Animação coreana está “à beira de uma grande renascença”, diz diretor
Kim Bo-sol veio apresentar o longa animado The Square na Mostra de Cinema Coreano no Brasil
Créditos da imagem: O diretor Kim Bo-sol e um frame do seu filme, A Praça (Reprodução)
Esta entrevista faz parte da KOREA WEEK, semana especial de conteúdo sul-coreano (k-drama, k-pop e mais!) em todas as plataformas do Omelete. Fique de olho na nossa seção KOREA para acompanhar tudo.
Não se surpreenda se a animação sul-coreana passar, nos próximos anos, por um boom semelhante ao que viveu o cinema live-action do país no início dos anos 2000. A comparação é feita por Kim Bo-sol, cineasta formado na Korean Academy of Film Arts (KAFA) que recentemente esteve em São Paulo para apresentar o longa animado A Praça, na Mostra de Cinema Coreano no Brasil.
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O longa conquistou o público brasileiro com sua história de amor proibido entre um diplomata sueco e uma oficial de trânsito norte-coreana, ambientada no coração de Pyongyang, capital da Coreia do Norte. É uma trama que, como conta Kim em entrevista ao Omelete, pode ser contada com “mais liberdade” na animação – especialmente tendo em vista as restrições severas à visita de estrangeiros na vizinha da Coreia do Sul.
A seguir, o cineasta nos conta sobre a gênese da ideia para o filme, e sobre a experiência de visitar o Brasil com ele, mas também reflete sobre uma indústria de animação que, na esteira de seus primeiros hits internacionais (Solo Leveling, Lookism, Tower of God, The God of High School), começa a ganhar músculo e, como resultado, diversificar seu público.
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OMELETE: The Square acompanha um amor proibido entre pessoas de nacionalidades diferentes. De onde veio essa ideia, e por que você achou que era importante contar essa história?
KIM: Cerca de 10 anos atrás, quando eu estava estudando cinema, li um artigo. Era uma entrevista à imprensa concedida por um secretário sueco que havia retornado após trabalhar de fato por três anos na Coreia do Norte. O texto trazia histórias sobre o modo de vida na Coreia do Norte. Naquela época, como o governo sul-coreano atravessava um longo mandato de um regime conservador, era um período em que a comunicação com a Coreia do Norte estava ainda mais limitada. Por causa disso, havia uma grande escassez de informações sobre a Coreia do Norte na Coreia do Sul. Quando perguntado sobre como é a vida na Coreia do Norte, o secretário disse: “Foi muito solitário e isolado”. O secretário queria tomar uma cerveja com os norte-coreanos depois do expediente, mas disse que isso era impossível por conta da vigilância e do controle na Coreia do Norte. Por isso, como forma de aliviar esse estresse, ele disse que ia para uma autoestrada vazia e andava de bicicleta sozinho. Ao ler esse trecho, a imagem de um estrangeiro loiro andando de bicicleta sozinho em uma autoestrada vazia me veio à mente de forma extremamente marcante. Como eu já tinha interesse pela Coreia do Norte no dia a dia, essa única e marcante imagem desenhada em minha mente se tornou o gatilho para eu decidir que precisava fazer um filme.
Desde a década de 1940, a Coreia dividiu-se entre Sul e Norte, pelo comunismo e pelo capitalismo. A partir daí, com o passar das gerações, as pessoas que conheciam a tristeza da divisão foram diminuindo gradativamente. Falando apenas da minha geração, já não há mais quem deseje a reunificação. Por causa dos grandes e pequenos problemas que surgiram entre as duas Coreias após a divisão, ao contrário, hoje há cada vez mais pessoas que desejam simplesmente que cada país viva bem e prosperamente à sua maneira. Ou seja, ninguém está falando sobre reunificação. No entanto, os artistas das gerações passadas lançaram muitas obras criativas expressando a tristeza da divisão como se a estivessem desabafando. Assim como o anseio pela reunificação enfraqueceu com o passar das gerações, esse resultado também se refletiu nas obras de arte. Hoje em dia, a mídia da Coreia do Sul recorre muito à Coreia do Norte como dispositivo narrativo,mas é apenas isso – a imagem da Coreia do Norte na Coreia do Sul se limita a elementos de entretenimento, com agentes de segurança e soldados. Acho que eu mesmo tinha uma certa antipatia pela imagem da Coreia do Norte retratada na mídia sul-coreana. Além disso, para tentar entender a atitude com que os artistas das gerações anteriores criavam suas obras, com aquela tristeza da divisão, quis criar uma história sob uma perspectiva um pouco diferente.
