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Entrevista

Escritora coreana cresceu com Meu Pé de Laranja Lima: “Surreal ser lida no Brasil”

Lee Hong fala ao Omelete sobre A Dama de Gangnam, que virou sensação na Bienal de SP

Omelete
10 min de leitura
29.09.2026, às 06H00.
A autora Lee Hong na Bienal do Livro de SP, e a capa nacional de A Dama de Gangnam (Reprodução)

Créditos da imagem: A autora Lee Hong na Bienal do Livro de SP, e a capa nacional de A Dama de Gangnam (Reprodução)

Um dos nomes mais marcantes da última edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que ocorreu no início do mês, foi o da escritora sul-coreana Lee Hong. Ela trouxe o seu livro A Dama de Gangnam para o evento – mas também chegou como representante emblemática de uma das literaturas que mais conquistam fãs brasileiros hoje em dia.

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Na estrada há quase duas décadas, e também dona de uma editora/agência que representa outras escritoras sul-coreanas, Lee conhece os processos intrincados do mercado editorial melhor do que a maioria, e entende o que é necessário para levar o livro de um país para muito além de onde o seu autor poderia imaginar. Especialmente, é claro, se um bom mistério está no centro dessa história.

A Dama de Gangnam tem seu ponto focal em Oh Mina, uma profissional sofisticada do bairro de Gangnam, um dos mais ricos de Seul. A fachada de sua vida perfeita começa a ruir a partir do momento em que ela começa a receber cartas ameaçadoras, e livro vai mergulhando em vários episódios do seu passado para tentar decifrar o enigma por trás dessa personagem que a própria autora define como representação do “mito do sucesso feminino”.

Confira a seguir a conversa completa de Lee Hong com o Omelete, conduzida antes de sua participação na Bienal. A Dama de Gangnam foi publicado no Brasil pela VR Editora - confira o link para compra aqui.

OMELETE: A Dama de Gangnam tem uma estrutura interessante, dividida em quatro partes que retrocedem cronologicamente, indo cada vez mais longe no passado da protagonista. Por que você escolheu esse formato e como acredita que ele contribui para a história?

LEE: Antes de escrever A Dama de Gangnam, eu estava tentando compreender melhor a sociedade coreana na qual vivia. Talvez eu mesma não entendesse completamente as dificuldades que enfrentava para me adaptar àquela sociedade, e tinha um forte desejo de compreender o lugar onde nasci e passei toda a minha vida.

Quando tentamos compreender um acontecimento ou uma pessoa inexplicável no presente, tendemos a nos concentrar nas circunstâncias que se desenrolam diante de nós, mas acredito que as palavras que dizemos, as ações que tomamos e as decisões que fazemos no presente não surgem simplesmente do presente. Suas causas foram se acumulando camada após camada, remontando ao passado. As pistas geralmente estão lá, e não aqui.

Foi por isso que estruturei o romance em cronologia reversa, de maneira semelhante ao processo utilizado pela psicologia para rastrear as causas do comportamento humano. Não inverti a cronologia simplesmente por um efeito formal. Por meio da própria estrutura, queria que os leitores questionassem quanto da verdade realmente conseguimos enxergar a partir da perspectiva do presente e, mesmo que consigamos chegar a essa verdade, o quanto realmente podemos mudar.

OMELETE: Também é interessante que você tenha escolhido explorar o thriller como gênero. O que mais desperta seu interesse nos romances de mistério e quais foram as influências para A Dama de Gangnam?

LEE: Quando concebi Oh Mina, a protagonista de A Dama de Gangnam, pela primeira vez, pensei nela tanto como um “ícone do mito do sucesso feminino” quanto como uma mulher que ninguém conseguiria compreender facilmente devido à complexidade de seu mundo interior. A forma do thriller de mistério é particularmente eficaz para dar forma a uma personagem como essa. Ela atrai os leitores para a história por meio da incerteza.

Pelo mesmo motivo, também quis romper com algumas convenções do gênero. Em um thriller de mistério convencional, voltamos ao passado para encontrar pistas e, então, retornamos ao presente com essas pistas para solucionar o mistério. Mas, em A Dama de Gangnam, a história nunca retorna ao presente. Em vez disso, termina em um momento do passado, quando o leitor acredita ter descoberto uma pista importante. E o romance deixa o leitor com apenas mais uma pergunta: “Esse é realmente o final do quebra-cabeça?”.

