Totalmente entregue à fantasia, A Coroa Perfeita dá aula de k-drama
Com IU interpretando IU (e se divertindo à beça), série do Disney+ é hit incontornável
Créditos da imagem: Cena de A Coroa Perfeita (Reprodução)
A primeiríssima vez que vemos o Príncipe I-an, protagonista romântico de A Coroa Perfeita, ele está tomando banho. Depois descobrimos que ele está de volta de uma caçada pelas propriedades reais, mas a princípio o k-drama do Disney+ nos atira na cena sem nenhum contexto – e a dupla de diretores formada por Park Joon-hwa (Alquimia das Almas) e Bae Hee-young (A Cinderela Moderna) não economiza nas tomadas esfumaçadas mostrando o torso sarado do astro Byeon Woo-seok (Adorável Corredora), a água escorrendo por sua nuca, e (para dar um respiro) as roupas ensanguentadas e armas espalhadas pela cama no seu quarto.
A sequência não é a primeira de A Coroa Perfeita, mas vem antes da metade do capítulo de estreia, como um aviso definitivo de que este é o tipo de série que você está assistindo: um produto inteiramente dedicado ao olhar feminino, à fantasia que povoa as histórias de romance – algumas tórridas, outras nem tanto – que se tornaram best-seller ao redor do mundo, em todo tipo de formato. A Coroa Perfeita não quer enganar ninguém, é claro, mas acima de tudo quer dar o recado de sua dedicação a um tipo de arte que é frequentemente tirado como baboseira pelos circuitos críticos e pelo público que gosta de pensar que tem “discernimento” em seu consumo de mídia.
Esse desembaraço é uma aposta certeira na era imperial dos webtoons, as narrativas virtuais em quadrinhos que dominam a atenção do público na Coreia e além; das fanfics, que apostam no romance e na sensualidade para cativar o público já vidrado em determinadas franquias; e dos próprios k-dramas, que passaram os últimos anos querendo vender uma imagem de refinação, mas só conseguem construir ousadias tonais por se apoiarem no sucesso de romances folhetinescos que vivem negociando fantasia e realidade. A Coroa Perfeita olha para tudo isso e decide, acima de tudo, que não há motivo nenhum para esconder seus impulsos populistas.
Daí também a construção da protagonista feminina da trama, Song Hui-ju (IU). Filha bastarda de uma família rica, ela comanda a subsidiária da empresa do pai, mas vive sob a sombra do irmão mais velho, que vai herdar o império todo um dia, e de seu status como pária dentro do contexto da nobreza e da realeza. Ambientado numa Coreia do Sul alternativa, que vive sob monarquia constitucional ainda no século XXI, A Coroa Perfeita tem um roteiro (do estreante Yoo Ji-won) que vai construindo com cuidado insuspeito as disputas e dilemas criados pela sociedade que imaginou.
É verdade que, no fundo, se trata de mais uma história de intriga palaciana, e de mais uma protagonista “vira-lata” para quem o público pode torcer sem medo. Mas os conflitos de interesse que vão surgindo entre os personagens – incluindo ainda o primeiro-ministro vivido por Noh Sanghyun (Pachinko), e a rainha-mãe interpretada por Gong Seung-yeon (Os Casamenteiros de Joseon) – são envolventes, e pintam um retrato vívido desse universo. A Coroa Perfeita não precisa de exposição demais, porque conhece bem o seu mundo e o que de fato há de interessante nele. Não é a originalidade, enfim, mas a integralidade de sua imaginação que faz a série conquistar o espectador.
Ademais, Song Hui-ju dá a IU a oportunidade de atuar soltinha, o que é sempre um prazer de se assistir. Aqui, ela é a queridinha dos flashes e do público – basicamente uma popstar, capaz de fazer os vestidos e bolsas que usa nos tapetes vermelhos voarem das prateleiras das lojas –, mas ao mesmo tempo uma presença que ainda retém algo de subversivo para as instituições pelas quais passeia. Uma mulher que desafia a ideia de se comportar “como manda sua posição”, mas que no fundo ainda vive uma vida de conto de fadas por todo o sucesso que lhe foi garantido, de nascença ou por conquista.
Em outras palavras: IU interpreta IU em A Coroa Perfeita, dentro de todas as contradições que são próprias de uma popstar. Objeto de inveja e identificação, protagonista de utopias e perseguidora de desafios, inovadora e guardiã do status quo. E ela se diverte à beça expressando tudo isso dentro de uma série que a permite transformar miragem pop em personagem com narrativa completa, com uma câmera que claramente a venera, mas também a permite ser “só uma mulher”. Hui-ju, como a série que protagoniza, é a fantasia perfeita, e há de se admirar todo o cuidado e o talento que se aplicou para criá-la.
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