Green Day e a crise de uma banda após seu auge

Créditos da imagem: Green Day/Divulgação

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Green Day e a crise de uma banda após seu auge

Trio de Oakland lida com discurso vazio em jornada que investe apenas em rock dançante

Julia Sabbaga
07.02.2020
16h12

Como fã quase incondicional de Green Day, desde o álbum de 2004, American Idiot, eu tremo com cada anúncio de lançamento do trio. Isso não vem de uma dúvida quanto ao talento (já diversas vezes comprovado) do grupo, e sim de uma trajetória muito clara que o trio constrói desde o que pode ser considerado o seu auge na indústria musical. Antes que alguém grite “não, o auge foi o Dookie”, preciso deixar claro uma coisa: American Idiot pode não ser o favorito de todos e pode não ser tão importante ao pop punk quanto o disco de 1994, mas ele certamente concluiu uma jornada de exploração tanto instrumental quanto temática do grupo. Em American Idiot, o Green Day se provou uma banda maior que o punk, e entrou pela 2ª vez em sua carreira nas listas de álbuns essenciais da história da música. 

Mas, desde então, a banda não parece ter encontrado seu rumo certo. Isso não é o mesmo que dizer que o grupo não lançou nada bom; eu discordo, e afirmo que há destaques em cada um dos lançamentos do grupo até hoje. Mas a chegada de Father Of All Motherfuckers esta semana parece um passo grave na direção errada. Desde os primeiros singles, algo parecia estranho. E o movimento foi tão bizarro que até uma teoria da conspiração apontava que Father Of All… era, na realidade, uma brincadeira da banda, que depois lançaria o seu verdadeiro disco. Terminando os míseros 26 minutos do álbum, o gosto que fica é que seria bom se a ilusão fosse verdade. 

Talvez tudo isso esteja saindo de uma amargura exagerada de fã, mas a verdade é que Father Of All… é o maior exemplo de um potencial desperdiçado. As 10 curtas músicas passam rápido, e variam absurdamente de qualidade, caminhando por referências esquizofrênicas e diversas, compilando o material mais estranho que o Billie Joe já lançou até hoje - e olha que até álbum com Norah Jones ele já fez (e é ótimo, diga-se de passagem). 

Quando o Green Day estourou na indústria, a crítica adorava falar sobre esse trio de Oakland que amadureceu apesar de cantar músicas sobre “tédio e masturbação”, como se tivesse algo errado com esta temática. Garanto que é mais esquisito ouvir Billie Joe, em seus plenos 47 anos, cantar que "escola é para os perdedores", em um álbum cuja capa é um unicórnio vomitando arco-íris em cima da arte de American Idiot.

Me afastando do rancor acumulado pela capa (essa capa...) e os três primeiros singles - “Father Of All”, “Fire, Ready, Aim” e “Oh Yeah!” - ouvir Father of All... na íntegra não é totalmente desesperançoso. Existe uma energia em comum, existem destaques como “Meet Me On the Roof” e “Sugar Youth”, e há toques de algo que poderia ter tido um potencial, principalmente na minha já favorita “Grafittia”. Mas caminhando por temperos de Beatles, The Clash, Joan Jett, Black Keys e diversas outras influências, Father Of All... atira para vários lados e não resulta em muita coisa. Ele não é para velhos fãs. Ele não serve para ganhar novos fãs. Ele não entrega um propósito certo a não ser bater ponto na carreira do Green Day, que precisava lançar algo depois de quatro anos após Revolution Radio

O fã de Green Day já passou por muita coisa desde American Idiot. Já viu o grupo emular a mesma sonoridade em um bom - porém inconsistente - 21st Century Breakdown; já os viu investir na quantidade acima de qualidade em uma trilogia que mais tarde seria atribuída aos problemas de drogas de Billie Joe; e já testemunhou o trio tentando retornar aos trilhos no simpático e despretensioso Revolution Radio. Tudo isso teve seus altos e baixos. Mas o que Father of All... tem de diferente de todos os outros lançamentos é sua absoluta falta de sentido. Sem boas letras ou momentos instrumentais, o álbum é um exercício gratuito que apenas exemplifica a dificuldade do grupo em se reinventar mais uma vez, se confortar com o que já é familiar, ou deixar estar de uma vez por todas. 

Retornando à “Graffitia”, a última faixa do disco, Father Of All… acaba deixando um gosto ainda mais amargo. A simpática melodia, que também traz a melhor letra do disco, fecha o 13º álbum do Green Day como um soco no estômago, como se para lembrar que, apesar de tudo que você ouviu até aqui, eles sabem muito bem o que é bom. O potencial está lá, mas sua concretização não, o que acaba soando mais como preguiça do que qualquer outra coisa. Encerrando uma jornada impiedosa, a faixa serve apenas como um lembrete aos fãs que a esperança ainda existe. E por isso seguimos aqui, no aguardo.