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Entrevista

Godzilla | Omelete entrevista Thomas Tull

CEO da Legendary Pictures fala sobre a relação com a Toho, o diretor Gareth Edwards e o design do monstro

Marcelo Hessel
09.05.2014
20h20
Atualizada em
29.06.2018
02h38
Atualizada em 29.06.2018 às 02h38

Durante a divulgação de Godzilla, o Omelete participou de uma mesa-redonda de jornalistas com Thomas Tull, CEO da Legendary Pictures. Ele fala sobre o processo de produção do filme, o relacionamento com o estúdio japonês Toho, criador do monstro, e o trabalho do diretor Gareth Edwards na nova versão americana.

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A Toho teve algum receio a respeito da nova adaptação ocidental de Godzilla?

Não. Eles sabiam que nós éramos fãs e conversaram conosco. Eles olharam a quantidade de trabalho e esforço, os filmes que fizemos [na Legendary], e isso diz muito sobre você - seja algo bom, seja algo ruim. Acho que eles também entenderam que reverenciamos Godzilla. Queriamos fazer uma versão dessa história, mas, em vez de dar as costas para a obra original, nós a respeitamos. Foi uma grande parceria. Quando eles entenderam a nossa visão sobre o filme, tivemos liberdade criativa total.

A Toho esteve no set? Como foi o relacionamento com eles?

No começo, falamos mais sobre licenciamento e nos certificamos de deixar tudo às claras. Eles estavam preocupados só em nos deixar fazer esse filme. Mas, quando o exibimos, eles amaram, se emocionaram. Eles são boas pessoas, e foi uma boa experiência. Gostamos de trabalhar com eles.

Como foi o tratamento das cenas que se passam no Japão? O país passou por acontecimentos delicados, como tsunamis e terremotos, e exibir isso na telona é sempre um assunto sensível para os japoneses. O quanto vocês se preocuparam com isso?

Tivemos uma preocupação extraordinária. Hoje em dia, ao fazer um filme, você precisa estar atento ao que acontece no mundo todo. Em uma cena específica, tomamos várias medidas: tivemos longas conversas com a Toho e com pessoas no Japão, para nos certificar de que não seriamos desrespeitosos. Ouvimos muito os japoneses. A origem de Godzilla é muito importante para eles, então, fazê-lo surgir em outro lugar do mundo ou não mostrar isso seria não mostrar respeito. É por isso que tentamos entender o que eles queriam dizer ao máximo. Estamos falando de acontecimentos duros e sérios, e não queriamos que o filme trouxesse sentimentos ruins.

No filme, Godzilla está muito parecido com a versão original. Vocês foram obrigados a mostrá-lo de forma tão parecida?

Havia orientações da Toho, mas mesmo sem elas, nosso Godzilla seria similar ao deles. Conversamos muito com [o diretor] Gareth Edwards sobre o design do monstro, com um conceito em mente: que ele fosse o mais realista possível, mas que ao mesmo tempo fosse fiel ao original. Queriamos que ele fosse Godzilla, e não outro monstro.

Como foi a escolha de Gareth Edwards? Não é a primeira vez que a Legendary escolhe um diretor que tem mais experiência em filmes menores e não dirigiu um blockbuster antes.

É interessante, especialmente em uma franquia tão reconhecida, ter um diretor jovem - ou pelo menos uma voz diferente. Isso revigora o filme. Tivemos o privilégio de trabalhar com grandes diretores, o que é muito importante para a Legendary. Gareth provou que é especial desde o início das filmagens. Nós sempre procuramos estar ao lado de bons diretores: Christopher Nolan, Guillermo del Toro, Zack Snyder, Todd Phillips para comédias, e agora Gareth. É um privilégio trabalhar com gente tão talentosa. Acho que Gareth terá uma ótima carreira.

Como foi o processo de seleção dos atores?

Francamente, pela primeira vez, em 11 anos trabalhando com cinema, foi a primeira vez em que todas as primeiras opções disseram sim. Foi um grande desafio. Queriamos colocar grandes atores nesses papéis. Nós falhariamos se não nos preocupássemos com personagens, e se não investissemos neles. Todos os atores se preocupam muito com seu trabalho. Eles tem nível para brilhar lendo Shakespeare, na minha opinião.

