Original e bem escrita, A Leste do Palácio é fantasia de luxo da Netflix
Cosmologia sul-coreana é tempero de uma boa história de espíritos e intriga palaciana
Créditos da imagem: Cena de A Leste do Palácio (Reprodução)
Não deixe a seriedade absoluta da campanha de divulgação de A Leste do Palácio, novo k-drama da Netflix, te enganar: Gu-cheon (Nam Joo-hyuk), o protagonista capaz de caminhar entre o mundo dos vivos e dos espíritos, é um pateta. Retratado nos materiais promocionais em fotografia vermelha, empunhando uma espada e com o cabelo caído na cara, até parece que o personagem é um grande guerreiro místico ou uma figura severa, atormentada e inflexível. E não é bem por aí.
No roteiro de A Leste do Palácio, assinado pela dupla Kwon So-ra e Seo Jae-won (Bulgasal: Almas Imortais), Gu-cheon é o filho de uma falecida xamã, que passou ele mesmo por uma experiência de quase-morte. Desde então, consegue enxergar espíritos e entrar na dimensão deles para combatê-los. Não que o rapaz veja isso como um grande dom – preguiçoso, anti-social e meio rude, ele já esgotou a paciência até dos monges que o hospedam em um isolado templo no alto de uma montanha.
A série estabelece assim a ideia de um herói brusco e relutante, que cria atritos até cômicos quando cai de paraquedas no contexto regrado e aristocrático do palácio de Joseon, onde o rei (Cho Seung-woo) o obriga a ficar até que consiga banir todos os espíritos violentos que estão ameaçando sua linhagem. Não é tarefa fácil: A Leste do Palácio retrata este cenário monárquico como um campo minado de ressentimentos, traições e violências (sociais, políticas, de gênero, etc), que dão vida a todo tipo de assombração virulenta.
Aí entra o trabalho do diretor Choi Jung-kyu (O Juiz do Diabo), que toma total proveito dos valores de produção elevados de A Leste do Palácio – claramente a superprodução sul-coreana de 2026 da Netflix, com todo o investimento que isso implica – para criar uma fantasia luxuosa, mas também temperamental. As viagens de Gu-cheon para o mundo dos espíritos são renderizadas em belos e expansivos cenários digitais, esbanjando criatividade na iluminação e na texturização de seus monstros.
É eficiente essa elaboração que a série faz de uma dimensão onírica localizada no meio de um cenário insular. Na época difusa que o k-drama retrata, como o próprio rei diz em certo momento do primeiro episódio, “quem entra no palácio só sai morto” – e é esse isolamento que dita as regras de convivência ali dentro, as aparências a serem ser mantidas, as diferenças que a serem suprimidas, e como esses processos vão criando angústias geracionais entre todos que estão ali.
Nesse contexto, A Leste do Palácio escolhe (sabiamente) tintas mais leves para pintar não só o seu protagonista, mas também a relação que ele cultiva com a dama de companhia (Roh Yoon-seo) que é enviada para vigiá-lo em sua missão. Também dona de habilidades sobrenaturais, ela representa uma aprendiz e um espelho para a tagarelice de Gu-cheon, mas tampouco carece de motivações próprias, desenhando um arco que a conecta profundamente com a história que a série quer contar sobre quebras de confiança e ciclos de opressão.
A Leste do Palácio, enfim, é mais equilibrada em seu tom, e mais dedicada à humanidade de seus personagens, do que pode parecer. É um acerto: em meio a tonelada de exposição necessária para nos introduzir aos conceitos cosmológicos do xamanismo sul-coreano, fundamentais para estabelecer a novidade da premissa, a âncora desses protagonistas intensamente identificáveis é mais importante do que qualquer grande efeito especial.
A Leste do Palácio
Editar comentário
Excluir comentário
Confirmar a exclusão do comentário?
Comentários (0)
Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.
Faça login para comentar e avaliar
Compartilhe sua opinião, publique críticas e participe das discussões com a comunidade Omelete.Escrever comentário