Filmes

Notícia

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres | Da Frigideira

Se a primeira impressão é a que fica, então já dá pra dizer que o remake de David Fincher é melhor que o original em todos os aspectos

Marcelo Hessel
22.12.2011
16h02
Atualizada em
29.06.2018
02h38
Atualizada em 29.06.2018 às 02h38

Na coluna Da Frigideira, o Omelete analisa os filmes mais aguardados no calor da saída do cinema - e é inevitável, no caso dos remakes, fazer logo uma comparação com os originais.

millennium

None

millennium

None

millennium

None

millennium

None

Uma opinião que se repete na crítica dos EUA, a respeito de Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres, é que a refilmagem de David Fincher é fria, desapaixonada. Essa impressão pode vir do fato de o roteiro de Steve Zaillian eliminar tudo o que era sentimental demais no primeiro filme da trilogia sueca baseada nos livros do escritor Stieg Larsson.

A trama continua ambientada na Suécia entre 2002 e 2003. O jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig) é contratado para investigar o desaparecimento da sobrinha-neta do ex-industrial Henrik Vanger (Christopher Plummer), que desconfia do envolvimento de seus próprios familiares no crime, ocorrido há 40 anos. Hostilizado pela família, Mikael convence então a hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara) - que havia espionado o jornalista a pedido dos homens de Vanger - a ajudá-lo no caso.

Há alguns meses, Fincher disse que gostaria que seu Millennium fosse um filme americano com características suecas - já que, segundo ele, o original escandinavo faz o inverso e emula os filmes de serial killer da Hollywood de hoje. Na comparação, é fácil identificar no Millennium sueco alguns cacoetes "americanos", como o backstory afetivo dos investigadores com as vítimas ou os culpados. É uma armadilha dramática que Fincher evita. No seu remake, portanto, não há qualquer menção a Lisbeth e Mikael quando crianças, pra começar.

Se no original Mikael aceita o caso porque tem um histórico com a família de Vanger, no remake as coisas são bem mais pragmáticas: Mikael está falido, quebrado por um processo judicial depois de publicar um dossiê incompleto contra um empresário supostamente corrupto, e Vanger oferece uma ajuda valiosa nesse dossiê se o jornalista aceitar o caso do sumiço da sobrinha-neta. Tanto no livro quanto no filme sueco, Mikael vai pra cadeia pelo caso do dossiê; no remake, ele é só processado. É mais uma mudança que visa a desdramatização.

A própria relação entre Lisbeth e Mikael não é tão imediata na refilmagem. No original, Lisbeth se mostra simpática a ele desde o começo, e ajuda o jornalista na investigação por conta própria, antes mesmo de os dois se conhecerem. Na refilmagem, a alteração mais vigorosa feita por Zaillian: Lisbeth só fica sabendo do caso quando Mikael a procura. A hacker de Noomi Rapace era, assim, mais naive: ela acredita desde o começo que Mikael não é como os outros homens - daí seu interesse nele. Já a Lisbeth do remake nao pode dar-se esse luxo; sempre sofreu com homens, vive na defensiva com qualquer um que não seja seu velho guardião-legal - e por isso soa mais real.

Há outras mudanças significativas no clímax do filme, de caráter moral, mas não entremos em detalhes pra não estragar as surpresas. No geral, todas as mudanças enriquecem a história - e a trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross é muito mais eficiente, para criar uma atmosfera de opressão, do que a inconstante música do filme original.

Essencialmente, as mudanças no remake tornam mais complexos os dois protagonistas. O arco dramático de Mikael - livre da relação afetiva com o cliente - pode se concentrar na sua obsessão pela verdade. É um personagem que entrou em ruína por confiar em dados inconclusivos (no caso do dossiê). Assim, quando aceita a proposta de Vanger, a investigação completa e justa do desaparecimento torna-se para o jornalista uma questão de honra. Fincher entende desse tipo de obsessão - Zodíaco, seu melhor filme, é justamente sobre o que acontece quando a obsessão alimenta a si mesma.

O grande foco do remake, porém, é a Lisbeth de Rooney Mara. Embora a performance de Noomi Rapace no Millennium escandinavo seja notável, é Mara quem tem um material melhor para trabalhar. No filme de Fincher a relação da hacker com a dor, a morbidez, e a angústia de viver numa sociedade machista são mais potentes. Quem sempre identifica misoginia nos filmes do diretor tem, agora, um objeto bastante rico para discussão - mas isso já é assunto para a crítica completa, que publicaremos em janeiro, na semana do lançamento.

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres estreia no Brasil em 27 de janeiro.