Star Fox é um bom remake que poderia ser muito mais
Game traduz sensação dos anos 90 com maestria, mas perde oportunidades de se aprofundar
O público gamer já está mais do que acostumado com remakes: de títulos com apelos para as massas como Assassin’s Creed Black Flag, projetos megalomaníacos como Final Fantasy VII a versões que honram os originais como em Resident Evil, é justo dizer que esse território é bastante confortável para jogadores e estúdios. Neste contexto, Star Fox chega ao Nintendo Switch 2 recontando a história que se consagrou no Nintendo 64, mas dessa vez com gráficos atualizados e algumas nuances extras.
A mais óbvia delas veio nas telonas. Fox McCloud, protagonista da franquia, é um personagem de importância bem considerável em Super Mario Galaxy: O Filme, indicando que a Nintendo planeja trazer o raposo de volta aos holofotes.
Outro ponto que é impossível de ignorar ao jogar o novo game está justamente neste costume adquirido com a renovação de clássicos. Já sabemos como é um remake que consegue extrair a essência do material original e extrapolá-la para os dias de hoje — não no sentido de exagero, mas sim de preencher os espaços vazios que a passagem do tempo inevitavelmente causa. Neste sentido, infelizmente, Star Fox para no meio do caminho.
Para fãs veteranos, não há grandes novidades em questões de enredo. A história começa com a missão fracassada de James McCloud e seu esquadrão de mercenários, que sucumbe para as forças de Andross depois da traição de Pigma Dengar. O personagem se sacrifica para salvar seus companheiros, e deixa o filho Fox sob cuidados de seu colega e amigo Peppy Hare.
Depois de um salto no tempo, somos introduzidos a um Fox já adulto, mas ainda inconsequente. Ele herdou a liderança da equipe apesar da imaturidade ao lidar com situações de crise, especialmente sob a pressão do talentoso Falco, que quer competir a todo momento com seu capitão. A dupla, ao lado do veterano Peppy e do engenheiro Slippy Toad, recebe uma missão complicadíssima do General Pepper, dando início à jornada que fará os pilotos revisitarem o passado.
Ao longo de sete missões, dirigimos tanto a nave Arwing quanto protótipos terrestres e marítimos construídos por Slippy, mas a jogabilidade entre elas não difere tanto assim. O veículo principal de Fox é equipado com canhões e um disparo carregado teleguiado, além de uma bomba de alcance amplo; a movimentação é sempre para frente, com direito a freios e turbo para controlar a velocidade, além de alguma lateralidade para desviar de obstáculos e disparos — neste aspecto, o famosíssimo Barrell Roll, ou Tunô Barril, é um grande aliado do jogador.
O conceito de atirar para onde a proa da Arwing está apontando, sem grande variação no posicionamento da câmera ou da mira, talvez seja datado. Em cenários mais apertados, fica até difícil de enxergar os inimigos que estão na frente do seu nariz, causando alguma frustração, especialmente quando a hitbox dos chefões não é tão grande assim, mas seus ataques ocupam a tela quase inteira.
A função de mouse do Nintendo Switch 2 chega para aliviar esse problema, colocando o jogador numa espécie de FPS. Há uma perda de visibilidade considerável, mas ao menos fica mais fácil de mirar seus disparos. O co-op local, que dá os comandos direcionais a um jogador e dos canhões a outro, também funciona bem como suavizante; ainda assim, ambas opções não são a forma primária de se jogar.
O console como um todo, na verdade, é um catalisador para que esses entraves passem batido. O feedback háptico do Joy-Con garante uma sensação excelente quando os tiros conectam no adversário, especialmente quando o mapa se abre e podemos nos movimentar livremente. Os confrontos contra a Star Wolf são divertidíssimos, e o Modo Batalha, que traz a possibilidade de multiplayer online, se apoia nessa qualidade para entregar uma experiência de guerra galática.
Falando estritamente de jogabilidade, jogadores que se virem bem com os controles vão se divertir bastante. Os que tiverem alguma dificuldade — totalmente justificável — de entender a mira do game, talvez se frustrem um pouco.
No fim das contas, a afirmação de que Star Fox para no meio do caminho como remake não tem tanto a ver com gameplay, e sim com enredo. A decepção também não vem por ser a quarta ou quinta vez que vivemos essa história, que é apresentada de forma extremamente parecida com a de Star Fox 64. O problema está nas oportunidades perdidas.
Há no mínimo duas ocasiões que sugerem um clímax enorme para o protagonista, em que ele terá de tomar riscos e resolver algo do jeito que apenas heróis maneiros como ele conseguiriam. Ao invés de nos mostrar esses momentos, ou até tirar o raposo da nave para que o controlemos nessas sequências, a opção foi por uma tela vazia e a resolução do drama logo em seguida.
O mesmo vale para o aprofundamento da narrativa como um todo. Existe o charme em manter as sete missões e suas rotas alternativas como o público da época se lembra, mas também não faria mal adicionar algumas migalhas de contexto a mais sobre quem é Andross e por que ele é tão maligno, ou explicar a rivalidade com a Star Wolf. Assistir às cenas mais marcantes de Star Fox 64 e perceber que elas são praticamente iguais deixa um gostinho amargo na boca.
Com o jogo completo em mãos, é justo dizer que nosso preview, realizado na Cidade do México a convite da Nintendo, teve impressões bem certeiras: Star Fox não almeja reinventar a franquia ou dar o próximo passo para o personagem; a intenção aqui é, muito provavelmente, recolocar McCloud de volta no imaginário popular para talvez alçar novos voos em um futuro próximo.
Enquanto isso, a geração que se divertiu no Nintendo 64 tem um game que trará a exata mesma sensação de deslumbramento da época, dessa vez com gráficos melhorados e uma dublagem impecável no português brasileiro. Ao mesmo tempo que se maravilhar com o altíssimo nível de nostalgia é totalmente válido, também não é nenhum crime se desapontar em não ver personagens tão queridos em situações novas.
Star Fox
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