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Entrevista

Homem-Aranha: De Volta ao Lar | "O maior desafio foi mantê-lo jovem e com seu fôlego", diz dublador de Tom Holland

Wirley Contaifer fala sobre experiência de fazer a voz do herói

Rodrigo Fonseca
06.07.2017
13h06
Atualizada em
29.06.2018
02h40
Atualizada em 29.06.2018 às 02h40

Considerado um dos nomes de maior talento da ala jovem da dublagem brasileira, o ator Wirley Contaifer levou para a versão brasileira de Homem-Aranha: De Volta ao Lar uma experiência afetiva bem similar à que delineia o caráter de Peter Parker nas HQs e nas telonas: assim como o alter ego do Aracnídeo, ele vem de uma periferia. O charme suburbano do Queens não é muito diferente do clima de Duque de Caxias, o município da Baixada Fluminense onde o dublador nasceu. Mas não é só de vivências que ele tirou as referências para compor a voz de Tom Holland no blockbuster em que o Aranha encara o Abutre (Michael Keaton, dublado no Brasil por Garcia Júnior). Na entrevista a seguir, Contaifer explica o que é estar (ainda que virtualmente) sob o teioso uniforme do Amigão da Vizinhança.  

Omelete: Qual é a responsabilidade de dar voz a um dos filmes mais esperados do ano, com um dos heróis mais amados das HQS?

Wirley Contaifer: Muito maior do que um arranha-céu de onde o Aranha poderia se lançar, em alguma cena para não esquecer, e muito além de qualquer definição existente. A sensação que tenho é de que essa resposta está entre palavras, que de tão absolutas e exatas, ainda não foram sequer inventadas. O Homem-Aranha sempre me fez piscar os olhos o mínimo possível quando ele se jogava de um lado a outro em seus filmes; ele sempre foi um dos meus heróis prediletos. Ser a voz brasileira do Peter me faz projetar um número incontável de pessoas - tal como é - que apostam um grande número de fichas no que existe de novo por trás do recomeço do personagem com e sem uniforme, na vez de Tom Holland e mais uma vez embarcado no cinema. Se eu pudesse me comparar ao Homem-Aranha para traçar uma resposta à essa pergunta, certamente eu me sentiria como a primeira vez em que ele se lançou ao desconhecido, acreditando que sua teia tinha as melhores intenções de alcance, assim como ele mesmo... Assim como eu mesmo. Eu sou um “acreditador” como o próprio Peter é, e eu acho que o fato de eu não me cansar de acreditar que tudo vai ficar bem e dar certo é maior do que qualquer coisa.

Omelete: Que especificidades você nota na voz de Tom Holland e qual o maior desafio de dublá-lo?

Contaifer: Tom tem um tipo de voz ímpar, indiscutivelmente; sua voz é mesmo de um moleque, como alguém jovem demais que dispara a crescer somente. Ele não carrega um registro grave e manjado de voz, conhecidamente presente em atores de sua idade e característico na indústria cinematográfica, em sua maioria. Sua voz imprime sua história, enquanto ele desafina sem hesitar e brinca de subir e descer a voz, toda vez que isso se faz necessário nas intenções que ele emprega em cena; ele tem a idade que o personagem tem (e qualquer outra que ele precise, aposto), principalmente em Homem-Aranha: De Volta ao Lar (em Capitão América: Guerra Civil também não foi diferente). Eu o julgo ilimitado não só por suas capacidades cênicas, mas pela forma que ele expressa as linhas que decora, corporal e vocalmente. Em minha vez de "reescrever" suas falas, eu o escutei algumas vezes e depois de um tempo ensaiei suas cena, ouvindo ele no fone de ouvido e me lancei à vez de gravar, quando me senti mais seguro para isso. Em observação, penso que o maior desafio que tenho enquanto dublador do Homem-Aranha é justamente dar sequência à verdade que ele iniciou, enquanto filmava e mantê-lo jovem e igualado ao seu fôlego em cena e a tudo que envolva isso. Mas a dublagem se trata disso mesmo: ser ponte para uma história terminar de ser contada e principalmente, da melhor maneira possível.

