Glee chega à Netflix para nos lembrar que era uma série à frente de seu tempo

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Glee chega à Netflix para nos lembrar que era uma série à frente de seu tempo

Disponível na Netflix, seriado musical de Ryan Murphy foi alvo de piadas por conta dos covers musicais, mas sua trama vai além disso

Camila Sousa
19.02.2021
17h33

A primeira temporada de Glee: Em Busca da Fama foi ao ar em 2009, mostrando a história dos alunos da William McKinley High School e do clube de coral Glee, comandado pelo professor Will Schuester (Matthew Morrison). Ao longo dos anos, a série foi alvo de piadas e muito preconceito, especialmente pelos covers de músicas famosas como “Don’t Stop Believin’”, “I Want to Hold your Hand”, “Somebody to Love”, entre outras. Para muitos, as versões eram ruins e isso tornava o seriado igualmente desinteressante.

No entanto, quem acompanhou a produção sabe que ela foi muito além da parte musical (que, aliás, foi a porta de entrada para o mundo do musicais para muitos) e também trata de assuntos extremamente importantes. Com as seis temporadas agora disponíveis no catálogo da Netflix, é uma bela oportunidade para conferir (ou rever) os temas importantes abordados por Glee ao longo dos anos.

Gravidez na adolescência

Logo na primeira temporada, a produção de Ian Brennan, Brad Falchuk e Ryan Murphy fala sobre gravidez na adolescência por meio da personagem Quinn Fabray (Dianna Agron). O tema não era inédito, mas a abordagem do seriado foi diferente de tudo o que a cultura pop tinha feito até ali: Quinn fica extremamente assustada ao descobrir que está grávida ainda durante a escola e recebe o apoio dos amigos, que cantam com ela a música “Keep Holding On”.

O seriado mostra como o clube Gleese torna um importante instrumento de superação para Quinn, que não é afastada do seriado em nenhum momento: em vez disso, Murphy optou por mostrar o amadurecimento da personagem, os erros que ela comete e a construção de sua decisão final em relação ao bebê e ao seu futuro. Já na primeira temporada, Glee foi corajosa ao trazer o tema de forma madura e evitar o clichê de culpabilizar Quinn por suas decisões.

Comunidade LGBTQIA+

Esse é um dos tópicos de maior destaque em Glee, já que a série aborda a comunidade LGBTQIA+ por diversas frentes. A primeira é pelo personagem Kurt Hummel (Chris Colfer), que é gay e passa por diversos processos e aprendizados. Um dos primeiros é o momento de revelar sua sexualidade para o pai, Burt (Mike O'Malley). A mãe de Kurt morreu quando ele ainda era muito jovem e por isso ele criou uma grande ligação com o pai, mas tinha medo de sua reação ao descobrir a verdade. Por muito tempo, Kurt fingiu ter namoradas - algo que acontece na vida real - por receio de ser rejeitado por sua única família. Felizmente, Glee subverteu as expectativas novamente. Apesar de ter dificuldades em aceitar a sexualidade do filho, Burt se mostra disposto a aprender e dá ao jovem o apoio que ele precisa. Kurt também traz várias outras discussões para Glee, como seu relacionamento fofo com Blaine (Darren Criss) e a homofobia que sofre de Dave Karofsky (Max Adler), personagem que posteriormente se revela gay e diz que perseguia tanto Kurt por estar apaixonado por ele.

Glee também falou sobre identidade de gênero, em uma época em que o tema não era tão comum assim. Uma das personagens que traz a discussão é Unique (Alex Newell), que lidera o grupo Vocal Adrenaline e depois se transfere para a escola William McKinley. Uma das músicas cantadas pela personagem é “If I Were a Boy”, no momento que sofre preconceito no banheiro. Unique se identifica como mulher, mas não pode usar o banheiro feminino e também tem medo de ir no masculino, mostrando como a comunidade trans sofre diversos preconceitos no dia a dia. 

O tema também teve espaço com Beiste (Dot-Marie Jones), treinador que começa a série como Shannon e passa pelo processo de transição, assumindo-se como Sheldon nas temporadas finais. E, claro, não dá para falar sobre a representatividade LGBTQIA+ em Glee sem citar o casal Brittany (Heather Morris) e Santana (Naya Rivera). Ao longo de vários episódios, a personagem de Rivera tem dificuldade em assumir seu amor por Brittany e não é tão bem acolhida pela família como Kurt. Com tudo isso, o seriado mostra diversos lados da comunidade LGBTQIA+ e se aprofunda em discussões que não são fáceis.

