Kieu Chinh e Phanxinê Linh em O Simpatizante (Reprodução)

Créditos da imagem: Kieu Chinh e Phanxinê Linh em O Simpatizante (Reprodução)

Séries e TV

Entrevista

Atriz de O Simpatizante, Kieu Chinh foi de refugiada a estrela de Hollywood

Ela já foi par romântico de Burt Reynolds, e agora é figura materna de série da HBO

Omelete
6 min de leitura
28.04.2024, às 06H00.

Don McKellar, criador e produtor de O Simpatizante, conta que a decisão de escalar um elenco inteiramente vietnamita (com exceção de Robert Downey Jr., é claro) deu à equipe da série da HBO uma liberdade interessante: Para o público dos EUA, não existe nenhum grande astro de cinema do Vietnã que seria estranho se deixássemos de fora… bom, isso se você não contar Kieu Chinh, é claro.

O nome pode não ser exatamente familiar ao espectador brasileiro, mas Chinh se transformou em uma daquelas presenças emblemáticas em Hollywood - e pudera: ela já é figurinha carimbada em blockbusters há 60 anos. A sua primeira aparição no cinemão americano veio em Missão de Bravos (1964), drama de guerra filmado no Vietnã ainda durante o conflito, dirigido e estrelado por Marshall Thompson (ícone do cinema trash em clássicos como A Ameaça do Outro Mundo e O Horror Vem do Espaço). Como ela chegou lá, e como retornou a Hollywood após o fim da Guerra do Vietnã e anos vivendo como refugiada, é uma história digna de filme.

Kieu Chinh com Marshall Thompson em Missão de Bravos, de 1964 (Divulgação)
Kieu Chinh com Marshall Thompson em Missão de Bravos, de 1964 (Divulgação)

Nascida em 3 de setembro de 1937, em Hanói, então parte da Indochina Francesa, ela perdeu a mãe e um irmão recém-nascido em um bombardeio das Forças Aliadas à região, durante a Segunda Guerra Mundial. Anos mais tarde, com a divisão do Vietnã em dois países, controlados por forças capitalistas e comunistas, ela se separou do pai (que nunca viu novamente, descobrindo décadas depois que ele morreu destituído e sem-teto) e foi morar com um amigo da família.

Metida em um casamento arranjado com um sub-tenente das forças do Vietnã do Sul capitalista quando ainda tinha 18 anos, ela foi abordada pelo diretor Joseph L. Mankiewicz (A Malvada) do lado de fora de um hotel em Saigon em uma tarde ensolarada de 1956. Ele estava procurando uma jovem local para estrelar O Americano Tranquilo, sua adaptação do best-seller de Graham Greene sobre dois oficiais militares que disputam a afeição da vietnamita Phuong. A família de Chinh a proibiu de entreter a proposta, e o papel acabou com a atriz italiana Giorgia Moll.

A imprensa local, no entanto, ficou sabendo da história, e as manchetes que se seguiram (“Jovem vietnamita desconhecida rejeita grande diretor hollywoodiano) não pegaram bem para um governo que dependia da assistência estadunidense. Corta para 1957, e a transformação de Chinh em estrela de cinema estava completa com o lançamento da superprodução vietnamita Hôi Chuông Thiên Mu (em tradução livre, Os Sinos do Templo Thiên Mu). Dali para Hollywood, completando assim a profecia de Mankiewicz naquela tarde do lado de fora do Hotel Continental, foi um pulo.

Além de Missão de Bravos, Chinh fez par com Burt Reynolds em Contra-Espionagem em Saigon (1965), e até se arriscou em Bollywood na coprodução filipina-indiana The Evil Within (1970), consagrando-se como estrela de ação internacional quando esse conceito sequer existia no cinema. Na terra natal, fundou o seu próprio estúdio para produzir e estrelar o épico de guerra Nguoi Tinh Khong Chan Dung (em tradução livre, Pessoas Puras Não Gostam Disso), finalizado em 1971, mas censurado pelo governo do Vietnã do Sul até 1973, quando se tornou um fenômeno de bilheteria.