Omelete: Os filmes anteriores da franquia servem de referência ao trabalho de dublagem? Como? Como se preparar para este filme?

Contaifer: Todos os elementos pertencentes ao personagem são base de continuidade para sua história, eu observo. Da mesma forma que uma escada só é uma escada a partir dos seus degraus, um super-herói é feito de seus acontecimentos, de sua história como um todo, da primeira HQ ao último filme, como é o caso de Homem-Aranha, nessa colocação. Não por acaso, acabei sendo dirigido pelos dois dubladores anteriores do personagem nos live-actions de cinema: Manolo Rey, voz de Tobey Maguire, da primeira trilogia, me dirigiu em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, e Sérgio Cantú, voz de Andrew Garfield, voz do segundo Aranha, foi quem me dirigiu no primeiro projeto que gravei enquanto voz de Tom Holland, em Capitão América: Guerra Civil. Isso montou uma experiência indescritível pra mim, uma vez que construíamos um terceiro Homem-Aranha na dublagem dele, enquanto as vozes anteriores do herói pontuavam e acrescentavam bases e histórias pertencentes às suas vezes de também terem "lançado suas teias". Logo, à parte de ler HQs do Homem-Aranha e de ler e ouvir ao máximo sobre ele, assim como estudar a voz de Holland em vídeos disponíveis na internet, as primeiras vozes do "Aranha" foram minha principal preparação para a continuidade do personagem e para torná-lo firme e heróico, como sempre foi. Como um complemente, ambos, Manolo Rey e Sérgio Cantú, foram quem me separaram algumas palavras antes de eu gravar meu teste para o ingresso do Tom, no Universo Cinematográfico da Marvel. Acho que o segredo de tudo foi realmente “não ter contado pra Tia May”, conforme sugeriu o Peter ao Tony Stark, em um momento de Guerra Civil, o filme.

Omelete: Como vem se construindo sua carreira na dublagem?

Contaifer: Nasci em (21 de) setembro de 1990, na minha “Queens”, em Duque de Caxias, cidade da Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. (...) Eu comecei a dublar em maio de 2005, aos 14 anos, na Audio Corp, com direção de Ricardo Schnetzer, na condução de um longa épico chamado Cruzada. Nele, eu fiz umas participações expressas. Mais à frente, enquanto caminhava pela construção de minha carreira e seguia em frente, trouxe às costas a responsabilidade de vestir um casco de Tartaruga Ninja, quando essa história passou a ser contada mais uma vez também. Nesta versão, em um lançamento original de 2014, eu fui a voz da Tartaruga mais moleque e de lustrosa máscara laranja, o Michelangelo. Eu voltaria a ser sua voz mais uma vez na continuação do longa anterior, denominado Fora das Sombras em seu segundo volume e em uma participação em um episódio do desenho em Os Jovens Titãs Em Ação!. Foi principalmente a partir deste herói-quelônio que eu vi a proximidade das crianças, principalmente, como alguém que "andava de skate e dizia 'Santa Tartaruga' com a felicidade de um menino, mesmo não sendo um fisicamente falando". Quando tive que me definir em alguns caracteres em minha conta no Instagram (@WirleyContaifer), eu me auto-denominei "Metade Tartaruga-Ninja/Metade Homem-Aranha", sendo o que eu brinco dizer "a segunda da espécie", uma vez que Manolo Rey já viveu o mesmo (sendo a Tartaruga Ninja Leonardo na primeira animação criada). Após o embarque do Homem-Aranha em minha carreira e vida, fui testado e aceito como parte do elenco de dublagem de uma animação musical chamada Sing - Quem Canta Seus Males Espanta. Dessa vez, fui inacreditavelmente a voz de uma senhora iguana, no alto de sua sensibilidade e feminilidade; havia sempre um batom rosa em sua boca e um vestido florido sobre seu corpo, à parte do tremor de sua voz, apontando sua fragilidade e idade avançada. Seu nome na animação era Kiki e coincidentemente, fui dirigido por Manolo Rey neste e em As Tartarugas Ninja também. Acho que uma palavra certa pra sintetizar todas essas experiências expostas seria "animal", sem pensar duas vezes.