Pessoas com deficiência

O tema de pessoas com deficiência também foi abordado em Glee, começando com Artie Abrams (Kevin McHale), um dos alunos que faz parte do clube e é cadeirante. O seriado mostra que o jovem não nasceu com a deficiência, e sim a adquiriu após um acidente de carro ao lado da mãe. Ainda na primeira temporada, é revelado que Artie tem o sonho de se tornar um dançarino e que gostaria de encontrar uma cura para a sua deficiência. O jovem também fala bastante do desejo de ser independente e que não quer ser visto como alguém que precisa constantemente de ajuda.

Glee também fala sobre as pessoas com Síndrome de Down com duas personagens. A primeira é Jean (Robin Trocki), irmã de Sue Sylvester (Jane Lynch). Sue é apresentada no seriado como uma “vilã”, que quer constantemente acabar com o clube Glee. Mas a produção acertou bastante ao criar diversas camadas para a personagem, começando pela irmã. Jean é mais velha que Sue e sofreu muito preconceito na infância por ter Down - mas sempre era defendida pela irmã. Posteriormente, o seriado apresentou a jovem Becky Jackson (Lauren Potter), que também tem Down e estuda na William McKinley High School. Ela cria um forte laço com Sue, que vê nela um pouco da irmã. Além desse ponto, Becky tem seu próprio desenvolvimento e mostra os receios que tem de sair da escola para viver no “mundo real”.

Tiroteio em escolas

Um dos episódios mais emocionantes de Glee é “Shooting Star”, da quarta temporada, que fala do tema de tiroteios em escolas. Após ouvirem um disparo, os alunos da William McKinley High School se escondem onde podem pela escola, avisam suas famílias e vivem um constante estado de tensão pelo que pode acontecer em seguida.

Glee é uma série majoritariamente divertida e leve, o que torna tais episódios ainda mais densos. É um grande choque sair de um contexto musical alegre e ver os personagens correndo um perigo real de vida. A série acertou bastante ao criar um grande clima de tensão, que vai dos alunos até os professores e demais profissionais que estão na escola. “Shooting Star” é um episódio que dá um nó na garganta e traz diversos questionamentos sobre o tema.

Violência doméstica

Além de estar presente na discussão sobre pessoas trans, Beiste trouxe na terceira temporada o tema da violência doméstica. Antes de passar pela transição, a personagem havia encontrado aquele que parecia o “homem perfeito”, que ela sempre admirou. No entanto, a personagem revela em certo momento que foi vítima de violência doméstica por parte desse homem.

Beiste sempre foi uma personagem de pulso firme dentro da William McKinley High School, mas a série trouxe um ponto diferente - e dolorosamente real - para o tema, mostrando que ela não sabia o que fazer diante daquela situação. Além disso, o seriado mostra que Cooter (Eric Bruskotter), o marido, tenta se justificar para Beiste, pedindo desculpas e afirmando que vai mudar - algo bem comum em casos de violência doméstica e que leva pessoas a ficarem em relacionamentos abusivos por um longo tempo.

Bulimia

Marley (Melissa Benoist) foi introduzida na quarta temporada de Glee e trouxe a discussão sobre bulimia e transtornos alimentares. Mesmo sendo muito magra, a jovem tem problemas com a própria imagem e acredita que precisa ficar sem comer ou vomitar após as refeições. O caso de Marley se torna tão grave que ela desmaia durante uma apresentação do grupo, que é desclassificado da competição.

Luto

Infelizmente Glee também ficou conhecida por momentos trágicos na vida real, como a morte precoce de Cory Monteith, protagonista da série. Com isso, o seriado lidou em sua quinta temporada com o tema do luto em relação a Finn. “The Quarterback” é todo dedicado à memória de Monteith e mostra como cada membro do clube Glee lida com uma perda tão forte. O maior destaque, é claro, é para Rachel Berry, que era namorada do personagem e cuja intérprete, Lea Michele, também namorava o ator na vida real. Outro que sente bastante a perda é Kurt (Chris Colfer), que tinha se aproximado de Finn quando os pais dos dois se casaram, criando uma relação de irmãos. É um episódio emocionante e delicado, que mostra como a série sabe ser madura nos momentos certos.

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