A Arte de Sarah oferece denúncia cristalina da elite, e um bom thriller policial
K-drama tem paralelos com Inventando Anna, mas sem as amarras de uma história real
Créditos da imagem: Cena de A Arte de Sarah (Reprodução)
“Se você começa com um blefe, mas seu blefe é bem-sucedido, você não está mais fazendo uma trapaça: está administrando um negócio”. Esta é basicamente a premissa de A Arte de Sarah, encarnada em uma frase da personagem título, vivida por Shin Hye-sun (De Volta às Raízes), uma mulher misteriosa que, após supostamente comandar a expansão sul-coreana de uma marca de bolsas de luxo, e conquistar boa parte da alta sociedade de Seul no processo, aparece morta nos esgotos da cidade. É o gatilho para um k-drama que propõe desvelar a artificialidade absoluta que cerca as instituições, relações e marcadores de status da elite.
Nesse sentido, então, a série criada pela roteirista estreante Chu Song-yeon se aproxima de outro hit da Netflix: Inventando Anna, de 2022. São, ambas, histórias de vigaristas que provam o quanto os corredores da influência, da tradição e do dinheiro são regidos por pouco mais do que o “cara-crachá” soberbo de quem já está lá dentro. Se você parece ter grana, e circula pelos mesmos lugares de quem tem grana, pouco importa o fato de você não ter – até porque é muito fácil fazer todo mundo lhe dar um pouco, seja sob o guiso de um investimento exclusivo ou de um empréstimo amigável.
A diferença entre Anna e Sarah, é claro, é que só uma delas existiu de verdade. Enquanto a minissérie estrelada por Julia Garner tinha, portanto, um compromisso (mesmo que frouxo) com a realidade, o k-drama não tem, e se aproveita disso para ser ainda mais incisivo na abordagem de seus temas, na denúncia de uma elite que vive dessa retroalimentação infinita enquanto vende para “a ralé” a ideia de que o mérito e a esperteza são o bastante para qualquer um chegar onde eles chegaram. Daí que, quando A Arte de Sarah martela a ideia de que a trapaça operada por sua protagonista na verdade não teve nenhuma vítima, apenas cúmplices em busca de proteger seus privilégios, o impacto é ainda maior.
O outro lado dessa moeda, claro, é que a falta de uma base real obriga a roteirista Chu Song-yeon a urdir a sua própria teia de reviravoltas e revelações – e, nesse sentido, ela não sai passível de erros. Estruturada espertamente em oito episódios, nenhum com mais de 50 minutos e vários com menos de 40 (descontando créditos), A Arte de Sarah é consideravelmente mais enxuto do que a maioria dos k-dramas, e escolhe se dividir em duas seções bem claras: nos quatro primeiros episódios, o detetive Park Mu-gyeong (Lee Jun-hyuk, vindo do sucesso de Meu Secretário Perfeito) vai destrinchando o passado de Sarah, que acompanhamos em flashbacks; nos quatro últimos, a série se transforma num jogo de gato-e-rato mais tradicional, onde nosso herói busca provas para impedir que o suspeito do crime escape ileso.
É nessa segunda parte que algumas fragilidades começam a aparecer. Isso porque, se o texto da estreante se mostra bem resolvido nos diálogos, e ainda mais desenvolto na exploração temática, é no plot que às vezes as coisas se complicam. A Arte de Sarah mais de uma vez comete aquele pecado capital das ficções policiais, que é confiar na incompetência ou irracionalidade dos investigadores para preservar algumas reviravoltas da trama até o momento em que resolve revelá-las. E, conforme essas conveniências vão se empilhando, elas começam a ficar no caminho de uma narrativa que tinha tudo para ser absurdamente envolvente, e qualitativamente irrepreensível.
Pior é que esses tropeços também se impõem diante de um núcleo policial que, à revelia do que poderia acontecer em uma história na qual o passado da vítima é de fato o grande ponto de interesse, vinha se desenvolvendo de maneira refrescante. Enquanto o roteiro de Chu se destaca por manter as relações de trabalho fielmente confinadas ao escritório – não precisamos ir para a casa dos policiais para entender e se emaranhar nas relações que eles constróem entre si –, o diretor Kim Jin-min traz os aprendizados do excelente My Name para criar uma linguagem procedural sóbria, mas nunca estéril.
A primeira metade de A Arte de Sarah funciona fenomenalmente bem como thriller policial, e os resquícios dessa boa condução se veem na força emocional das conclusões que o k-drama dá, também, para os personagens da delegacia. É uma pena que eles precisem ser tão ruins em seu trabalho para o mistério da série funcionar.