Resident Evil 9: Requiem é, em muitos sentidos, o game definitivo da série
Celebrando 30 anos da saga, jogo traz Leon S. Kennedy e Raccoon City de volta
Créditos da imagem: Capcom
Em 2012, Resident Evil 6 foi lançado com a premissa de reunir o que Resident Evil tinha de melhor. Suas três campanhas, supostamente, reuniam os três pilares diferentes da saga até ali: terror (Resident Evil e Resident Evil 2); perseguição (Resident Evil 3) e ação (Resident Evil 4 e Resident Evil 5). O resultado, porém, foi um trabalho Frankenstein que desabava num jogo de ação bizarro, no qual monstros gigantes e reviravoltas inexplicáveis serviam de costura nesse corpo morto-vivo. Agora, para celebrar os 30 anos da franquia, Resident Evil Requiem, o nono capítulo principal da série, sai com uma missão parecida. Desta vez, felizmente, o resultado é bem melhor.
Dividido em dois protagonistas – a novata medrosa Grace Ashcroft e o veterano Leon S. Kennedy – para alternar entre terror e ação, Requiem também quer abordar o que Resident Evil foi e ainda é ao longo das três décadas de sua existência. Seus aprendizados, porém, vêm dos tempos mais recentes, quando os remakes de clássicos e a duologia em primeira pessoa de Resident Evil 7 e Village não só revitalizaram toda a marca, como apresentaram um caminho claro para o futuro de um dos nomes mais icônicos da história dos videogames. Requiem é o fruto de 10 anos de vitórias de Resident Evil; seja em sua tecnologia, gameplay e (até certo ponto) narrativa, ele é o Resident Evil 6 que deu certo.
A história da vez começa quando Grace e Leon buscam respostas sobre uma série de assassinatos misteriosos. Ela os investiga porque uma conexão com sua família surgiu (sua mãe é Alyssa Ashcroft, de Resident Evil: Outbreak) e ele porque há alguma ligação entre essas mortes e o uso de armas biológicas. Eventualmente, os dois são levados a um centro de pesquisas infestado de zumbis, criaturas monstruosas e quebra-cabeças que te rendem chaves cristalizadas e coisas semelhantes. Em outras palavras, o típico cenário de Resident Evil (inclusive em sua geografia, com áreas de leste e oeste divididas por um espaço-seguro central). Este ambiente é explorado primeiro por Grace, e depois por Leon.
Depois de escolher entre perspectivas em primeira e terceira pessoa para os dois personagens (eu segui a recomendação dos desenvolvedores: primeira pessoa para Grace, terceira pessoa para Leon), inicialmente encaramos a aventura na pele da novata, que abre espaço para um tipo de terror poucas vezes visto na série. Mesmo quando Leon era jovem, afinal, ele ainda era um policial. Grace até faz parte do FBI, mas nunca saiu em missões de campo. Veteranos de Resident Evil não vão exatamente sentir medo, mas a construção de atmosfera que parte do horror sentido por Grace ajuda a deixar suas fases genuinamente tenebrosas, algo potencializado pelo design de criaturas de Requiem. Além de ter os zumbis mais nojentos de Resident Evil, o jogo também conta com monstros especiais dignos de serem descritos como material de pesadelo.
A tensão é tão palpável que, quando assumimos a pele de Leon – capaz de matar zumbis em alguns golpes, nunca surpreendido por um novo adversário e equipado com todo tipo de arma imaginável – a sensação é de catarse. Há um relaxamento potencializado pelo quão travada nossa mandíbula estava com Grace. Sem cair de vez nos exageros que já prejudicaram Resident Evil no passado, Requiem transforma Leon numa máquina de matar apenas se o jogador se comporta como ele, isto é: experiente e preparado. Não adianta achar que nada pode te ferir, mas para quem sabe o que está fazendo, as partes de Leon são verdadeiras fantasias de poder.
Aqui, também, há uma dinâmica curiosa e bem-vinda. A área inicial é, essencialmente, a única que pode ser encarada com os dois personagens. Isso abre a oportunidade de, digamos, limpar um quarto particularmente infestado de zumbis com Leon para depois voltar com Grace e enfim pegar aquele item valioso. A divisão entre os dois, depois disso, é como água e óleo. Eles se tocam, mas nunca se misturam. Há a sensação de um potencial perdido nisso.
O que não quer dizer que suas respectivas fases não continuem excelentes. E se a primeira metade de Requiem foca mais em Grace, a segunda – que leva a franquia de volta a Raccoon City – foca mais em Leon, e se revela como um verdadeiro playground de ação. Entre novos inimigos e fases com design inspirado, Requiem abre de vez o baú de ideias para deixar o jogador se divertir. Essa reta final, claro, também revela os segredos da história e está repleta de fan service.
Não vamos entrar em spoilers, mas aqui há altos e baixos. Há algumas aparições e boss fights que deixarão os fãs genuinamente empolgados, enquanto outras parecem uma forçada de barra sinistra que busca só dizer: “lembra disso?”. Seja como for, o enredo – que não tem vilões memoráveis e segue uma estrutura muito familiar de Resident Evil – ainda tem muitos méritos, em particular no que diz respeito a Grace e uma reviravolta final sobre sua relação com o misterioso projeto “Elpis”, que move tanto protagonistas quanto antagonistas em suas buscas.
Ao todo, Resident Evil Requiem cumpre com louvor sua missão inicial. Sem grandes inovações e familiar em bons e maus sentidos, o nono game mainline é exatamente o que a Capcom quer: uma celebração da melhor fase de Resident Evil; a cereja no topo do bolo de uma década de sucesso ininterrupto da série que, em seus muitos acertos e poucos erros, termina sendo uma espécie de Resident Evil definitivo. Tudo o que você espera até aqui, refinado, modernizado e, diferente de seus monstros, vivíssimo.
Resident Evil 9: Requiem
Resident Evil Requiem