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Parênteses: Um ano de Panini Comics

Parênteses: Um ano de Panini Comics

Érico "Orph" Assis
10.01.2003
01h00
Atualizada em
29.06.2018
02h40
Atualizada em 29.06.2018 às 02h40

Foram quase 120 edições, uma média de dez revistas por mês. Estranho para quem viu aquelas seis séries mensais em janeiro, sem nenhuma idéia da expansão que viria pela frente.

Se você está por fora, comece por aqui: a editora italiana Panini assumiu a publicação dos quadrinhos Marvel no Brasil no fim de 2001. Lançou 6 séries mensais em janeiro de 2002, seguidas por uma enxurrada de especiais e mini-séries ao longo do ano. Em dezembro, adicionou a linha DC Comics com três séries mensais e mais especiais e mini-séries. Foi um ano bastante produtivo.

Analisei o lançamento da linha Panini na época. Vamos ver aqui o que restou das críticas e elogios daquela época.

DIMENSÕES


Homem-Aranha 1, a
primeira revista da Panini


Quarteto Fantástico,
formato econômico


Marvel Apresenta:
histórias completas


Quarteto Fantástico 1234

O novo Capitão América

Os Supremos

Em dezembro começou a DC Comics, com Batman 1

Os maiores clássico do
HA, a primeira coletânea
da editora


Eu havia comparado o novo formato Millenium ao formato Premium, até então utilizado pela editora Abril. Acho que todo mundo já se esqueceu das Premiuns (e daqueles horríveis formatinhos finos que vieram depois), então a comparação é irrelevante. A Panini apresentou um novo padrão de qualidade ao mercado de quadrinhos brasileiros que ainda não foi seguido por outras editoras nacionais (é só notar a queda na qualidade das produções da Pandora, por exemplo).

Já no segundo mês de existência, a Panini veio com novidades: colocou um papel mais grosso nas capas das revistas, tornando-as mais resistentes. No segundo semestre, adotou o formato econômico, criação da Mythos, para algumas séries e mini-séries.

Como eu havia apontado no primeiro mês, tais diferenças de tamanho distorcem os quadrinhos originais, que parecem perder o detalhamento. Porém, ao mesmo tempo que a ampliação prejudica os desenhos de um Steve Dillon (Justiceiro), beneficia a arte de um John Cassaday (Capitão América) e de um Bryan Hitch (Supremos, Liga da Justiça). Por outro lado, com a linha econômica, tivemos Richard Corben (Marvel apresenta 3) em formato reduzido. É impossível agradar todo mundo.

FORMATO

Continua o problema que levantei no primeiro mês. O formato de 100 páginas por edição dificilmente permite publicação de sagas fechadas. Enquanto houve um certo cuidado para diminuir os continua na próxima edição em Homem-Aranha e X-Men, eles estão praticamente em todas as histórias de Paladinos Marvel, Marvel 2002, Liga da Justiça, X-Men Extra... Nesse sentido, o lançamento de Marvel apresenta, em agosto, foi ótimo para dar espaço a mini-séries e outras publicações especiais originais, mas ainda não soluciona o problema.

Como um aumento no número de páginas ou outras mudanças editoriais bruscas são improváveis, o próximo passo da Panini deveria ser apostar nas coletâneas. Para o leitor que não quer acompanhar somente uma série de uma revista com quatro outras, poderia ser lançada uma edição única com toda Quarteto Fantástico: 1234 (publicada em Paladinos Marvel), Fury (também de Paladinos Marvel), as primeiras edições da nova X-Force (de X-Men Extra) ou a saga Arma X (Marvel Millenium).

É uma adaptação que favorece não só ao mercado dos leitores ocasionais, mas também à forma de produção atual de grande parte dos quadrinhos americanos: longa serialização na série mensal, voltada para futuras coletâneas. Estas, inclusive, dirigem-se não só para bancas, mas principalmente livrarias.

