Além do talento inegável, WOODZ triunfa no palco por não subestimar o clichê
Astro do k-pop fez show equilibrado lindamente entre o desafio e a convenção
Créditos da imagem: WOODZ durante show no Terra SP, em 14 de julho (Samela Silva/Omelete)
É difícil resistir à tentação de dizer que o show de WOODZ na última sexta-feira (14), em São Paulo, foi diferente de tudo o que se espera de um espetáculo de k-pop. Os argumentos nesse sentido são vários: o cantor, ao contrário de virtualmente todos os seus colegas de indústria, não realiza um único passo de dança pré-coreografado no palco; sua turnê troca corpo de dançarinos e distrações pirotécnicas por uma banda completa (e visível no palco!), que idealiza versões mais “orgânicas” até das canções eletrônicas do astro; seu microfone permanece irrevogavelmente ligado durante as quase duas horas de apresentação; e por aí vai.
Marcas de prestígio e “autenticidade” (o que quer que isso signifique em pleno 2023) no campo do entretenimento ocidental, essas características da WOODZ OO-LI World Tour quebram paradigmas integrados profundamente à tradição da indústria asiática. O sentimento é mesmo de rebeldia através da auto expressão: saindo do show de WOODZ, o espectador se pega pensando que viu um espetáculo idealizado e executado com precisão diante da visão de um artista singular, ao invés de um time de produtores e executivos que moldam essa visão em via de interesses e obsessões múltiplas.
(Não se trata de um juízo de valor entre as duas coisas, inclusive, mas de um reconhecimento da distinção entre elas.)
Mas, por outro lado… o show de WOODZ em São Paulo, na última sexta-feira, foi exatamente como você espera que um show de k-pop seja - e, talvez ainda mais profundamente, como você espera que uma boa noite de música seja, independente do gênero ou da indústria. Das muitas excelências que o cantor sul-coreano demonstrou durante a apresentação no Terra SP, talvez a mais fundamental tenha sido o seu abraço entusiástico da convenção - quando ela o serve, é claro.
Daí que WOODZ se rendeu a uma miríade de tradições populistas que deixariam os líderes de gravadoras na Coreia do Sul orgulhosos. Lendo cartazes do público, ele puxou canções não planejadas a capella (ou acompanhado por seu exímio guitarrista, astro de uma mão cheia de solos durante o show); recebeu - e, depois, devolveu - óculos escuros, celulares e bichinhos de pelúcia dos fãs; exercitou o português enferrujado de sua infância no Brasil, incluindo em uma palhinha da perene favorita “Ai Se eu Te Pego”; e entoou a fofíssima b-side “Multiply”, que enquadra a sua relação com os fãs como um namoro à distância (“Eu e você, um-a-um/ Quero passar um tempo com você, garota/ Vou voar para o outro lado do mundo/ Para ficar perto de você”).
Se os clichês do k-pop estavam bem ensaiados, WOODZ também tratou também de obedecer a algumas convenções mais universais, ignoradas frequentemente demais por artistas contemporâneos de todas as nacionalidades. Dos pancadões emocore do seu disco Colorful Trauma aos rocks de arena reflexivos do mais recente OO-LI, passando pelos R&B’s e hip hop’s de investidas predecessoras - todas as versões ao vivo da turnê atingiam um ápice musical muito claro, normalmente sinalizado por uma parada instrumental que nos levava a um último refrão catártico.
É um truque simples de estrutura, mas funciona. O jornalista britânico Tony Parsons uma vez disse que ver Bruce Springsteen no palco era como “ver a sua vida passando na frente de seus olhos - mas, ao invés de morrer, você está dançando”. Qual foi a última vez que você sentiu isso? Você se lembra de como é bom? Esse é o tipo de liberação que a música ao vivo pode prover - e deveria, sempre, prover.
Foi o que WOODZ fez, com seus agudos estratosféricos impecavelmente afinados, que desciam para seu tom anasalado de rap sem perder uma única batida. Foi o que sua banda fez, na execução virtuosa que transformou “Sour Candy” em um rockabilly à la “Estúpido Cupido”, acelerou o refrão de “Trigger” para transformá-la numa pancada country, e criou paredes de guitarra para apoiar a apoteótica e sentida “Drowning”. Foi o que esse grupo de artistas conseguiu encontrar, enfim, na busca hedonística pelo ponto pacífico entre rebeldia e convenção.
Editar comentário
Excluir comentário
Confirmar a exclusão do comentário?
Comentários (0)
Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.
Faça login para comentar e avaliar
Compartilhe sua opinião, publique críticas e participe das discussões com a comunidade Omelete.Escrever comentário