) sobre as devastações do capitalismo tardio, mas eu argumentaria que ele é especial. No ato de construir aquela mansão que mencionei no começo deste texto, e pela própria virtude de nos deixar confortáveis dentro dela, Amor Possível aguça os nossos olhos e ouvidos não só para a dimensão histórica da humanidade daqueles que a habitam, mas também para um entendimento mais imediato dessa humanidade. Estar com eles por essas quase três horas, observando como suas vidas rimam e se desencontram, é tocar a magia da ficção sem abrir mão da granularidade do real.

Este não é um filme sobre injustiça, enfim, mas um filme sobre que consolo podemos encontrar nessa vida apesar dela. Pode parecer derrotista, e definitivamente é melancólico, mas veja bem: aos 72 anos, Lee Chang-dong dificilmente tem tempo para fantasiar. Esse tal de Amor Possível precisa, mais do que nunca, ser o bastante.

Nota do Crítico

Excelente!

Amor Possível

가능한 사랑

Duração: 164 min
Direção: Lee Chang-dong
Roteiro: Oh Jung-mi, Lee Chang-dong
Elenco: Zo In-sung, Sul Kyung-gu, Jeon Do-yeon, Cho Yeo-jeong
Onde assistir:

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