Kieu Chinh com Burt Reynolds em Contra-Espionagem em Saigon, de 1965 (Divulgação)
Kieu Chinh com Burt Reynolds em Contra-Espionagem em Saigon, de 1965 (Divulgação)

Outro ato de pioneirismo para uma carreira que, em pouco mais de uma década, já acumulava feitos impressionantes. Mas o ano de 1975 veio, e a Guerra do Vietnã se aproximou do fim com a vitória decisiva do Vietnã do Norte, que invadiu a capital Saigon enquanto Chinh estava filmando um novo longa na Cingapura. Depois de ver seus pedidos de refúgio negados na França, no Reino Unido e nos EUA, ela foi eventualmente aceita no Canadá, e acabou sendo obrigada a trabalhar como ajudante de uma fazenda para se sustentar nos primeiros meses no novo país.

Tentativas de contatar amigos na indústria de Hollywood (incluindo Reynolds e Glenn Ford) falharam até que a história de Chinh alcançou Tippi Hedren, a estrela de clássicos de Alfred Hitchcock como Os Pássaros e Marnie. A atriz pagou pela passagem da colega até os EUA, e a abrigou em sua casa até que ela conseguisse - também com a ajuda de William Holden, astro de clássicos como Crepúsculo dos Deuses - retomar a carreira, processo que culminou em “In Love and War”, episódio de M*A*S*H lançado em 1974, levemente baseado na história de vida de Chinh, onde Hawkeye (Alan Alda) cai de amores por uma camponesa coreana.

Pelas cinco décadas seguintes, os papéis se enfileiraram para a atriz: de participações especiais em séries como Dinastia (1983), O Toque de um Anjo (1997-1999), Um Policial da Pesada (1999), Plantão Médico (2003) e NCIS: Los Angeles (2014-2018); a projetos que lhe davam mais espaço, como China Beach (1989-1991), O Clube da Felicidade e da Sorte (1993, um marco para representatividade asiática em Hollywood) e O Que Tem Para o Jantar? (2000). Em 1996, venceu um Emmy por produzir o documentário A Journey Home, que acompanhava sua primeira viagem ao Vietnã desde 1975, buscando pelo pai e pelo irmão mais velho.

De ídolo a fã

É uma trajetória triunfal que desagua em O Simpatizante, onde Kieu Chinh aparece como a mãe do Major (Phanxinê Linh), que no primeiro episódio toma a decisão controversa de levá-la para os EUA no lugar de sua filha pequena. Não é um papel grande, mas o deslocamento e angústia da personagem, expressados no rosto da atriz, emocionam - e, em entrevista ao Omelete, ela contou como tratou de aproveitar cada segundo de tela.

Essa é uma história focada em personagens masculinos, o que significa que as mulheres são em parte definidas através de suas relações com os homens”, admitiu. “Eu sou a mãe do major, mas também sou uma refugiada vietnamita que vai aos EUA, que sente falta do seu país, que se sente solitária... ela percebe que, neste novo país, não tem para onde ir, não tem com quem conversar. O meu filho está fora de casa, perseguindo o seu sonho americano, ele não tem tempo para mim!”.

Nesse contexto, Chinh entendeu que seu trabalho era expressar uma tristeza muito familiar para ela - o que só fez de um raro momento de alegria da trama um respiro mais bem-vindo, é claro. “Acho que minha cena preferida na série toda é quando o meu filho organiza uma festa de aniversário para mim, reunindo todos que fizeram parte das nossas vidas. É a única cena em que todo mundo está presente, no meio de um cenário colorido, comendo e bebendo, se divertindo... É muito lindo”, contou. “Tendo em vista que a história da série é tão triste - uma história sobre guerra, sobre morte -, é importante mostrar que essas pessoas também se divertiam”.

Melhor ainda foi a oportunidade de trabalhar com Park Chan-wook, diretor que Chinh admira de longe há muitos anos. Eu sou uma grande fã dele. Não vi todos os filmes, mas adorei todos os que tive a chance de ver - então, para mim, a chance de trabalhar com o diretor Park foi incrível! E pude constatar que ele é um artista brilhante, com uma visão única. As cenas estão lá, no papel, mas quando você vê a forma como ele as idealizou no cenário e na câmera, é mágico!”, comentou a atriz. 

O terceiro episódio de O Simpatizante vai ao ar hoje (28), às 22h, pela HBO e pela Max. O restante dos capítulos da temporada serão lançados semanalmente, sempre aos domingos.

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