Deezer: 1 mês grátis + 20% OFF!

Icone Fechar
Korea
Artigo

O ARIRANG não tem nenhuma “Dynamite” - e essa é sua maior virtude

Não que o hit global do BTS seja ruim, mas afastar-se dele é mais audacioso

Omelete
4 min de leitura
26.03.2026, às 06H00.
BTS em sessão de fotos do ARIRANG (Reprodução)

Créditos da imagem: BTS em sessão de fotos do ARIRANG (Reprodução)

É inimaginável a pressão que se depositou sobre os ombros do BTS uma vez que, completo o serviço militar obrigatório dos integrantes do grupo, a perspectiva de um novo álbum se mostrou uma inevitabilidade comercial. O tal disco seria, afinal, o primeiro do septeto desde que “Dynamite” e “Butter” (2020 e 2021, respectivamente) consolidaram sua transformação em fenômeno global, tornando-os reconhecidos, até institucionalmente (com indicações ao Grammy, por exemplo), como o maior ato pop do planeta. 

Omelete Recomenda

Que esse reconhecimento tenha se seguido de um longo período de afastamento, graças às leis do país de sua origem, só fizeram com que o retorno do BTS se tornasse mais importante, comercialmente falando, para todas as partes interessadas. Todo mundo, com certeza, tinha uma ideia do que o novo disco deveria ser – e estou disposto a apostar que, para pelo menos uma boa parcela de executivos e agentes, essa ideia envolvia uma coleção de faixas eletrônicas levinhas e aspiracionais, seguindo a deixa disco dos grandes sucessos do grupo. Não se mexe em time que está ganhando, etc e tal.

Mas olha só: ARIRANG, a obra que de fato saiu da reunião dos artistas, é acima de tudo um testemunho de resiliência diante dessa pressão. É a coleção de inéditas mais sóbria do BTS desde Love Yourself: Tear (2018), famosamente composto durante um momento complicado da história do grupo, quando eles inclusive passaram perto da separação. E é natural que seja, uma vez que os sete se juntaram para compor o ARIRANG logo após seus serviços militares, uma fase em que angústias profissionais e pessoais costumam se acumular para o jovem sul-coreano.

O que isso significa, no entanto, é que o álbum não tem nenhuma “Dynamite”, nenhuma “Butter”, em sua tracklist generosa de 14 faixas. ARIRANG, de fato, é dividido em duas metades bem distintas, com a transição marcada pelo interlúdio “No. 29” (faixa #6): a primeira carrega nas tintas do hip hop, inclusive lembrando a produção distintamente contemporânea e a sonoridade claustrofóbica do Jack in the Box, disco solo de J-Hope lançado em 2022; a segunda deságua no R&B, apostando mais na melodia para usar as vozes excepcionais de Jung Kook e cia., mas mantendo o tom maduro das canções anteriores.

Existe no ARIRANG um respeito tremendamente demodé pelo álbum como unidade musical – eis aqui uma peça de música coesa, pensada para expressar um sentimento específico, e não uma coleção de potenciais hits que se curvam às exigências do streaming. E existe também uma especificidade cultural desenhada para rebater a crítica que muita gente já tinha engatilhada para esse retorno do BTS: ainda que pautado pela colaboração com produtores ocidentais (Diplo, Ryan Tedder e Mike Will Made-It são figuras importantes nos créditos), e apoiado no inglês como língua dominante nas composições, o ARIRANG ainda é um álbum essencialmente sul-coreano.

O nome nos diz isso, é claro, com sua referência à canção tradicional da Coreia do Sul sobre amantes separados por um rio intransponível (é genial, inclusive, o uso do coro de “Arirang” em “Body to Body”, cujo tema de conexão tem tudo a ver com o clássico). Em “Hooligan”, RM desafia a ideia de que o BTS transcendeu o k-pop em um verso forte (“Este é o K/ Melhor trazer um pop melhor para cá”). Em “Aliens”, a letra fala sobre confrontar o racismo com o qual o BTS é recebido no Ocidente, virando de ponta-cabeça a palavra frequentemente usada pelo governo estadunidense para definir os estrangeiros em seu país. Até “No. 29” lança mão de um tesouro nacional sul-coreano, o Sino Sagrado do Rei Seongdeok, para marcar a metade do disco.

De certa forma, portanto, o ARIRANG é uma resposta, e uma recusa. Durante o show de estreia na Praça de Gwanghwamun (outro local histórico da Coreia, que não foi escolhido à toa), transmitido pela Netflix, o líder RM falou brevemente sobre como fazer o disco foi um exercício de “entender o que era inegociável” para o grupo. O que essas 14 faixas mostram é que o BTS não está disposto a ceder nem sua nacionalidade, nem o status subversivo de sua infiltração no cenário ocidental, nem a verdade de sua música como expressão emocional do momento que vivem. 

Para dar esse recado, fizeram um álbum que só terá hits… porque é do BTS. Não há nenhum single óbvio no ARIRANG, e ainda assim está todo mundo ouvindo, ao tom de uma dominação absoluta das paradas do Spotify. A conclusão não poderia ser mais clara: eles fazem as regras. O mercado, se for esperto o bastante, só vai atrás.

Webstories

Comentários (0)

Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.

Sucesso

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a nossa Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.