O filme soa épico e íntimo ao mesmo tempo.

Em um filme como esse, é muito fácil fazer o espectador ficar indiferente a toda a destruição. Prédios são destruidos, pessoas morrem, e você não sente essas perdas. Era importante para nós que o público compreendesse a jornada do personagem de Aaron Taylor-Johnson, porque ele queria voltar para casa e proteger sua família, ou a dinâmica entre ele e o pai [vivido por Bryan Cranston]. Uma das coisas que mais me impressionou no trabalho de Gareth foi sua habilidade de mostrar cenas espetaculares e, ao mesmo tempo, fazer Godzilla parecer um filme indie.

Por que você acha que a indústria investe tanto em filmes de monstros, como esse ou King Kong?

Primeiro, porque eu adoro Godzilla (risos). Sentiamos que não estreava um filme bom dele há muito tempo. Acho que fizemos o longa que queriamos ver como fãs.

O filme tem cenas em diversas localidades e muitos efeitos práticos. Vocês realmente gostam de jogar carros pelo set. Isso é importante para vocês?

Queriamos que a audiência imergisse no filme. Mesmo com toda a magia que as empresas de efeitos visuais podem fazer, se você mistura isso com cenas reais, é mais difícil diferenciar uma da outra. Se você exagera na parte digital, o público percebe. Nós não obrigamos os diretores a fazer tudo de forma prática. Em Interstellar, por exemplo, Christopher Nolan faz efeitos práticos impressionantes. É incrível assistir. Nós só queremos estar próximos de pessoas talentosas, e elas parecem gostar muito de arremessar automóveis por aí (risos).

O que vocês acham do 3D?

Somos moderados com essa tecnologia, porque em alguns casos ela não é apropriada. Nos filmes de Chris [Nolan], por exemplo: A Origem foi gravado em 2D. Por outro lado, há longas em que o efeito tridimensional enriquece a experiência. Achei que o 3D em Círculo de Fogo foi ótimo, e em Godzilla também. No fundo, para nós, é importante dar opções: 2D, 3D, IMAX, um formato do qual somos fãs. Tudo tem que ser feito de acordo com as exigências do filme e da equipe, e nos certificamos de não abusar de nada.

Porque Godzilla demora a aparecer no filme?

Tentamos manter o suspense para que a aparição dele tivesse impacto. O surgimento de Godzilla tem que ser grandioso. Por exemplo: não dá para fazer um filme sobre tornados e ter um furacão nos primeiros seis minutos. Foi interessante observar a exibição do filme para a imprensa de Los Angeles. Nos dez minutos finais, me aproximei de Gareth e disse: eles estão aqui para fazer seu trabalho, eles não são necessariamente fãs de Godzilla, então não fique nervoso quando o filme acabar. Entretanto, o cinema veio abaixo quando o filme acabou. Não é algo que acontece sempre.

O poder azul de Godzilla foi uma exigência da Toho?

Não, foi minha (risos). É minha obsessão. É parte do folclore ao redor de Godzilla, e foi a cena em que Gareth e eu mais trabalhamos, porque, como fã, é um grande momento. Não queriamos apenas impressionar; nossa intenção é que o espectador pare e pense: "Não acredito que ele vai fazer isso!". Espero que vocês tenham gostado. Nosso Godzilla merecia esse poder (risos).

Como foi pensado o tratamento de Godzilla no filme? Geralmente as pessoas entendem um monstro como o vilão...

Nós amamos Godzilla, e não queriamos exagerar ao chamá-lo de protetor da Terra de uma forma tão óbvia. Isso seria forçado. Ele não sai do fundo do mar para salvar o planeta, mas, ao mesmo tempo, torcemos por ele. A audiência torce por ele. Queriamos balancear esses dois lados.

Você acha que Godzilla é um herói, um vilão ou nada disso?

Nós achamos que ele é um herói que você não quer ter por perto durante muito tempo.

Godzilla estreia em 15 de maio no Brasil.

50 Anos de Godzilla | Artigo