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Entrevista

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres | Omelete entrevista David Fincher

O diretor fala das escolhas da nova versão, interpretações de seus filmes e entrega quem deu a ideia de tocar Enya

Marcelo Hessel
27.01.2012
18h11
Atualizada em
29.06.2018
02h38
Atualizada em 29.06.2018 às 02h38

A Europa, onde o apelo de Millennium - Os Homens que não Amavam as Mulheres é maior que nos EUA, foi destino de uma miniturnê de premières com a presença dos realizadores e do elenco do remake. O Omelete conversou com David Fincher por telefone no dia 6 de janeiro, entre uma parada e outra da tour.

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O diretor fala rapidamente sobre as escolhas da nova versão, interpretações de seus filmes e entrega quem deu a ideia de tocar Enya no remake.

Olá, tudo bem? Você está em Berlim, certo?

Estou sim, mas apenas pelas próximas duas horas.

Está bem frio por aí, não?

Está mesmo.

Deixe-me perguntar, qual você acha a cidade mais cinematográfica em que já esteve - com exceção de San Francisco...

A cidade mais cinematográfica ou fotogênica?

Pode ser fotogênica.

Acho que Roma, pra onde estamos indo hoje, é bem bonita. Paris também é incrível. Acho que depende muito da história. Durante um tempo eu quis filmar Seven - Os Sete Crimes Capitais em Oakland, na Califórnia, que era a cidade mencionada nos roteiros, mas ficaria caro demais... [Seven terminou rodado em Los Angeles, com algumas cenas na Philadelphia]

Você ainda está envolvido em Devil in the White City? É uma grande história sobre a cidade de Chicago.

Não, não estou. Eu acho que esse projeto foi engavetado.

É incrível o quanto as pessoas bebem em Os Homens que não Amavam as Mulheres. Foi por causa do inverno pesado de 2010, quando vocês filmaram na Suécia?

[risos] Acho que você nunca esteve na Suécia.

É uma coisa cultural?

Não sei, não me pareceu exagerado. Também não achei que estava excessivo no filme, mas talvez sejam minhas tendências alcoólatras. [risos]

Você disse uma vez que queria fazer esse remake em um "estilo sueco", pelo fato de o filme original ser meio americanizado.

Nós fomos à Suécia para filmar lá, porque é onde a história é ambientada. Nós decidimos não levar uma equipe dos EUA porque não queríamos que parecesse como se Hollywood tivesse ido a outro país só para ter sua própria versão de um filme. Acho que uma das coisas interessantes sobre Blade Runner, por exemplo, é que o filme foi feito em Los Angeles, a trama se passa em Los Angeles, a equipe do filme é da cidade, mas Ridley [Scott] enxergou Los Angeles de um jeito bastante diferente do habitual.

Sobre a tecnologia de Millennium. Você decidiu ambientar o filme em 2002, 2003, antes do lançamento do iPhone.

Na verdade, a história foi escrito em 2004 e é ambientada entre 2003 e 2004; acredito que era sobre essa época que [Stieg] Larsson escreveu. Tivemos diversas discussões sobre que tipo de tecnologia mostraríamos no filme. Aconteceram muitas coisas depois do lançamento do iPhone, e isso teria... Sabe? Como ambos [os personagem principais] são macmaníacos, acredito que Lisbeth e Mikael teriam iPhones e os aplicativos disponíveis teriam mudado o curso da investigação deles. Então decidimos que não ambientaríamos o filme em nenhuma linha temporal específica. [Nas locações] nós não paramos e guinchamos carros das ruas que poderiam ser de 2009, 2010, mas tentamos evitar cenas com menções a tecnologias que fossem da era pós-iPhone.

Algumas pessoas alegam que seus filmes são misóginos. Foi por isso que você decidiu fazer Millennium? Como um tipo de resposta?

Eu não sabia que as pessoas achavam isso. E tento também não saber o que as pessoas acham de filmes até que eles estejam terminados.

Já faz bastante tempo que você fez Alien 3, mas eu acho que Lisbeth tem coisas em comum com Ripley.

Eu não acho.

As duas são brutalizadas em mundos dominados por homens e têm que tornar-se brutais para sobreviver. Talvez ambas sejam figuras heroicas parecidas.

Não acho que Ripley seja brutalizada. Acho que haja uma certa tendência unissexual no primeiro Alien que era intrigante, mas não acho que dê pra dizer que seja uma brutalização. Ela luta como reação, para não ser acuada pelo alien. Eu entendo a busca por uma semelhança, mas não acho que haja uma, necessariamente.

Quantas atrizes você considerou para o papel de Lisbeth antes de escolher Rooney Mara?

Nós consideramos qualquer pessoa que estivesse disponível e/ou que tinha experiência. Inicialmente, em termos de nacionalidade, escolhemos um enfoque global. Nós tínhamos caça-talentos representando a gente na Islândia, Suécia, Alemanha, no Reino Unido, na França, Austrália... Mas quando chegou a hora de fazermos os testes de elenco, para ver como as atrizes ficariam no papel, acho que falamos só com sete ou oito pessoas.

Você chegou a considerar Noomi Rapace para o papel?

Não.

Algumas pessoas dizem que Zodíaco é um filme emblemático do pós-11 de Setembro. Você concorda?

[pausa] Em que sentido?

É a história de uma investigação de um crime que se estende, e o criminoso acaba tornando-se uma projeção, uma ideia...

Hmm, não sei se isso se aplica. Entendo que os filmes se expandam com a interpretação das pessoas, mas não sei como isso se aplicaria.

Qual é o seu livro favorito da trilogia Millennium?

Eu só li os dois primeiros. Eu queria ter contato com os elementos do primeiro livro e entender como eles eram tratados no segundo. Não sei se eu tenho um favorito...

Você tem outros projetos em andamento, como 20.000 Léguas Submarinas e Cleopatra. A ideia é dirigir uma continuação de Millennium antes desses outros filmes?

Eu não decidi ainda se vou fazer a continuação. Ainda precisamos ver como esse primeiro filme vai se sair.

Quem te deu a ideia de tocar Enya na cena do clímax?

Foi Daniel Craig.