Para o Xbox, as métricas (distorcidas) importam mais do que tudo
Gestão de Asha Sharma está mais interessada em mascarar os números a seu favor do que em melhorar a situação da marca
É louvável o quanto a gestão Asha Sharma se esforçou, nos quatro meses desde que assumiu, para esconder os problemas do Xbox embaixo do tapete. Infelizmente, a pilha de investimentos errados e decisões injustificáveis já se tornou até maior do que qualquer cobertura, e nesta semana o público ficou de frente para essa montanha pela primeira vez.
Double Fine, de Psychonauts e do recente Kiln, e Compulsion, do premiado South of Midnight, chegaram ao ponto de negociar pela própria sobrevivência com a Microsoft. Em um processo similar ao que aconteceu com a Toys for Bob, ambas empresas querem comprar a sua independência para não encararem o fim de suas operações.
O caso da Ninja Theory é ainda mais bizarro: o estúdio acabou de anunciar Senua, o terceiro capítulo da franquia Hellblade, mas aparentemente o seu fim já está decretado. Alguns funcionários já teriam sido informados do encerramento das atividades da empresa, consequentemente acabando com as chances desse jogo ver a luz do dia.
Uma citação que se popularizou dentro dos games, ainda que não tenha surgido neles, é a de Vaas em Far Cry 3. O vilão diz que a definição da insanidade é fazer as mesmas coisas esperando resultados diferentes: Sharma, claramente, não lembrou de quando a gestão de Phil Spencer anunciou uma torrente de jogos que não estavam nem perto de sair do papel, resultando em cancelamentos, demissões e expectativas frustradas.
O processo foi diferente em ambos os casos. Everwild, Perfect Dark e tantos outros tiveram uma morte lenta, como se ainda lutassem pela sobrevivência; Senua, pelo visto, será apagada sem muita cerimônia, o que até faz sentido olhando as atitudes e o perfil de cada um dos gestores.
Spencer sempre se fortaleceu por, supostamente, representar os gamers. Ele jogava tudo que o Xbox tinha a oferecer, tinha sua própria base em Fallout 76 e mostrava alguma paixão pelo negócio, o que talvez seja condizente com a tentativa de manter alguns projetos vivos. Sharma, por outro lado, não tinha muita ligação com esse mercado, e ainda que tenha se aproximado da base de fãs com uma ou outra decisão, é fácil enxergar como seu papel no cargo de CEO está mais ligado a métricas do que qualquer coisa.
Pode até parecer óbvio, mas talvez não seja tão fácil entender o porquê dos números serem tão importantes para o mercado. Metrificar engajamento é um jeito fácil de mostrar a investidores que as coisas estão melhorando — o que justifica movimentos simples como a mudança de logotipo e a infame votação em redes para escolher se o certo é Xbox ou XBOX.
Ainda sobre investidores, outra métrica essencial são as ações propriamente ditas: a queda e ascensão desses valores significa mais ou menos dinheiro no bolso de pessoas que não necessariamente entendem sobre a indústria, e ainda que essas flutuações definam os rumos de muita coisa deste mundo, uma boa parte delas acontece mais com base em “sensações” do que em dados.
Para quem já viveu a loucura das criptomoedas, sabe a importância para a carteira que um tweet de Elon Musk tem. Em escalas diferentes, um anúncio de nova geração com o Project Helix dá o mesmo impulso; uma impressão de que as coisas estão andando bem e se encaminhando para ficarem melhores ainda. Nesta cesta ainda cabem exclusividades de Gears: E-Day e Clockwork Revolution, que só devem servir para que os jogos vendam pouco, ou afirmações vazias de que o Xbox será a maior marca dos games até 2030.
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É difícil não imaginar Sharma como uma pessoa que entrou para usar métricas a favor de Xbox e tentar dar uma sobrevida a ele. Os números, entretanto, só podem ser distorcidos até certo ponto, e o limite já foi atingido. Mascarar as narrativas acima de um console que mal divulga suas vendas, e de uma empresa que se afundou em compras impulsivas e caras eventualmente daria errado.
Não é como se a culpa fosse exclusivamente de Sharma. A casa definitivamente não estava em ordem quando ela chegou, mas o modus operandi adotado para arrumar as coisas — seja por escolha da própria Sharma, ou por pressão de Satya Nadella, que a colocou no cargo — acabou só piorando tudo.
Talvez a solução seja admitir os erros e não tentar fingir que está tudo bem e o futuro é brilhante. Reorganizar-se internamente para pensar em um Xbox, seja como marca, serviço ou hardware, que volte a fazer sentido para o consumidor; depois que essa visão for estabelecida, aí sim voltar, aos poucos, ao glamour que eventos como o Xbox Games Showcase tentam transmitir.
Como já discutimos, entretanto, o mercado não é paciente ou fã de períodos de baixa. Pode ser que, daqui pra frente, o Xbox se torne um trem fadado a construir os trilhos enquanto sustenta a velocidade máxima, e é difícil de enxergar um futuro em que essa estratégia funcione no longo prazo.
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