CONTEÚDO

A Panini atingiu um grande objetivo: a maioria das séries Marvel já alcançou a fase em que Joe Quesada tornou-se editor-chefe e mexeu em todos os quadrinhos da editora, geralmente com mudanças positivas. Chegamos rápido ao Homem-Aranha de J.M. Straczynski, aos X-Men de Grant Morrison e à X-Force de Peter Milligan, e o Demolidor de Brian Bendis já está batendo na porta. O novo Capitão América e Os Supremos, os dois últimos sucessos da Marvel americana, chegaram aproveitando o hype lá fora, mas talvez sejam prematuros. Estão com várias edições atrasadas nos Estados Unidos, o que pode prejudicar a publicação por aqui.

Cortes foram evitados ao máximo, mas vieram. A Panini livrou-se do Capitão América de Dan Jurgens (que já foi tarde) e, quase sem ninguém notar, de algumas edições do Incrível Hulk de Paul Jenkins (cujo trabalho com o verdão já acabou; não faria mal avançar até a elogiadíssima fase de Bruce Jones com o herói). Enquanto isso, aberrações gritantes como as fases atuais de Cable e Homem-de-Ferro continuam pedindo para terem edições suprimidas em favor de fases novas.

Decisões interessantes parecem ter vindo de pedidos dos leitores: o Quarteto Fantástico de Carlos Pacheco e o Capitão Marvel de Peter David vieram em uma nova série. Arqueiro Verde saiu enquanto ainda é sucesso nos Estados Unidos, e personagens como Deadpool estão voltando. Trabalhos de sucesso como Liga da Justiça: escada para o céu e Batman: vitória sombria, ignorados pela Abril, são finalmente publicados.

Ainda temos que ver como a Panini vai lidar com a avalanche de lançamentos que é a produção mensal da DC Comics americana, pouquíssimo representada nas três séries lançadas aqui. Houve decisões editoriais interessantes, como aproveitar histórias de Mark Waid na Liga da Justiça esquecidas pela Abril e, possivelmente, até a publicação de Action Comics 775 em Superman (uma das histórias mais elogiadas do azulão nos últimos anos). A DC faz quadrinhos demais, e o trabalho da Panini brasileira está em selecionar bem esse material.

Ainda no campo da DC, é bom ver como a Mythos beneficiou-se da relação com a Panini. A editora paulista é a oficina de produção de quadrinhos da italiana no Brasil. O número de edições especiais e mini-séries DC pela Mythos cresce a cada mês, atendendo pedidos do público LJA: the nail e Terceira guerra mundial e cavando material interessante Super-Homem: Transilvânia e Sociedade da Justiça: O Dossiê Liberdade. Vamos ver como será essa relação em 2003.

PREÇO

Você teria que estar completamente alienado do mundo para não desconfiar que as revistas subiriam de preço logo, logo. O presente de Natal da Panini foi aumentar os preços de suas revistas em até 20%. O valor de R$ 7,50 é alto, mas a relação custo-benefício ainda é a melhor de todas as editoras nacionais. Os preços de editoras como Brainstore e Opera Graphica ficam cada vez mais assustadores.

OUTROS

Há muitos outros errinhos e acertos da Panini a comentar, mas vou me concentrar em apenas dois: a distribuição e o novo website.

Estou fazendo esta avaliação ser ter visto nas bancas da minha cidade (Pelotas, interior do Rio Grande do Sul) as duas últimas edições de 2002: Arqueiro Verde 2 e Marvel apresenta 3. E, quando encerro a redação deste artigo, já estamos no dia 9 de janeiro. E onde diabos está Os Maiores Clássicos Do Homem-Aranha, lançado em novembro? Por que os dados sobre a distribuição e o preço deste não foram revelados até a última hora? São detalhes que a editora deixou passar, e não se preocupou em corrigir.

E por que diabos trocar um bom website, funcional e completo, por outro feio, desatualizado e fraquíssimo? Isso pode parecer um auto-elogio, já que o website original da Panini era produzido pelo próprio Omelete, mas qualquer um percebe as vantagens do primeiro em relação ao atual. Se alguém realmente encontrar algum ganho no novo website, por favor me avise.

A Panini continua sendo a melhor editora nacional, e provou ser um avanço de anos-luz em relação a sua predecessora, a editora Abril. Há erros a corrigir, várias coisas a mudar, mas, em 2002, a editora provou que está em constante mutação, adaptando-se ao mercado e ouvindo os leitores. Que 2003 torne isso uma tradição.