O ARIRANG não tem nenhuma “Dynamite” - e essa é sua maior virtude
Não que o hit global do BTS seja ruim, mas afastar-se dele é mais audacioso
Créditos da imagem: BTS em sessão de fotos do ARIRANG (Reprodução)
É inimaginável a pressão que se depositou sobre os ombros do BTS uma vez que, completo o serviço militar obrigatório dos integrantes do grupo, a perspectiva de um novo álbum se mostrou uma inevitabilidade comercial. O tal disco seria, afinal, o primeiro do septeto desde que “Dynamite” e “Butter” (2020 e 2021, respectivamente) consolidaram sua transformação em fenômeno global, tornando-os reconhecidos, até institucionalmente (com indicações ao Grammy, por exemplo), como o maior ato pop do planeta.
Que esse reconhecimento tenha se seguido de um longo período de afastamento, graças às leis do país de sua origem, só fizeram com que o retorno do BTS se tornasse mais importante, comercialmente falando, para todas as partes interessadas. Todo mundo, com certeza, tinha uma ideia do que o novo disco deveria ser – e estou disposto a apostar que, para pelo menos uma boa parcela de executivos e agentes, essa ideia envolvia uma coleção de faixas eletrônicas levinhas e aspiracionais, seguindo a deixa disco dos grandes sucessos do grupo. Não se mexe em time que está ganhando, etc e tal.
Mas olha só: ARIRANG, a obra que de fato saiu da reunião dos artistas, é acima de tudo um testemunho de resiliência diante dessa pressão. É a coleção de inéditas mais sóbria do BTS desde Love Yourself: Tear (2018), famosamente composto durante um momento complicado da história do grupo, quando eles inclusive passaram perto da separação. E é natural que seja, uma vez que os sete se juntaram para compor o ARIRANG logo após seus serviços militares, uma fase em que angústias profissionais e pessoais costumam se acumular para o jovem sul-coreano.
O que isso significa, no entanto, é que o álbum não tem nenhuma “Dynamite”, nenhuma “Butter”, em sua tracklist generosa de 14 faixas. ARIRANG, de fato, é dividido em duas metades bem distintas, com a transição marcada pelo interlúdio “No. 29” (faixa #6): a primeira carrega nas tintas do hip hop, inclusive lembrando a produção distintamente contemporânea e a sonoridade claustrofóbica do Jack in the Box, disco solo de J-Hope lançado em 2022; a segunda deságua no R&B, apostando mais na melodia para usar as vozes excepcionais de Jung Kook e cia., mas mantendo o tom maduro das canções anteriores.
Existe no ARIRANG um respeito tremendamente demodé pelo álbum como unidade musical – eis aqui uma peça de música coesa, pensada para expressar um sentimento específico, e não uma coleção de potenciais hits que se curvam às exigências do streaming. E existe também uma especificidade cultural desenhada para rebater a crítica que muita gente já tinha engatilhada para esse retorno do BTS: ainda que pautado pela colaboração com produtores ocidentais (Diplo, Ryan Tedder e Mike Will Made-It são figuras importantes nos créditos), e apoiado no inglês como língua dominante nas composições, o ARIRANG ainda é um álbum essencialmente sul-coreano.
O nome nos diz isso, é claro, com sua referência à canção tradicional da Coreia do Sul sobre amantes separados por um rio intransponível (é genial, inclusive, o uso do coro de “Arirang” em “Body to Body”, cujo tema de conexão tem tudo a ver com o clássico). Em “Hooligan”, RM desafia a ideia de que o BTS transcendeu o k-pop em um verso forte (“Este é o K/ Melhor trazer um pop melhor para cá”). Em “Aliens”, a letra fala sobre confrontar o racismo com o qual o BTS é recebido no Ocidente, virando de ponta-cabeça a palavra frequentemente usada pelo governo estadunidense para definir os estrangeiros em seu país. Até “No. 29” lança mão de um tesouro nacional sul-coreano, o Sino Sagrado do Rei Seongdeok, para marcar a metade do disco.
De certa forma, portanto, o ARIRANG é uma resposta, e uma recusa. Durante o show de estreia na Praça de Gwanghwamun (outro local histórico da Coreia, que não foi escolhido à toa), transmitido pela Netflix, o líder RM falou brevemente sobre como fazer o disco foi um exercício de “entender o que era inegociável” para o grupo. O que essas 14 faixas mostram é que o BTS não está disposto a ceder nem sua nacionalidade, nem o status subversivo de sua infiltração no cenário ocidental, nem a verdade de sua música como expressão emocional do momento que vivem.
Para dar esse recado, fizeram um álbum que só terá hits… porque é do BTS. Não há nenhum single óbvio no ARIRANG, e ainda assim está todo mundo ouvindo, ao tom de uma dominação absoluta das paradas do Spotify. A conclusão não poderia ser mais clara: eles fazem as regras. O mercado, se for esperto o bastante, só vai atrás.
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