Por que o Homem-Aranha de Sam Raimi ainda é o melhor filme do herói

Créditos da imagem: Columbia Pictures/Divulgação

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Por que o Homem-Aranha de Sam Raimi ainda é o melhor filme do herói

Filme de 2002 estabeleceu padrões de história de origem e ousou ser fofo

Julia Sabbaga
23.10.2019
16h07

Hoje em dia é difícil imaginar um mundo sem filmes de herói. A era do domínio do MCU e a crescente diversidade de estilos destes longas é resultado de um poder comercial gigante que talvez fosse bem diferente se não fossem alguns lançamentos do início dos anos 2000. Na virada do milênio, o cinema de herói era escasso mas não inexistente, e dava seus primeiros passos para um futuro grandioso com o lançamento de Blade (1998) e X-Men (2000).

Mas foi Sam Raimi e o seu Homem-Aranha em 2002 que exemplificaram o potencial comercial do gênero. Quando ele se tornou o primeiro filme a superar US$ 100 milhões no final de semana de estreia, a indústria brilhou os olhos com um futuro novo e promissor. Estabelecendo padrões de histórias de origem de super-heróis, a produção está longe do que o gênero se tornou, mas ele traz elementos únicos que seriam muito bem-vindos nos filmes atuais.

Celebrando o aniversário de 60 anos de Sam Raimi, descrevemos abaixo por que o seu Homem-Aranha permanece como um clássico dos filmes de herói:

A direção

Um dos fatores mais chamativos do Homem-Aranha de Sam Raimi é que ele é de Sam Raimi. Enquanto grande parte dos filmes de herói atuais procuram esconder a identidade dos cineastas por trás das câmeras, o filme de 2002 tem um visual característico, construído pela impressão de Raimi em todo lugar. Cenas marcadas pelo ponto de vista do personagem, sequências com grandes sombras e um certo tom de terror – gênero pelo qual Raimi é mais conhecido – são visíveis por toda trilogia.

Até os easter eggs de Homem-Aranha são menos relacionados aos quadrinhos do que ao próprio Raimi. No longa, o tio Ben dirige o Oldsmobile Delta 88, carro da juventude de Raimi, que foi incluído em todos os seus filmes. Bruce Campbell, protagonista de A Morte do Demônio (1981), apareceu nos três filmes, como anunciador do ringue de luta-livre no primeiro filme, o segurança do teatro no segundo, e o maitre do restaurante no terceiro.

A distinta direção de Sam Raimi dá um carisma à trilogia de Homem-Aranha que é raramente visto hoje em dia, e certamente contribui para que os filmes tenham tanta personalidade. Não é à toa que o MCU é elogiado quando dá mais liberdade e exibe a identidade de seus diretores, o que aconteceu em longas como Guardiões da Galáxia, de James Gunn, ou Thor: Ragnarok, de Taika Waititi.

Sem medo de ser brega

Um dos fatores mais memoráveis deste Homem-Aranha é que, mais do que grandioso ou tecnológico, ele é comovente. Peter Parker teve o seu jeito esquisito nas três versões vistas no cinema – com Andrew Garfield e Tom Holland além de Maguire – mas foi no filme de Raimi que o desconforto adolescente do herói foi feito com mais graça. O Peter Parker de Tobey Maguire é intenso, romântico e fofo, e sua jornada é marcada por momentos realmente emotivos.

Seja na morte do Tio Ben, no primeiro beijo com MJ, ou a comovente cena do trem no segundo filme, quando os cidadãos de Nova York se colocam na frente do herói para defendê-lo, a trilogia do diretor não foge de momentos emocionantes, sem precisar emendá-los com um momento descolado ou engraçado para descontrair do sentimento da cena.

A trilogia pode ter levado isso longe demais no terceiro filme, lembrado para sempre pela sequência de dança de Peter Parker, e por mais que a cena (e o filme) tenha desagradado os fãs, isso é resultado de uma ousadia muito digna de não ter medo de ser brega.

O lado ser humano do super-herói

Nos filmes de Raimi, o Homem-Aranha mascarado não domina a história. Estes longas são mais aprofundados em Peter Parker do que no seu elemento heroico. Além de lidar com os seus poderes surreais, Parker tem conflitos totalmente terrenos: ele lida com problemas financeiros, perde seu emprego, não consegue conciliar sua vida de super-herói com a faculdade, e o aspecto humano de tudo isso é explorado muito bem. É a humanidade do Homem-Aranha que chama atenção nos filmes do diretor, e não seus super-poderes. É por isso que o filme funciona tão bem (e também) como um drama adolescente, mais do que um “filme de super-herói”.

