Hellboy

Créditos da imagem: Dark Hourse/Divulgação

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Artigo

Hellboy | Mike Mignola e os 25 anos de sua criação

De brincadeira em convenções, o Garoto do Inferno se tornou um dos ícones dos quadrinhos autorais nos EUA

Érico Assis
02.08.2018
17h52

Para os padrões do mercado de quadrinhos dos EUA, Mike Mignola é muito lento. Na sua primeira década como profissional, os anos 1980, suas colaborações com Marvel e DC resumiram-se a uma minissérie ou arte-final aqui, umas capas ali. Não era o cara para assumir uma revista mensal, até pelo seu estilo sombrio e expressionista. Mas podia encarar um projeto com prazo longo, como a minissérie Odisseia Cósmica, que saiu pela DC em 1988.

Odisseia Cósmica teve certo sucesso na época, o que tornou Mignola um nome na indústria. Nas convenções nos EUA e pelo mundo, quando os fãs vinham pedir um sketch, o artista desenhava rapidinho um demônio de chifres serrados e cara de mau. Sem pensar muito, chamava-o de Hellboy.

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Veio a década seguinte, época de vacas gordas nos quadrinhos dos EUA, e com ela uma debandada de autores famosos para editoras que lhes dessem chance de manter os direitos sobre o que criavam. Na Dark Horse Comics, Frank Miller fez Sin City, John Byrne foi de Next Men e Mignola entrou na lista de convidados para o selo Legend. Que tal dar uma série ao tal "garoto do inferno"?

A Dark Horse botou quatro páginas de Hellboy na San Diego Comic-Con Comics #2, revista que distribuiria na famosa convenção. O amigo Byrne ajudou-o no roteiro, pois Mignola não estava seguro em fazer uma história inteira sozinho. Era agosto de 1993, e a revista teve tiragem ínfima de 1.500 exemplares. No início do ano seguinte, saiu Hellboy: Sementes da Destruição, a primeira minissérie oficial, com Byrne também auxiliando nos roteiros.

Hellboy chegava ao resto do mundo. Aos poucos, a imagem da criatura vermelha vestindo sobretudo, com dois discos na testa onde havia seus chifres - que Hellboy serra para renegar sua origem demoníaca e sua profecia de portador do apocalipse - e a Mão Direita da Perdição ao mesmo tempo ameaçadora e cartunesca, começou a se popularizar.

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Na sua cronologia própria, Hellboy chegou ao mundo em 1944, num experimento do monge Rasputin (baseado no místico russo de mesmo nome) a serviço do regime nazista. Embora fosse filho do demônio Azzael, "parido" pelos ocultistas do quase derrotado Terceiro Reich, Hellboy acabou adotado por um acadêmico britânico e criado entre os Aliados, no Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal. A ambientação era a desculpa de Mignola para desenhar Hitler e Cia., os vilões preferidos dos EUA, e máquinas gigantes, monstros lovecraftianos e tudo mais que o quadrinista curtia.

Byrne incentivou Mignola a assumir sozinho os roteiros - para tornar o personagem realmente do seu criador. Agora escritor-desenhista, o pai de Hellboy recorreu a outra paixão: mitos, lendas, folclores e contos de fadas de culturas distintas. A cria infernal enfrentaria - ou já tinha enfrentado, em cinco décadas de atividade do seu mundo fictício - monstros, fantasmas e assombrações de várias regiões do mundo.

Como todo quadrinho de autor e sem super-herói convencional, Hellboy não era um estrondo de vendas. A arte de Mignola certamente chamava - e chama - atenção entre os entendidos, o que lhe valeu a publicação em países da Europa e até no Japão. No Brasil, a primeira minissérie do personagem chegou em 1998, quando lá fora já colecionava outras duas, mais histórias curtas e participações especiais.

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Lento na criação e bem instruído quanto ao marketing, Mignola começou a oferecer seu personagem para crossovers com outros heróis - o que inteligentemente passou a impressão de que Hellboy tinha mais renome do que de fato ostentava. Encontrou em HQs a justiceira Ghost, o Savage Dragon de Erik Larsen, Painkiller Jane, além de Batman e Starman. Também ganhou versões cômicas, como Hellboy Junior, entregue ao cartunista Bill Wray, e derivações - o Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal, Abe Sapien, Lobster Johnson e outros coadjuvantes começaram a estrelar especiais e minisséries.

Nos fins dos anos 1990, já se falava no filme de Hellboy, obra dos bons contatos da Dark Horse com Hollywood. Em 2001, Guillermo del Toro, o diretor mexicano que recuperara a carreira com o terror A Espinha do Diabo e que voltava aos EUA com Blade II, estava reunindo-se com Vin Diesel para encarnar o garoto do inferno. O primeiro Hellboy cinematográfico acabou acontecendo em 2004, com Ron Perlman no papel principal, boa recepção da crítica e retorno considerável de bilheteria - o que garantiu uma sequência, lançada em 2008 e com sucesso ainda maior.

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Diretamente envolvido nos filmes, Mignola ficou com tempo ainda mais escasso para a prancheta. Após O Despertar do Demônio, O Verme Vencedor e um punhado de histórias menores, o artista manteve-se como roteirista mas entregou os desenhos de minisséries como O Clamor das Trevas e Caçada Selvagem ao inglês Duncan Fegredo - forçado a imitar, dentro do possível, o estilo do chefe. De outro lado, o veterano Richard Corben foi convidado a desenhar outras minisséries e especiais do garoto infernal, algumas situadas no passado do personagem.

Só em 2012 Mignola conseguiu voltar à prancheta para dedicar-se ao personagem, com Hellboy in Hell, mas  agora ele se dedica inteiramente a criar uma nova versão cinematográfica para o herói com David Harbour no papel principal. O novo longa terá como base a trama Rise of The Blood Queen e, nos quadrinhos, a Rainha de Sangue é Nimue, a maior de todas as bruxas britânicas, que viveu na era arthuriana e era amante de Merlin. Ela usou essa afeição para aprender os truques do mago e depois aprisioná-lo. Sem Merlin, porém, Nimue enlouqueceu, e sua loucura era tamanha que todas as outras bruxas julgaram melhor matá-la, esquartejá-la e espalhar os pedaços de Nimue pela Terra.

A narrativa principal de Hellboy nos quadrinhos soma pouco mais de 60 revistas nestes 25 anos - sendo que Mignola escreveu todas, mas desenhou menos da metade. Já as séries derivadas, como B.P.R.D., já passam das 100 edições, ou o dobro se forem considerados especiais e minisséries com outros coadjuvantes (Mignola co-roteiriza a maioria). Fora os dois filmes, Hellboy também virou longas de animação, mais de dez livros de prosa (três deles antologias por vários autores), videogame e RPG.

O criador segue afirmando que tem um fim planejado para seu personagem desde o início, mas que não tem previsão de quando vai chegar lá; em 2008, disse que ia levar pelo menos mais 15 anos. Ou seja: temos pelo menos mais alguns anos de quadrinhos de Hellboy pela frente. Feliz aniversário, Anung un Rama!