Produtor de Apocalipse nos Trópicos: "Documentários mudam vidas"
Bruno Pacini recebeu troféu nos Prêmios Platino SCARET 2026 pelo filme de Petra Costa
Créditos da imagem: Bruno Pacini com os Prêmios Platino XCARET 2026 (Reprodução)
O produtor Bruno Pacini conversou com o Omelete após receber o prêmio de Melhor Documentário nos Prêmios Platino XCARET 2026, em nome da equipe de Apocalipse nos Trópicos. A vitória do longa de Petra Costa foi uma das dez conquistadas pelo Brasil na premiação íberoamericana.
Confira o papo completo a seguir, em que Pacini comenta sobre a trajetória vitoriosa de Apocalipse nos Trópicos em premiações e festivais ao redor do mundo, o poder do documentário para tocar o público, e o aquecimento do mercado cinematográfico brasileiro.
OMELETE: A trajetória de Apocalipse nos Trópicos em premiações e festivais ao redor do mundo é excepcional. Por que você acha que essa produção conversou tão bem com o público internacional?
PACINI: Com toda certeza, o nosso filme conquistou um grande destaque em festivais e premiações ao redor do mundo, como o BAFTA, o Platino e o Cinema Eye Honors. Acho que essa aceitação tenha acontecido, principalmente, porque os acontecimentos retratados no filme, e que estamos vivendo no Brasil, são muito semelhantes ao que vem acontecendo em diferentes partes do mundo. Em exibições do nosso longa em festivais fora do país, lembro de ouvir pessoas da indústria comentando: “Nossa, eu não fazia ideia de que isso estava acontecendo no Brasil. Vocês tiveram o seu próprio 6 de Janeiro [em referência à data em que os apoiadores de Donald Trump invadiram o Congresso dos EUA]". Penso que, além desse sentimento de identificação, um dos grandes diferenciais para essa recepção foi a maneira como Petra conduziu a narrativa do filme. Mesmo abordando diversos eventos, temas e situações, ela conseguiu, ao longo das três camadas do filme, construir uma história forte e impactante.
OMELETE: Você trabalhou diretamente na pesquisa de Apocalipse nos Trópicos. Na prática, o que esse processo significou? Que tipos de fontes você buscou, e que tipo de perguntas buscou responder?
PACINI: Participar da pesquisa do filme foi uma experiência muito única para mim . O projeto trouxe diversos elementos e diferentes tipos de pesquisa: trabalhamos com materiais que iam desde redes sociais e matérias de jornais até documentos sigilosos dos Estados Unidos. O principal ponto que se destacou é que Petra conseguiu unir e selecionar entre todo esse acervo de conteúdo o que ela precisa para contar sua história, porque o acervo pesquisado era realmente gigantesco. Tínhamos terabytes de materiais, incluindo filmes antigos sobre a presença religiosa no país, vídeos de cultos, documentos escaneados e horas de reportagens e matérias sobre o que estava acontecendo no Brasil.
É importante falar também que realizamos um trabalho muito único de pesquisa sobre o apocalipse, no qual a própria Petra se aprofundou na Bíblia. Além disso, estudamos diversos artistas que retrataram esse tema, como Bosch, por exemplo. Nesse processo, a principal lição que levo para a vida foi a de buscar diferentes fontes e ferramentas para encontrar exatamente o que eu estava procurando. Muitas vezes, a Petra já sabia que determinado material existia e precisávamos encontrá-lo e aprofundá-lo - ou, em outras situações, nós que levantávamos novos materiais para ela. Dessa forma, era sempre necessário pensar "com a cabeça" para encontrar caminhos que nos apresentassem às informações que queríamos, seja entrar em um site específico ou falar com uma pessoa em particular.
OMELETE: A gente vê o cinema brasileiro crescendo em ritmo incrível no cenário mundial, e o documentário vem até como precursor disso. O que o cinema documental brasileiro tem a oferecer de diferencial ao mundo, na sua visão?
PACINI: O cinema documental, como mencionei no meu discurso, traz movimento e ação para o mundo, pois apresenta aquilo que está acontecendo na realidade, seja de forma direta ou não. Aprendi muito com a Petra sobre o poder que as histórias documentais possuem. Durante os últimos anos, acompanhei de perto o impacto que os filmes dela causaram nas pessoas. Elena, por exemplo, o primeiro filme da Petra, ao abordar o suicídio, faz com que até hoje, quase diariamente, mulheres escrevam para a Petra falando como o filme impactou suas vidas. Muitas delas falam por mensagem que até desistiram de cometer suicídio por causa da obra. Além disso, acompanhar o impacto do nosso filme, com Petra, Alessandra [Orofino, produtora] e toda a incrível equipe da campanha, levando essa discussão para igrejas, mostrou para mim, na prática, o poder transformador do cinema, principalmente o documental. Na faculdade, escutamos histórias sobre filmes que mudam vidas, mas vivenciar isso presencialmente me fez ver de forma muito mais profunda a força do documentário e do cinema na vida das pessoas.
OMELETE: Nessa visão da indústria que você tem, de dentro para fora, como está sendo esse momento de crescimento do nosso cinema? Você vê o mercado aquecido? E o que ainda está faltando?
PACINI: Nos últimos anos, tenho trabalhado muito com a indústria do cinema e acompanhado o crescimento do mercado. Atualmente, estou desenvolvendo um novo projeto em que venho estudando o setor de forma aprofundada, e acredito que estamos vivendo um momento único para o cinema brasileiro. Nos últimos anos, pra citar alguns números, foram abertas aproximadamente 1.500 produtoras, em média, anualmente. É um número que representa quase o dobro do registrado nos três anos anteriores. Também é importante mencionar que a entrada de novos profissionais aumentou muito, com um crescimento de 100% na quantidade de cursos de cinema em quatro anos.
Eu vejo muito claramente um mercado cada vez mais aquecido e em expansão, e principalmente uma maior facilidade do fazer audiovisual e ao acesso à informação. Com isso em mente, venho trabalhando há alguns anos em um projeto em que busco ajudar o mercado audiovisual, e principalmente os realizores. Estou em contato com vários profissionais, e pretendo lançar isso em breve.
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