No segundo longa há um momento perfeito para exemplificar isso, quando Peter encontra a carta de despejo da Tia May, no seu aniversário. Existe uma problemática real na cena que nada tem a ver com os poderes de Peter. E vê-lo aceitando os US$ 20 dólares de presente da tia, apesar dos problemas financeiros dela, é um momento realmente comovente.

Cenas de ação

Mesmo com toda emoção envolvida, a trilogia de Sam Raimi também é admirada por cenas de ação brilhantes, que mesmo com a grandiosidade das batalhas do MCU, ainda estão entre os melhores momentos do Homem-Aranha nas telas. A cena do trem do segundo filme, que começa com uma batalha com o Doutor Octopus no meio da cidade e se encerra com o icônico momento em que o herói, sem a máscara, consegue parar o trem antes que ele caia dos trilhos, tem uma dinâmica acelerada perfeita.

E apesar do segundo filme ser mais relembrado, ótimas cenas de ação estão presentes nos três filmes de Raimi (sim, nos três). O final do primeiro filme, com o confronto final com Duende Verde na ponte, a última batalha com Doc Oc no segundo, ou o momento em que Eddie Brock se torna o Venom no último filme são cenas que transmitem uma intensidade real (mesmo em um filme que desliza em diversos aspectos).

O elenco (e o J.K. Simmons)

Além de ter acertado no tom, na direção e na escolha das histórias, Sam Raimi acertou em cheio ao escalar Tobey Maguire como seu protagonista. Contrariando as opiniões do estúdio, Raimi insistiu na escalação e conseguiu um ator que, apesar de claramente velho demais para estar na escola, transmitiu muito bem ternura, pureza, esquisitice e conflito.

O duende verde de Willem Dafoe, assim como o Doutor Octopus de Alfred Molina, também são inesquecíveis, e combinaram tão bem com seus papeis que seria difícil ver os vilões interpretados por outros nomes no cinema. Completados pela Mary Jane de Kirsten Dunst e o Harry Osborn de James Franco, o elenco da trilogia de Sam Raimi encaixou perfeitamente com seus personagens.

Além de tudo isso, ninguém conseguiria lembrar dos primeiros filmes do Homem-Aranha sem mencionar o roubador de cena J.K. Simmons. O seu J. Jonah Jameson, uma figura à parte, é uma criação perfeita que eleva o humor do filme e marca como um dos melhores elementos da trilogia, facilmente.

A trilha sonora

Depois de trabalhar na trilha sonora de Batman (1989), Danny Elfman foi chamado para trabalhar novamente com Raimi, com quem já tinha colaborado em Darkman: Vingança sem Rosto e Um Plano Simples. O que Elfman criou para o personagem foi dois temas diferentes, um para Peter Parker e outro para o Homem-Aranha. A ideia funcionou transmitindo perfeitamente a grandiosidade do super-herói e a vulnerabilidade do humano. Um dos exemplos mais chamativos está no fim do primeiro filme, quando Parker aceita sua responsabilidade e a orquestração cresce.

O tema de Elfman é memorável, e a sua ausência no terceiro filme da trilogia (após um conflito com o diretor durante a produção do segundo) certamente fez falta. 

Com grande poder vem grande responsabilidade

Existe um código moral claro que guia a jornada de Peter Parker nos filmes de Sam Raimi muito mais do que nas outras versões do herói no cinema. Ao introduzir a história de origem do herói (criando fórmula para histórias de origens que viriam desde então) e apresentar as inesquecíveis palavras do Tio Ben, “com grande poder vem grande responsabilidade”, Raimi apresentou o lema que deu rumo à jornada de Peter Parker. As histórias dos dois filmes funcionam tão bem porque elas são guiadas por isso.

Não apenas Peter Parker como os dois vilões que ele enfrenta nos primeiros filmes fazem parte deste rumo. O que funciona perfeitamente no filme de 2002 e 2004 é que tanto o Duende Verde quando o Doutor Octopus enfrentam o mesmo dilema que Peter. Eles adquiriram grandes poderes, mas não lidaram com suas responsabilidades, o que faz dos dois os antagonistas que completam o arco de Peter. Talvez o problema do terceiro filme tenha sido exatamente este, a falta de um antagonista tão bem construído.

Trilhar uma jornada humana como esta é o que fez do Parker de Tobey Maguire inesquecível. Ele é o garoto que enfrenta problemas humanos como os nossos e consegue se tornar o herói que gostaríamos de ser. Mesmo com as tentações - retratadas muito bem na vontade de Peter de viver uma vida normal -, Parker completa um arco e se torna um herói de verdade e um exemplo, ao aceitar suas responsabilidades.