OMELETE: Também é notável a escolha de realizar o filme em animação. Por que você considerou que ela era a mídia perfeita para esta história? E o que essa escolha adiciona ao texto do filme, na sua opinião?
KIM: Se a animação tem uma grande diferença em relação aos filmes em live-action, é a vantagem de poder expressar tudo o que é possível, sem limites para a imaginação. Pela mesma razão, é possível escapar das limitações físicas. Entendo que a Coreia do Sul não seja o único país do mundo todo que não pode ir à Coreia do Norte, mas ao mesmo tempo somos o país que mais precisa falar disso. Por ser uma animação, acho que foi possível ultrapassar essa limitação física e expressar o espaço chamado Coreia do Norte de forma mais livre. Não foi uma questão de pensar que fosse o meio mais apropriado para a história. Apenas acho que houve a pequena vantagem de poder expressar as coisas de forma um pouco mais livre.
OMELETE: A animação sul-coreana tem crescido muito nos últimos anos, assim como várias outras modalidades do entretenimento do país. Você tem observado esse crescimento, de dentro da indústria? Como é o mercado de animação no país?
KIM: Não sei bem como é no Brasil, mas o mercado de animação na Coreia está fortemente inclinado para o mercado infantil. A escala da indústria cresceu tendo o público infantil como alvo. O consumo de animação não acontece voltado para adultos, como no Japão. Por outro lado, existe o campo da animação independente coreana, mas ele é composto principalmente por diretores que fazem curtas-metragens. O lado em que a indústria de animação coreana está crescendo atualmente, junto com outros campos de conteúdo cultural, é o mercado infantil. Mas muitos criadores desejam que sejam produzidas animações que faixas etárias um pouco mais diversas possam desfrutar, e há um sentimento otimista no meio sobre isso. No campo da animação independente, vejo possibilidades futuras muito boas dentro da Coreia, porque estão surgindo muitos bons diretores e bons animadores. O que sempre digo é que o mercado de animação coreano atual está consolidando um bom solo, num contexto que parece similar ao período anterior à renascença do cinema coreano nos anos 2000.
OMELETE: Por fim, acredito que seja um momento muito interessante para um diretor, especialmente estreante, ver sua obra viajar para o outro lado do mundo. O que significa, para você, exibir The Square no Brasil?
KIM: Encontrar novos públicos é sempre uma experiência empolgante. Em particular, é interessante como A Praça é uma obra interpretada de formas muito diferentes dependendo da história, do contexto social e do ambiente geográfico e cultural do país. Em sociedades com fortes valores capitalistas, há muitos espectadores que simpatizam mais profundamente com o romance de Bori e Bok-ju, enquanto em países que vivenciaram o comunismo ou regimes ditatoriais, ou que possuem uma compreensão profunda sobre ideologia, é frequente haver uma maior imersão na posição e nos sentimentos do personagem Myeong-jun. Como diretor, encontrar essas diversas interpretações e reações é também um dos prazeres de criar uma obra.
Eu sempre tive a imagem do Brasil como um país onde vivem pessoas apaixonadas e vibrantes. Ao vir realmente a São Paulo, a energia que a cidade possui e a vitalidade das pessoas foram além das minhas expectativas, o que foi muito impressionante. Jamais imaginei, em toda a minha vida, que viria ao outro lado do mundo visitar o Brasil, e estou realmente muito feliz e honrado por poder conhecer o público daqui através de A Praça. Com esta visita como oportunidade, pensei também que um dia voltarei a visitar o Brasil. É claro que, mesmo nessa ocasião, o longo tempo de voo de 24 horas será uma barreira a ser superada, mas viria de bom grado.
*The Square foi exibido na Mostra de Cinema Coreano no Brasil, mas ainda não tem data de estreia definida para o circuito comercial.
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