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Piolhices & afins

Pensamentos aleatórios III

RM
09.05.2003, às 00H00.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H40

O Aranha no WTC

PENSAMENTOS ALEATÓRIOS III

Desde que assumiu os roteiros da mais antiga revista do Homem-Aranha, J.M. Straczynski tornou-se quase uma unanimidade entre os fãs do Cabeça de Teia. Sua chegada prometia novos ares capazes de afastar o herói dos dramalhões mexicanos, que marcaram a era do escriba anterior, o medíocre Howard Mackie.

E não é que Straczynski cumpriu mesmo as expectativas!

Seu Homem-Aranha supera, sob todos os aspectos, o de seu antecessor e, fora dois deslizes - a (nova) mexida na origem e aquela bobagem em torno do atentados do WTC - o título Amazing Spider-Man voltou a ser um gibi que merece ser lido. Como resultado, pela primeira vez em muitos anos, as duas principais publicações do Aracnídeo hoje estão bem encaminhadas. É que, havia meses, a outra série do sobrinho da Tia May, Peter Parker: Spider-Man, já estava nas mãos competentes de Paul Jenkins.

Jenkins assumira a encrenca quando o Aranha andava mal das pernas. Mackie escrevia os dois títulos. De cara, o recém-chegado recuperou um elemento perdido naquelas páginas: o humor. Qualquer um dos seus roteiros traz aquele clima agradável das histórias clássicas. Mesmo sem ter repetido, em Peter Parker, o mesmo brilho de Inumanos, sua abordagem caiu como uma luva nas andanças do herói. Muitas vezes, os argumentos de Jenkins até superam os de seu colega. Foi o que ocorreu no mês silencioso da Marvel, quandoA mímica de um crime (Homem-Aranha 13) tem um desenrolar mais primoroso do queEnquanto isso... de Straczynski (Homem-Aranha 14). A tal gangue de mímicos criminosos nos remeteu às deliciosas histórias que o brilhante J.M. DeMatteis escrevia quando dava um tempo nas tramas psicológicas. Os leitores mais antigos sabem do que estou falando. Quem leu não se esquece de figurinhas carimbadas como a Coelha Branca ou os Desajeitados? (Clique aqui se não tem nem idéia do que eu estou falando).

Para fechar com chave de ouro, tal qual The Uncanny X-Men e New X-Men, os dois gibis do Aracnídeo têm cronologias paralelas que não se conflitam. Desta forma, Jenkins e Straczynski podem criar suas mitologias próprias em torno da personagem.

Algumas semanas atrás, li, num site especializado, uma excelente entrevista com outro roteirista que dispensa apresentações, Mark Millar, o escocês que está à frente de dois dos mais bem-sucedidos títulos Marvel dos últimos tempos: Ultimate X-Men e Ultimates (No Brasil, Os Supremos).

Desde que foram lançados, esses gibis foram aclamados pela crítica e pelo público, fato que, com certeza, engorda o bolso do escritor. Muita gente, na mesma situação, desejaria prolongar sua permanência no cargo ao máximo. Pois não é o caso de Millar. Ele afirmou que, aceitou a incumbência, com data marcada para tirar o time de campo: The Ultimates (26 edições) e The Ultimate X-Men (33) e disso, não arreda o pé. Garantiu também que não pretende voltar às revistas depois de deixá-las e que, se o fizer, levará muito tempo entre uma fase e outra.

É tudo questão de coerência. Millar vem da mesma escola britânica de Grant Morrison e Garth Ennis, escritores que planejam com antecedência o que pretendem ao encarar um gibi. Não tenho como aplaudir mais essa postura. Sabendo aonde quer chegar, o escritor tem uma idéia clara de como preencher as lacunas da trama que estipulou antecipadamente. É mais ou menos com um romance, mas editado mês a mês. Via de regra, quando escritores assim vão embora, deixam uma publicação revigorada e pronta para ser assumida por outro profissional. Com isso, não se vê aquele clima de acomodação que acomete quadrinhistas, anos e anos à frente de um mesmo título.

Por essas e por outras, eu sou favorável a um rodízio maior de profissionais, principalmente nas revistas estreladas por grandes ícones. A coisa toda funcionaria como um incentivo. Diante da oportunidade de escrever um título como o do Batman por, sei lá, um ano, o novo roteirista estaria diante de duas possibilidades: provar ser merecedor de prosseguir ou cair fora, desocupando a moita pra outro tentar. Nos dois casos, quem sai ganhando é sempre o leitor.

E por hoje é só. Mês que vem, eu volto.

A Piolhices & Afins desse mês foi escrita ao som de Dawn of victory, terceiro álbum dos italianos do Rhapsody, de The dark saga, dos americanos do Iced Earth e de Vision Divine, debut do projeto italiano que leva o mesmo nome.

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