Ninguém sabe. O maior medo surge quando as coisas são imprevisíveis. Então, o que exatamente é uma pista quando nos deparamos com uma na vida real? No fim das contas, não se trata de uma interpretação que vem da nossa própria perspectiva individual? Uma pista moldada pelas experiências de cada pessoa sempre pode ser contestada por outra perspectiva que jamais encontramos.

Nesse sentido, as pistas que possuímos são limitadas, frágeis e imperfeitas. E, ainda assim, as tragédias produzidas pelos sistemas sociais contemporâneos continuam acontecendo no presente. Talvez isso aconteça porque nossos próprios desejos e escolhas também estão inseridos nesses sistemas.

O livro que exerceu a maior influência sobre A Dama de Gangnam não foi um romance de mistério ou thriller. Foi Inteligência Social, do neurocientista Daniel Goleman. Na época em que escrevi, estava profundamente interessada em neurociência. No livro, Goleman analisa a liderança na sociedade contemporânea e argumenta que muitos CEOs, líderes políticos e pessoas em posições de poder apresentam traços associados à sociopatia, ao narcisismo, ao maquiavelismo e até à psicopatia. O que foi ainda mais perturbador foi seu argumento de que a sociedade contemporânea continua recompensando pessoas com essas características e ainda as considera líderes ideais.

Essa teoria permaneceu muito forte em minha mente. Como eu havia concebido Oh Mina como um enigmático ícone do mito do sucesso feminino, esse livro forneceu uma inspiração significativa não apenas para a personagem, mas também para a construção do universo do romance.

OMELETE: O distrito de Gangnam é emblemático da imagem de Seul e da Coreia do Sul ao redor do mundo. O que você espera que os leitores descubram sobre Gangnam ao ler seu livro? Você buscou conscientemente mostrar outro lado do distrito?

LEE: Gangnam não é apenas o cenário do romance. Na verdade, pode-se dizer Gangnam é o DNA do romance. Desde o momento em que concebi A Dama de Gangnam, pensei que Oh Mina e o distrito de Gangnam haviam nascido do mesmo DNA. Na superfície, ela alcançou todos os objetivos que nossa sociedade define como sucesso, mas, internamente, carrega uma série de problemas complexos e não resolvidos.

Para os estrangeiros, Gangnam possui uma imagem bastante unidimensional. O distrito é associado ao k-pop, às marcas de luxo, às lojas modernas, à moda e ao lado glamouroso da Seul contemporânea. Mas, para mim, que vivi em Gangnam até deixar a Coreia, o distrito tem um significado muito mais complexo.

Durante muito tempo, “mudar-se para Gangnam” foi o sonho de muitos coreanos. Era onde estavam as melhores escolas, os prestigiados cursinhos particulares, as lojas de departamento sofisticadas e os apartamentos mais caros. Inevitavelmente, as pessoas que viviam em Gangnam tinham maior probabilidade de receber melhores oportunidades educacionais, estudar nas melhores universidades, trabalhar em profissões de escritório e conquistar maiores oportunidades econômicas. Morar em Gangnam era quase considerado uma “garantia” de sucesso e ascensão social.

Ao mesmo tempo, também era um lugar onde algumas das contradições e problemas mais graves da sociedade coreana se tornavam especialmente visíveis: o excesso de educação privada, a competição incessante, a pressão social em torno da aparência, o conflito de classes e os casamentos condicionados pela origem econômica e pelo histórico educacional.

Oh Mina e Gangnam nasceram ambos com o DNA do sucesso, mas, ao mesmo tempo, incorporam essa dualidade de carregar alguns dos maiores problemas da sociedade. O que acontece com uma sociedade quando esses valores continuam sendo bem-sucedidos? E será que realmente podemos dizer que não os desejamos? Essa foi a pergunta que quis compartilhar com meus leitores.

OMELETE: Você publicou originalmente este livro em 2010, mas levou algum tempo até que ele fosse traduzido e lançado em diferentes partes do mundo. Como sua relação com essa história mudou ao longo do tempo? Você acredita que faria algo diferente se estivesse escrevendo o livro hoje?

LEE: É uma trajetória curiosa. Sim, os capítulos individuais deste romance foram publicados inicialmente como contos em diversas revistas literárias coreanas entre 2008 e 2010, mas A Dama de Gangnam só foi publicado como livro completo, na própria Coreia, em 2019!

