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Como Steven Spielberg quase arruinou o primeiro filme de Harry Potter

Diretor tinha uma ideia bem diferente de como começar a franquia

A cozinha
26.12.2019
18h20

Harry Potter e a Pedra Filosofal é uma das obras mais importantes da literatura e não demorou muito para ele ganhar uma adaptação cinematográfica. O que pouca gente sabe é que por muito pouco o bruxo não ganhou um filme dirigido por Steven Spielberg, um dos cineastas mais famosos da história e que pretendia transformar completamente a história de J.K. Rowling

Com o sucesso cada vez maior dos livros, diversas produtoras começaram a ligar para autora no final dos anos 90 tentando comprar os direitos para uma versão para os cinemas. Mesmo com grandes cifras na mesa, ela recusou todas as ofertas, o que deixou a Warner sem entender o motivo. Um dia, o estúdio voltou para conversar e perguntou se o problema era o dinheiro e a autora disse que não vendia por conta de uma única razão: não queria perder o controle criativo do bruxo. Ela falou o seguinte na época: “Eu não queria dar para eles [estúdios] a liberdade de criarem o restante da história. Se conseguissem garantir que qualquer filme produzido fosse baseado na minha história, então poderíamos conversar”.

Depois de muita negociação, a Warner conseguiu comprar os direitos dos quatro primeiros longas por cerca de US$ 1,9 milhão e, ainda por cima, precisou aceitar algumas exigências de Rowling: todos os atores precisavam ser britânicos e a história precisava continuar na Inglaterra. A Warner precisava de um grande nome para direção e, por isso, foi atrás de Steven Spielberg. Na época, ele era um dos grandes nomes de Hollywood com sucessos como E.T. – O Extraterrestre, Indiana Jones e Jurassic Park no currículo. Contudo, o diretor tinha uma visão completamente diferente do estúdio e da autora. 

O cineasta estava encantado com as animações da Pixar na época e, por isso, não queria fazer um longa com atores. “Ele queria unir mais de um livro em um filme e queria fazer uma animação. Além disso, por conta de toda a bruxaria envolvida na história, a produção contaria com diversos efeitos especiais. Então, eu não culpo ele [por ter essa ideia]”, afirmou Alan Horn, presidente da Warner na época. Não bastando, a ideia dele era colocar Haley Joel Osment, o garoto de O Sexto Sentido, para dar voz a Harry Potter, levar Hogwarts para os EUA e, basicamente, ir contra tudo o que Rowling queria. 

O estúdio e a escritora não estavam confortáveis com a ideia e, apesar negarem qualquer atrito, rapidamente Spielberg deixou a produção antes mesmo de começar. “Eu senti que não estava pronto para dirigir um filme apenas para crianças e meus filhos acharam que eu estava louco. E os livros eram muito populares, então quando deixei o projeto, sabia que seria um fenômeno. Mas não faço filme porque eles serão fenômenos. Faço pois eles precisam me tocar de alguma maneira para que eu me comprometa um, dois, três anos com o trabalho”, afirmou o diretor. O impasse começou a deixar Rowling preocupada com a produção, pois não sabia se conseguiriam reproduzir com competência seu trabalho. 

Pouco depois, Chris Columbus foi anunciado no filme e deixou a autora ainda mais encucada, pois, além de americano, ela não estava familiarizada com o seu trabalho. “Ela expressou uma ambivalência e até mesmo um arrependimento de ter vendido os direitos cinematográficos. Então, eu fiz uma pequena promessa em minha mente para a Sra. Rowling: como os livros representam o que há de melhor na literatura, criaria um fenômeno cultural  e minha função seria deixa-la orgulhosa da interpretação cinematográfica desses trabalhos”, afirmou Horn. 

Foi necessária uma reunião entre Rowling e Columbus para que a autora se tranquilizasse e entendesse que seu trabalho seria respeitado nas telonas. Com o tempo, Columbus conseguiu encontrar os atores certos, montou o cenário da maneira que a autora imaginava em sua mente e conquistou sua admiração. Com isso, o primeiro filme foi um sucesso de bilheteria e, desde então, a franquia se tornou um fenômeno.

Atualmente, Rowling está ainda mais envolvida com os longas e se tornou roteirista do derivado Animais Fantásticos e Onde Habitam, onde finalmente levou a história para os EUA, mas à sua maneira. Contudo, os livros continuam como sua maior paixão e até hoje nenhuma das sete obras da saga conta com fotos dos filmes, pois ela acredita que, no fim das contas, a história deve ser imaginada pelo leitor e que estimular a imaginação ajuda o público a evoluir. “Aprendi a valorizar a imaginação em um sentido muito mais amplo”, afirmou durante um discurso em Harvard. “Sua capacidade mais transformadora e reveladora é o poder de nos fazer ter empatia com humanos que tiveram experiências que nunca tivemos”, finalizou.