A Imperatriz se Casou Novamente seduz com luxo, melodrama e fantasia
K-drama do Disney+ atira para todos os lados, e acerta (quase) todos os alvos
Créditos da imagem: Shin Min-a em A Imperatriz se Casou Novamente (Reprodução)
A Imperatriz se Casou Novamente chega ao Disney+ com aquela aura de “grande demais para falhar”. Isso porque a obra na qual ele é baseado, que começou sua vida como webnovel (livros de ficção serializados on-line, formato especialmente popular na Ásia) e depois virou webtoon (a mesma coisa, mas para quadrinhos), já tem uma audiência embutida de milhões, senão bilhões de fãs. De acordo com as fontes mais confiáveis, de fato, a história recebeu mais de 3 bilhões de visualizações desde o seu lançamento, em 2019, através de várias linguagens e plataformas.
Isso explica, é claro, o investimento gigante da plataforma de streaming, que fica evidente nos primeiros episódios do k-drama. Cenários palacianos grandiosos são filmados em tomadas expansivas, que não precisam e nem querem esconder nada do público. Figurinos elaborados tratam de vestir seus personagens da realeza de forma adequada… bom, para a realeza, mesmo nos momentos íntimos. E o CGI, quando é acionado (mais frequentemente do que você poderia esperar), está quilômetros à frente de tudo o que se vê em uma produção média de televisão – coreana, estadunidense ou de qualquer outra origem.
O luxo é então o primeiro, e talvez o mais importante, ponto de venda de A Imperatriz se Casou Novamente. Pudera: parte significativa da sedução desta premissa está em como ela se desenrola pelos corredores do poder e do privilégio, fascinantes por sua influência e mística aristocrática, mas também por sua inacessibilidade. É neste mundo que vivem o imperador Sovieshu (Ju Ji-hoon) e a imperatriz Navier (Shin Min-a), que governam um reino fictício em perfeita harmonia até a chegada da misteriosa Rashta (Lee Se-young), uma jovem escrava fugitiva por quem o monarca rapidamente se apaixona.
É aí, claro, que entra o segundo ponto de venda de A Imperatriz se Casou Novamente, que é o melodrama. E essa identificação com o novelão passa por uma distinção importante: o que temos aqui é uma história de infidelidade, sim, mas principalmente de deslealdade. O roteiro, assinado por Yeo Ji-na e Hyun Choong-yeol (Caçadores de Demônios), toma cuidado para emoldurar a traição de Sovieshu como muito mais do que uma quebra de votos matrimoniais – até porque, como fica claro já no primeiro episódio, neste mundo é esperado que monarcas tenham amantes.
Acima de tudo, portanto, o que ele quebra ao se engraçar com Rashta é uma promessa tácita de igualdade e respeito que havia feito para a esposa. Ao fazer o que se espera dele, Sovieshu tira de Navier a posição de exceção que ela tinha: a de uma mulher, de uma consorte, que importava. Como tantos outros melodramas antes dele (da tradição hollywoodiana aos folhetins latinos), A Imperatriz se Casou Novamente deixa com sua protagonista, Shin Min-a, a responsabilidade de retratar essa quebra efetivamente – e é no rosto dela, na forma como sua altivez se transforma, que o espectador encontra um ponto de humanidade no qual se apoiar diante de todo o luxo da narrativa.
É claro que falta aí um terceiro ponto de venda: a fantasia. E esse é talvez o elemento que mais desestabiliza a série nos primeiros episódios. Isso porque, veja só, Navier e Sovieshu vivem em um mundo saído dos contos de fadas – além da inspiração medieval na direção de arte, essa ambientação implica em incursões mágicas aqui e ali, seja com personagens capazes de transfiguração ou criaturas violentas que perseguem nossos protagonistas pela floresta (numa sequência de ação memorável do primeiro episódio).
Esses perigos e excentricidades não parecem exatamente fora de lugar, e são executados com o requinte esperado pela direção de Cho Su-won (Pinóquio)... mas é mais fácil vê-los como uma distração, uma concessão, do que uma parte integral dessa história. Era de se esperar, no entanto, que uma série tão decidida a seduzir o público de todas as formas, a atirar para todos os lados, desse pelo menos um tiro mais fraco. Por enquanto, é muito pouco para dizer que ela errou o alvo.
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