Em 2022, fundei a Agency Soseol (소설, ou “soseol”, é uma palavra puramente coreana que significa “romance”) junto com escritoras coreanas, com o objetivo de apresentar a literatura produzida por mulheres coreanas ao mercado internacional. Em 2024, participei do K-Fellowship, organizado pelo Instituto de Tradução Literária da Coreia, onde conheci Luis, um agente literário brasileiro especializado em literatura coreana. Quando ele se convenceu de que A Dama de Gangnam poderia alcançar os leitores brasileiros, essa jornada inesperada começou.

Mesmo que eu escrevesse o romance novamente hoje, não acredito que o conteúdo mudaria muito. Como mencionei, as histórias que deram origem a este romance foram escritas entre 2008 e 2010. No entanto, mesmo agora, quinze anos depois, a maioria dos problemas sociais expressos no romance continua sem solução.

OMELETE: Vir ao Brasil para a Bienal do Livro de São Paulo parece ser um momento significativo na trajetória deste livro. Quais são suas expectativas para o evento e por que você acredita que os leitores brasileiros irão se conectar com essa história?

LEE: O Brasil sempre foi, para mim, um país que existia na literatura. Conheci o Brasil pela primeira vez por meio de Meu Pé de Laranja Lima, quando era uma menina, e, mais do que aprender detalhes sobre o país, acredito que primeiro imaginei o Brasil por meio das emoções de uma criança. Pensar que meu livro agora foi publicado justamente no lugar onde existe aquele “pé de laranja-lima” é, sinceramente, algo surreal para mim. Toda a jornada que estou vivendo agora parece uma obra de ficção fantástica.

Como escritora, não quero que todos os leitores cheguem à mesma conclusão. Pelo contrário, espero que os leitores brasileiros interpretem o romance inteiramente a partir de suas próprias experiências, percepções e perspectivas. Essa é uma decisão que cabe ao leitor. Mantenho essa crença desde que comecei minha carreira como escritora, há dezessete anos.

OMELETE: Você também participará de uma mesa sobre a crescente popularidade da literatura coreana no Brasil. Ao longo da sua carreira, você acompanhou de perto o aumento do interesse dos leitores latino-americanos pelos livros coreanos? Como você enxerga essa expansão?

LEE: A literatura coreana está vivendo um momento especial internacionalmente. Obras coreanas dos mais diversos gêneros têm apresentado um bom desempenho no mercado editorial internacional. Também ouvimos cada vez mais sobre obras literárias coreanas recebendo importantes prêmios em diferentes mercados e idiomas. Acredito que esse seja um desenvolvimento muito encorajador.

Na verdade, até aproximadamente 2010, a literatura coreana ocupava uma posição periférica no cenário literário internacional. Então, houve uma mudança decisiva com uma obra específica: A Vegetariana, de Han Kang. Depois que Han Kang e a tradutora Deborah Smith venceram o Man Booker International Prize por A Vegetariana, o interesse internacional pela literatura coreana aumentou dramaticamente. Nesse sentido, acredito que a história da internacionalização da literatura coreana possa ser dividida de forma bastante clara entre um “antes” e um “depois” de A Vegetariana.

Desde então, uma ampla variedade de obras literárias coreanas passou a receber atenção em diferentes mercados culturais e linguísticos, e essa tendência continua gerando um impulso positivo. Além da literatura, os filmes e as séries coreanas também receberam enorme atenção internacional, com Parasita e Round 6 como exemplos representativos, enquanto os webtoons também conquistaram enorme popularidade.

Nos últimos anos, tenho percebido que a demanda por literatura coreana tem aumentado na América do Sul. Para ser sincera, como agente literária e representante de escritores, minha experiência na América Latina ainda é relativamente limitada em comparação com minha experiência na Europa, na Ásia e no mundo de língua inglesa.

A Dama de Gangnam foi publicado no Chile antes do Brasil, e fiquei surpresa ao saber que o Pasaporte Literario o selecionou como livro recomendado e o distribuiu aos leitores chilenos. Um importante jornal chileno também publicou uma matéria sobre o livro. Na mesma época, algumas produtoras sul-americanas entraram em contato comigo para falar sobre os direitos de adaptação audiovisual de The Disaster Tourist, de Yun Ko-eun, outra obra representada pela Agency Soseol. Essas experiências me deram a oportunidade de aprender muito mais sobre os mercados editorial e de direitos para televisão e cinema na América Latina, embora eu ainda esteja no início dessa jornada.

A literatura coreana está apenas começando sua aventura na América Latina. Novos livros de escritores representados pela Agency Soseol foram publicados este ano, e outros serão lançados no próximo. Também estamos preparando novos projetos internacionais. Tenho a sensação de que alguns milagres extraordinários podem acontecer por aqui nos próximos anos.

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